CRÔNICAS

O Negão nu: uma aula de orçamento público

Em: 15 de Julho de 1996 Visualizações: 2764
O Negão nu: uma aula de orçamento público

.“Tentar imaginar o que teria sido o mundo se Deus tivesse conseguido um orçamento e roteirista melhores”. Woody Allen.

- Professor Danilo Babão, o Governo do Amazonas jura que não tem verbas para a saúde e a educação. Se o dinheiro sumiu, cadê o gato? 

A pergunta feita à queima-roupa desconcertou Danilo Gurgel do Amaral, ex-professor de Economia da Universidade do Amazonas (UA). O apelido carinhoso foi dado pelos alunos, porque durante suas aulas ele não tirava o cigarro do canto da boca, lambuzando a lapela do paletó impecavelmente branco. Morreu há anos em Belo Horizonte.

O contato com o espírito de Danilo Babão aconteceu no velho ICHL, que havia sediado o seminário São José.  Não foi fácil. Seu celular estava sempre fora da área. As linhas se entrecruzavam:

- Alô, Além?

- Não! Alenquer, no Pará. Foi engano.

Depois de muita reza no oratório do antigo seminário, o espírito do Babão baixou, enfim, graças à intermediação de Nelson Rodrigues, para quem as entrevistas reais são sempre falsas, porque os entrevistados nunca dizem o que pensam e sentem. É um jogo de esconde-esconde. Diante dos jornalistas, fazem pose e mentem descaradamente. Jogam para a plateia. Por isso, Nelson defende a entrevista imaginária como a única possibilidade de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria nem ao padre ou ao psicanalista.

Portanto, a nossa entrevista imaginária e, ainda por cima com um morto, é duplamente verdadeira. Vozes do Além não mentem. Mortos costumam dizer tudo o que pensam, porque não temem mais demissão ou perseguição, não têm medo sequer dos milicianos ou da PPK. Diante da eternidade, o que significa Klinger Costa, secretário de Segurança? Nada. Repeti a pergunta inicial com outras palavras:

Takipratri (TKT) – Na qualidade de especialista e professor de “Análise de Balanços”, o sr. pode nos dizer para onde está indo o dinheiro arrecadado pelo Governo do Estado do Amazonas?

Danilo Babão (DB) – Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que nunca em toda a história do Amazonas entrou tanto dinheiro nos cofres públicos como agora. Em 1995, o Estado arrecadou R$ 1.612.735.474,66. Repita comigo em voz alta, meu filho: um bilhão, seiscentos e doze milhões, setecentos e trinta e cinco mil, quatrocentos e quatro reais e sessenta e seis centavos.

TKP (depois de repetir) – Mas isso é uma pororoca de dinheiro. Estamos mergulhados na bufunda...

DB – Meu filho, o governador Amazonino Mendes, doravante denominado aqui pelo auto apelido de “Negão”, pelo qual ele gosta de ser chamado, toma banho de moedas diariamente e nada numa piscina de dólares como o Tio Patinhas. Para você ter uma ideia do que isso significa, a receita de 1994 – considerada enorme naquele momento, foi de 610 milhões de reais. Ou seja, no primeiro ano de governo, o Negão arrecadou quase três vezes mais do que Gilberto Mestrinho em seu último ano de governo.

TKP – Não estou entendendo. Amazonino pagou salários de fome a professores e médicos. Tratou o resto do funcionalismo a pão e água. Não realizou qualquer obra visível de importância. O Eduardo Braga sozinho construiu em Manaus mais do que o Negão em todo o Amazonas. Onde ele meteu esse dinheiro? O gato comeu? Ninguém viu?

DB – Procure o Diário Oficial do Estado do Amazonas (DOEA), edição de 03 de abril de 1996. Lá está o que o Estado arrecadou e o que gastou no passado. Você não sabe ler? Leia. São apenas 206 páginas.

TKP – Ninguém lê o Diário Oficial. Circula atrasado, as letras são miúdas, as palavras em economês. É muito árido.

DB – (indignado) – Árido? Pelo amor de Deus. Não me diga uma besteira dessa. Este número do DOEA contém mais sacanagem do que qualquer revistinha pornográfica. É como se a revista “Eficaz”, especializada em informações tributárias, tivesse na capa uma mulher nua com os peitões de fora.

TKP Professor, vou lhe confessar. Li, mas não entendi bulhufas. Está cheio de termos técnicos. Sei lá que diabo é “demonstrativo das contenções do orçamento”. Não entendo essa linguagem esotérica de “propensão a poupar” e “relação capital-produto”.

DB – Aí é que está. É aí que os negões da política enrolam vocês. Só existirá verdadeira democracia quando o cidadão comum for capaz de ler e decifrar o orçamento. No dia em que a dona de casa se abanar com o Diário Oficial como faz com a revista Contigo, Negão nenhum passará mais a perna em ninguém. Não tem mistério. O orçamento se divide em receita – o dinheiro dos impostos e taxas que entra nos cofres públicos e despesa, que o Governo desembolsa de acordo com certas normas.

TKP – Traduza então para os nossos leitores e leitoras em que, afinal, o Governo Amazonino gastou tanto dinheiro?

DB – Não precisa ser nenhuma sumidade em finanças, nenhuma cleísa, para responder sua pergunta. Qualquer guarda-livros pode lhe mostrar aonde o Negão não gastou. O orçamento autorizado para a saúde o saneamento era de mais de 352 milhões de reais, mas gastaram apenas 146 milhões, o que representa 8,40% da receita. Sobraram mais de 206 milhões. O Hospital Adriano Jorge, cujo orçamento autorizado era de quase 16 milhões de reais, gastou apenas 850 mil durante todo ano. O Pronto-Socorro 28 de agosto tinha também autorizado mais de 15 milhões e meio de reais e só gastou hum milhão e meio. O PAM devia usar quase 2 milhões e só realizou 344 mil.

TKP – Quer dizer que o sobina do Cabo Pereira, como superintendente da SUSAM, preferiu deixar crianças morrendo nas portas dos hospitais e mulheres parindo nos corredores do que usar a verba autorizada que já existia! E pra onde foi a sobra enorme dessa bufunfa? Para a Educação? Para os projetos do Terceiro Ciclo?

DB – Tolinho. Bobinho. Com a educação aconteceu o mesmo que com a saúde. Quanto ao item “Agricultura” - a alma do “Terceiro Ciclo” - que foi o chefe da campanha do Negão, recebeu percentual de 0.87%. Realmente é muita fartura para o interior. “Farta” tudo.

TKT – Já sei. O governo economizou para ficar com dinheiro em caixa...

DB – Não diga besteira, meu filho. Vá se alfabetizar em Economia. Releia o Diário Oficial. O governo gastou muito mais do que arrecadou no ano passado. Enquanto a Receita foi de R$ 1.612.735.474,66, os gastos subiram para R$ 1.737.988.874,64 aumentando o déficit público. O resultado foi negativo. Você sabe o que é déficit público?

TKT Pelo amor de Santa Etelvina, me explique, então, onde foi parar tanto dinheiro? Chega de suspense. A entrevista está quase terminando.

DB -  Vou te dar uma posta. Pega o Orçamento. Lê o item “Restos a pagar”. Os gatos estão lá. Há um verdadeiro desfile de contas, que não deu tempo de pagar em 1995 e ficaram para o exercício de 1996. Só na Secretaria do Estado dos Transportes e Obras ficou um buraco de 100 milhões de reais. Verifica quais são as empreiteiras e construtoras mais bem aquinhoadas, além de Marmude Cameli & Cia, Encocel Empresa de Construção Civil e a Capa. Verifica quanto essas empresas receberam em 1995. Indaga quem são seus donos. Depois, me conta.

TKT – Professor Babão, com todo o respeito, o senhor acha que nós somos babacas?

DB – Empresários, jornalistas, funcionários, médicos, estudantes, professores, agentes da polícia, trabalhadores da cidade e do campo, advogados, profissionais liberais, os vossos filhos e os vossos netos não vos perdoarão pelo fato de não terem percebido que o rei está nu. Vocês estão sendo mais enganados do que o Geremia Berdinazzi pela Glória Pires na novela “O Rei do Gado”.

 

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