CRÔNICAS

O Carrossel da Saudade: os anjos dizem amém

Em: 06 de Junho de 1997 Visualizações: 7260
O Carrossel da Saudade: os anjos dizem amém

Maio. Sexta-feira à noite. Véspera do Dia das Mães. De passagem por Manaus, hospedado na casa materna, eu me preparava para ir ao encontro de amigos. Saía do banho, quando a voz do apresentador Walter Yallas estrondou dentro de casa:

- Você está ligado em mais um "Carrossel da Saudade", programa ao vivo da Fundação Televisão e Rádio Cultura do Amazonas.

Ele continua detalhando: “Aqui, o seresteiro baré solta sua voz, emocionando milhares de telespectadores, com suas canções românticas. Hoje, cantaremos às mães, cujo dia se comemora neste domingo. Atenção, produção! Vamos mostrar os brindes que serão sorteados”.

A crase aqui é fundamental, porque esse negócio de "cantar a mãe", sem crase, soa edipianamente estranho, não é não? A irmã do cantor Paulo Kokai, Ana Paula, que se crê podre de chique, garantia: "O programa é brega e cafona". Saí do banheiro, enrolado na toalha. Peguei o controle remoto e diminuí autoritariamente o volume da TV, ligada por dona Elisa. O som, no entanto, curiosamente, continuava alto e estridente.

- Não adianta, meu filho! Vem de fora, da casa da Leonor, da Leninha, do Aguimar, do Armindo, de todo mundo. O nosso controle remoto não entra lá.

Olhei pela janela. Era verdade. Todos os televisores do Beco da Bosta estavam sintonizados na TV Cultura. As portas das casas falavam uma só língua, lançavam na rua a mesma voz, que invadia todos os lares. O bairro de Aparecida, de repente, deixou de ouvir o plim-plim da Globo. Era um fenômeno: Manaus inteira ligadona no "Carrossel", que tomou conta dos amazonenses. Era transmitido ao vivo desde 1980 e, como num programa de auditório, repleto de gente sentada à mesa ou dançando. 

Walter, o simpático e competente apresentador, enamorado da frase: "Atenção, produção", repetida dezenas de vezes, anunciou Lélia de Souza. Com voz sóbria e firme, ela faz cosquinhas na alma da gente. Olhei, invocado: Conheço a Lélia de algum lugar! De onde, meu Deus?

- Ah, já sei - gritei, assustando dona Elisa. - A Lélia é irmã do Pavão e do Mark Clark, ali da Luís Antony, vizinhos da dona Teresa Nóvoa.

No intervalo, o sorteio de um buquê de flores. Entra o cantor "Rouxinol", provocando uma leve embriaguez auditiva com "Perfume de Gardênia":

- Teu corpo é uma cóoooopia de Vênus e provocas inveja nas mulheres, quando te veem passar.

Fiquei arrepiadinho. Depois, ele trina, gorjeia e soluça:

"Tenho ciúmes do sol, do luar, do mar, tenho ciúmes de tuuuuudo, tenho ciúmes até, da roooupa, que tu vestes".

Lembrei-me de uma saia plissada da "Saubinha", minha primeira namorada, calipígia.

Nessas alturas, resolvi atrasar meu compromisso para poder assistir integralmente o carrossel ao lado da dona Elisa. De vez em quando, a câmara mostra a reação da plateia, o que permite ao telespectador praticar "tiro ao alvo", ou seja, identificar algum parente ou amigo, naqueles rostos que aparecem alguns segundos na telinha. Chegou a vez do Manoel Costa: "Suave é a noite". Canta bem. Dona Elisa, já deitada, explica:

- Sabe quem é ele? É o irmão do Joca, filho do seu Lima, que morou no Beco da Indústria.

- Atenção, produção! Coisa e tal, pererê-pão-duro, lesco-lesco e agora, com vocês - ELE - Estevam Santos, sua voz, seu violão.

Walter não fala Estevão. Pronuncia Estevam, caprichando no "m". Há mais de cinquenta anos, Estevinho, com a garganta molhada de cachaça, nos deslumbra com "Zíngara", chamando a cigana bonita para ler o nosso destino, ver o nosso segredo. Desta vez não é diferente. A câmara desloca-se do cantor, percorre a plateia e dá um close num nariz querido. Excitadíssimo, berro:

- Mãe, olha a Vânia da tia Helena!

- Aonde? Aonde?           

- Ali, ali, aquele nariz vestido de marrom.

Era, efetivamente, minha prima Vânia. No momento do larí-lará, larí-lará, seu nariz estava de bubuia, quase naufragando, num rosto debulhado em lágrimas. Eu sabia exatamente o que ela estava sentindo. Compartilhava sua emoção. A cigana do Estevinho podia não desvendar nosso futuro, mas acabava de ler o nosso passado. Como Exu, ela matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. Nossa infância perdida. O tio Dantas, os programas da Gelomatic, o Serviço de Amplificação a Voz Quermesse de Aparecida (O locutor, Zeca Pinto, falava "amprificação") estava tudo condensado ali, naquele momento.

Se vejo alguém chorando, minhas glândulas lacrimais, invejosas, não resistem. Por isso, quando o apresentador anunciou a atração nacional, a figura de Waldick Soriano me apareceu meio embaçada. Com sua voz cafajeste, ele cantou "Não toque esse disco" e é como se eu estivesse Lá, Hoje. Vi a agulha da vitrola da tia Dedé girando:

- Escuta, meu amigo, não toque esse disco, que ele me traz uma pena, uma angústia infinita. Ouvindo esse disco, eu fico a recordar, a história dessa música, relembra meu passado.

Fiquei ferido de morte. Era o tiro de graça.

A câmara desliza pela plateia mostrando uma, duas, trinta, trezentas vânias e alguns zé-albertos chorando copiosamente. Olho pela janela: uma enxurrada de lágrimas lava o beco. Naquela noite, os higrômetros registraram uma notável subida do rio Negro, com a quantidade de água salgada que recebeu. Aumentou ainda mais quando - atenção produção! - Walter anuncia a cantora amazonense Núbia Almeida. Aí já era covardia! Núbia entra suave, sua voz de veludo vai crescendo, se avolumando como um novelo de lã:

- Nas tardes de maio, a mãe de Jesus (ela diz "Gizus"), enche de glórias novenas.

Prossegue eletrizante:

- Oh, mãe, doce mãe, um altar tu mereces, pois sendo mulher tu és santa também, na hora em que rezas por mim, as santas repetem amém.

Nas três vezes em que cantou o estribilho, cada vez que dizia "as santas repetem amém", dona Elisa, a meu lado, corrigia: "os anjos".

Durante o sorteio do microondas, dona Elisa, inconformada, ainda insistia teimosamente:

- "Meu filho, a Núbia canta muito bonito, mas ela está errada. Quem repete amém não são as santas.

Dei-lhe razão. Imagina se santas vão querer ocupar-se de tarefa tão angelical! Se não são os anjos que dizem amém, então, me diga, dona Núbia, o que é que eles fazem, para que servem? Não desempregue os anjos, dona Núbia, eles precisam desse trabalho para sobreviver.

O Carrossel terminou. Botei dona Elisa prá dormir e saí para a noite, ruminando. Talvez, o segredo deste programa é que ele funciona como um espelho. A gente se vê nele. Descubro, estarrecido, que o "Carrossel da Saudade" sou eu. Sou eu, minhas irmãs, minhas primas, meus vizinhos, os amigos, nossa história.

Cafona? E daí? Perplexo, confirmo cá com os meus botões:

- Meu Deus, sou mesmo amazonense!

Como ninguém é amazonense impunemente - atenção produção! - saio pelo beco assoviando "Zíngara", implorando a Orfeu e a Dionísio que não deixem o carrossel parar e que tanto os anjos da dona Elisa como as santas da Núbia digam amém. 

P.S. - Publicado na Revista CIRCUITO INTEGRADO, ANO III, Nº 15

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