CRÔNICAS

EM BUSCA DO SOM DE DEUS

Em: 01 de Julho de 2007 Visualizações: 2915
EM BUSCA DO SOM DE DEUS

Na minha infância, em Manaus, sempre tive vontade de ouvir a voz de Deus, mas nunca consegui, ou porque ele se lixou e não se dignou mesmo a me falar ou talvez por causa de uns problemas auditivos que me acompanham. Nessa semana, de passagem por Paris, surgiu, enfim, a oportunidade tão ansiosamente esperada. Vi anunciado em cartazes, nas estações do Metro, que era possível ouvir o som de Deus pelo preço de 170 reais, o que é caro para um brasileiro assalariado, mas uma merreca se considerarmos a importância do dono da voz. 

Disposto a pagar o que para mim é uma pequena fortuna, me dirigi ao Les Halles, bairro onde ficava o tradicional mercado, bem no coração de Paris, e busquei a igreja de Santo Eustáquio. Era lá, nessa igreja, que uma jovem cantora francesa, chamada Camille, apresentava um espetáculo intitulado O Som de Deus,  baseado na obra God is Sound do compositor Benjamin Britten. De Deus ouvi falar, porque minha mãe e minhas nove irmãs são cupinchas dele, mas confesso que nunca vi mais gordos o músico e a cantora. Suspeito que o leitor, na mesma situação, vai me cobrar informações sobre eles dois.

Quem tem google, tem tudo. Descubro, então, que o compositor de música clássica, Benjamin Britten (1913-1976), foi uma espécie de Villa-Lobos inglês, que se inspirou em melodias tradicionais britânicas para criar óperas, sinfonias e peças religiosas. Os críticos dizem que a infância de Benjamin, considerada como uma espécie de paraiso perdido, é sua principal fonte de inspiração e que sua obra está marcada pela dor e pela recusa de se tornar adulto, ou seja,de virar um cara babaca, duro, impiedoso e cínico.

Não quero fazer fofoca não, mas o jornal Le Monde informa que Benjamin Britten ‘corria na floresta’ e que viveu 35 anos de sua vida com o cantor de ópera Peter Pears, o que fazia com que se sentisse duplamente excluido: criança num mundo de adultos e homossexual numa sociedade machista. Mas ele era também anti-fascista e pacifista numa Europa dominada pela guerra, da qual fugiu para o exílio nos Estados Unidos. “Acredito que Deus está presente em cada pessoa, por isso não posso matar ninguém. O que eu quero mesmo é ajudar os seres humanos com a minha música, trabalhando pela paz”.

Ele fez isso. Aos 29 anos de idade, em plena segunda guerra mundial, compôs cantos de natal para harpa e voz feminina, mas estabeleceu condições para a interpretação de sua música: “A única coisa que exijo de um cantor é que sua voz represente a sua personalidade, revele quem ele realmente é. Por isso, desprezo o que as pessoas denominam de uma ‘bela voz’, que para mim é como uma fruta que amadureceu demais, apodreceu e deixou de ser uma legitima expressão vocal”.

A cantora francesa Camille, hoje com 29 anos, tem uma voz que parece atender a essas exigências e se enquadra no espirito pacifista do compositor. Ela convidou para participar do seu espetáculo duas outras cantoras: um negona senegalesa que vive em Paris, Julia Sarr, e uma cantora da India, chamada Indi Kaur. São elas três que interpretam a voz de Deus na igreja de Santo Eustáquio.

Se Deus existe mesmo – diz Camille – então Deus é som. Eu já suspeitava disso, depois de ler  o mito de criação do mundo dos indios Tukano, registrado por Gabriel Gentil, confirmando que o mundo foi criado a partir do som. Segundo os Tukano, a música existe antes de qualquer coisa. “Quando não existia nada, só o espaço frio, o espaço vazio, o espaço triste, o espaço sem idéias, existia uma voz que soava. As musicas andavam dançando, fazendo carinho. Elas tinham um corpo em forma de vento". A música penetrou no corpo da Yepá, a avó do mundo, fecundando-a. Quem criou o mundo, para os Tukano, foi um Deus feminino. Ela nos deu a vida. Somos filhos da música que engravidou a criadora do mundo

Da mesma forma que os Tukano, Camille descobriu que Deus é som, não monocorde, mas plural, que a tolerância é um valor a ser cultivado e que toda religião deve ser tratada com respeito. Ela conta que visitou recentemente Jerusalém, o berço de várias religiões, que devia ser um óasis de paz, e ficou horrorizada com o clima de ódio e de guerra lá existente. Por isso, procurou reconstruir o som de Deus através de músicas tradicionais de diferentes religiões: canto dos griots africanos, música persa, cânticos judeus, argelinos, taoístas, shintoístas e de outros diferentes povos, entoados quase sempre em um contexto de ritual religioso.

A igreja de Santo Eustáquio, construida no século XVI, logo depois do chamado ‘descobrimento’ do Brasil, foi o local considerado ideal para ecoar esse som. Nas suas paredes estão escritas palavras, informando que era frequentada por São Vicente de Paula, que lá foram  batizadas grandes personalidades da história da França como Richelieu, Molière, Madame Pompadou. Foi lá que o rei Luis XIV fez sua primeira comunhão e foram rezadas as missas de sétimo dia de morte de La Fontaine, de Mirabeau e da mãe de Mozart.

Na realidade, a própria Igreja Católica duvida se Santo Eustáquio, um general romano convertido ao cristianismo,  existiu mesmo ou se é uma criação lendária. Tanto que o papa Paulo VI o retirou em 1969 do calendário litúrgico. Mas a igreja de Santo Eustáquio, a mais importante de Paris depois da Catedral de Notre Dame, continua lá, distribuindo no inverno a sopa dos pobres, uma tradição iniciada pelos feirantes na Idade Media, que aproveitavam a sobra das verduras para dar de comer a quem tinha fome.

Contei tudo isso só pra te dizer, leitor (a), que fui a igreja de Santo Eustáquio, mas não foi ainda desta vez que ouvi o som de Deus, porque todas as entradas já haviam sido vendidas. A igreja estava entupida. Uma pena e uma grande frustração. Monsieur Pascal Foucher et Madame Marilza de Mello Foucher, que me acompanharam, são testemunhas de que tentei escutar a voz de Deus, sem sucesso. Vou continuar tentando. Talvez Deus fale guarani ou tukano, quem sabe?

 

 

 

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