CRÔNICAS

NO TE VAYAS, EVITO!

Em: 29 de Janeiro de 2006 Visualizações: 2964
NO TE VAYAS, EVITO!
Chego aqui na Bolívia um dia depois da posse do novo presidente da República, o ex-pastor de lhamas, Evo Morales. Assisto um pouco a tv e leio nos jornais locais que a ministra da Justiça do novo governo é uma índia, chamada Casimira Rodriguez, ex-empregada doméstica. Depois, caminho meio sem rumo, zanzando daqui prali, em busca dos restos da festa. Está todo mundo de ressaca, ressaca, ressaca, como na antiga marchinha de carnaval. Converso com as pessoas nas ruas, nas praças, nas feiras e mercados, na universidade e nas livrarias, tentando entender o que está acontecendo. O assunto é um só.  
O boliviano, como regra geral, é caladão, muito na dele, mas agora parece confiante, alegre e esperançoso. O país está em ebulição. Durante toda a semana, as cenas da posse são repassadas infinitas vezes pela tv: Evo levanta o punho esquerdo e jura a Constituição. Ninguém se cansa de ver as mesmas imagens repetidas, como se elas viessem confirmar a cada momento que quem comanda o país hoje é mesmo um índio. Não há mais dúvidas. 
As pessoas querem também ver e rever as cenas da festa popular. Na praça Murillo, tocadores de flautas, quenas, sampoñas e bombos animam os cantos e as danças tradicionais: carnavalitos, bailecitos, passacalles, huaynos. taquirari, chacarera e cueca. Um telão transmite tudo para a praça dos Heróis, em La Paz, entupigaitada até o tucupi, com mais de 50.000 representantes daquela Bolívia que o cineasta Jorge Sanjines um dia chamou de “nação clandestina”, formada pelos deserdados: camponeses, mineiros, cocaleiros, índios aimaras, quéchuas, guaranis, moxeños, chiquitanos, cholos e mestiços.  
Sem medo de ser
O exército boliviano sempre considerou essa “nação clandestina” como inimiga. Por isso, matou Che Guevara, massacrou mineiros, prendeu índios, reprimiu campesinos, atacou os plantadores de coca e puxou o saco dos Estados Unidos. Agora, os generais desse exército batem continência para o líder cocaleiro. Dá um doce gostinho de vingança ver essa cena. Depois, todo mundo canta o hino nacional. Evo discursa, sem ler, num espanhol articulado e elegante. Fala também em aimara e em quéchua. A multidão entende o gesto e delira.
Mas o escritor Mário Vargas Llosa, candidato derrotado a presidente da República do Peru, tentou desqualificar as qualidades do novo presidente da Bolívia. Num artigo publicado em jornal da Espanha, onde atualmente vive, ele esquartejou simbolicamente Evo Morales, afirmando que “ele não é índio, porque fala um espanhol perfeito”. Trata-se de um discurso rancoroso e mesquinho. Com a mesma “lógica”, podemos negar a peruanidade de Vargas Llosa, que fala muito bem o inglês, pois viveu anos na Inglaterra.
É diferente a opinião de outro escritor, o uruguaio Eduardo Galeano, autor do livro clássico “As veias abertas da América Latina”. Ele foi especialmente convidado por Evo para a cerimônia de posse. Os jornais impressos da Bolívia deram destaque ao seu discurso. Na sua fala, bastante aplaudida, lembrou que há muitos anos esteve presente em uma assembléia de mineiros de Llallagua, quando Domitila Chungara tomou a palavra e perguntou: “qual é o nosso principal inimigo, companheiros?”
Segundo Galeano, “alguns mineiros responderam que o principal inimigo do povo boliviano era a oligarquia. Outros, que era o imperialismo. Domitila discordou de todos eles: - Não, companheiros! Nosso principal inimigo é o medo, que está dentro de nós, nos corrói e nos paralisa. O medo de lembrar, o medo de viver, o medo de morrer e, sobretudo, o medo de ser quem a gente é, o medo de nos vermos tal como somos e como podemos ser, o medo de nos reconhecermos em toda a nossa esplêndida e poderosa plenitude. Mas esse medo não é um inimigo invencível. Podemos derrotá-lo”.
Serei milhões
O medo talvez esteja sendo derrotado. Vendo o povo festejando a vitória nas urnas, parece que se cumpre a profecia de Tupac Katari, líder aimara que liderou uma revolução democrática no século XVIII contra o colonialismo espanhol. No final, ele foi derrotado, preso e esquartejado, da mesma maneira que o líder quéchua do Peru, Tupac Amaru. Antes de morrer, prometeu: “Volveré y seré millones”. 
Hoje, eles estão voltando e são efetivamente milhões, festejando o resultado das eleições. No final da cerimônia, de pé, no balcão do Palácio Quemado, Evo se despede. Lá embaixo as câmaras de tv focalizam, no meio da multidão, uma velhinha, miudinha e encarquilhada, com o queixo pontiagudo de bruxinha de história infantil (parece muito com minha avó Filó). Ela abre sua boca, mostrando dois caquinhos de dente e grita, emocionada: “No te vayas, Evito”.
Juro que senti um trololó no coração, vendo a “vovó Filó”, com sua boca engilhada, suas polleras coloridas, seu sombrero, suas mãos de crosta dura de quem trabalhou a terra, pedindo a Evo que ficasse mais um pouco no balcão do Palácio, dialogando com o povo. Era só isso que ela queria: “Não vá embora, Evinho! Fique mais um pouco com a gente”.
Mas de repente, aquele diminutivo carinhoso, demonstrando intimidade e cumplicidade, deu outro sentido à frase. Parecia conter um apelo desesperado para que Evo não faça como tantos outros que, uma vez no poder, pediram penico, traíram suas origens e passaram para o lado de lá, afundando os pés nos tapetes macios dos palácios: “No te vayas, Evito! Quedate con tu pueblo!”
Cabeça do Inkarri
Os povos andinos da Bolívia, Peru e Equador condensaram suas esperanças, de caráter messiânico, num mito pós-hispânico, que só foi descoberto pelos estudiosos no século XX. Nesses países, a tradição oral conta que o Inkarri, martirizado e decapitado pelos espanhóis, teve sua cabeça enterrada num lugar e seu corpo em outro. Mas a cabeça permanece viva, com os olhos bem abertos e, por baixo da terra, está buscando o corpo, que está crescendo de novo. Quando conseguir unir cabeça e corpo, será o tempo de homens novos, livres de toda culpa, e os bons tempos voltarão para o mundo andino.
Nesse contexto o apelo da velhinha – No te vayas, Evito! – pode ser lido também como a expressão de um desejo de que a cabeça - a liderança do movimento, consiga articular as aspirações desse corpo - o conjunto da população indígena, o que não ocorreu no Brasil.
Na qualidade de brasileiro, dá vontade de perguntar como se canta, em quéchua ou aimara: “Evo lá lá, no céu uma estrela”. Mas não sei se rima e nem se é uma solução. Enquanto os bolivianos pedem a Evo que não vá pro outro lado, os brasileiros pedem a Lula que volte pro lado de cá, porque parece que ele já foi em companhia de Sarney, Severino, Renan Calheiros e tantos outros da mesma estirpe.

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