CRÔNICAS

A LOTERIA DO CHIQUINHO

Em: 19 de Setembro de 2004
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Folha Pelo levantamento, o seu filho também foi muito bem no período.
Rodrigues – Oi?
Folha – Seu filho, ele acertou várias vezes...
Rodrigues – Ah, mas ele joga, joga bola. Futebol!
( FSP, domingo, 12/09/04, pg. A16)
“Folha” é a Folha de São Paulo. “Rodrigues” é o deputado federal Francisco Garcia Rodrigues (PP-AM), mais conhecido por nós, amazonenses, como Chiquinho Garcia. A entrevista que ele deu foi para tentar explicar como é que ele e seu filho, no período de três anos, ganharam 43 vezes na loteria esportiva federal, embolsando juntos quase R$ 1 milhão, mais precisamente a merreca de RS$ 811.000,00, noves fora tudo. A matéria é um modelo de peça jornalística. O repórter apertou, apertou, apertou, e o Chiquinho – pum! – pipocou.
Chiquinho Garcia começou a entrevista dizendo que foi possível ganhar muitas vezes na loteria esportiva graças ao seu saber acumulado. Ele, pessoalmente, entende pra cacete de futebol e, dessa forma, pode prever os resultados dos jogos com precisão milimétrica. O repórter, então, quis saber se o filho, outro ganhador, também entendia. Desprevenido, com a cueca na mão, Chiquinho pula da cadeira e grita um “oi” de surpresa. Em seguida, na maior cara de pau, “esclarece” que Chiquinho Junior – o Kiko – é bom de bola, deixando implícito que, por isso, consegue também adivinhar os resultados dos jogos.
Filho de chico, chiquinho é. Vá entender de futebol assim na casa do carvalho! Bem que meu amigo Rubirrola, lá de Aparecida, podia ficar podre de rico, pois é capaz de escalar todo o time do Nacional que foi campeão em 1968: Marialvo, Sula, Berto e Téo, Rolinha, Lió, Zezé, Rangel, Pretinho e Pepeta. O Petel, filho da dona Geraldina, sabe que o Auto Esporte foi campeão de 1956 com Vicente, Guarda e Gatinho, o que lhe permitiria ganhar uns trocados. O meu outro dileto amigo, Carlos Zamith – esse, então, podia virar bilionário, entupindo o seu baú velho com dinheiro da loteria esportiva.
O repórter da Folha é incansável e aperta mais. Indaga por que pai e filho deixaram de jogar na Loteria se usando esse saber podiam continuar ganhando muito mais dinheiro. A resposta do Chiquinho é primorosa, faz cócegas na nossa inteligência. Ele diz:
“Nós paramos de jogar, porque a loteria...você joga, o governo fica com 67%. Aí não é mais negócio para o jogador. Quando eu fui ver, fazer a análise, pó, o governo te leva tudo. O jogador só leva 30 e pouco por cento. Aí parei”.
Minha santa periquita! Minha Santa Etelvina dos santos inocentes! Nem Paulo Maluf, nos seus melhores dias, bolaria desculpa tão deliciosamente esfarrapada. Deixa ver se eu entendi direito. No dia em que o Amazonino morrer, ele deixa pro seu herdeiro político Chiquinho Garcia – supunhetamos – sua mansão do Tarumã, avaliada em R$ 2 milhões. Aí, o herdeiro é obrigado a pagar 67% do imposto de transmissão. No entanto, o Chiquinho, altivo, recusa: “Égua, não quero não, porque se eu ganhar esses R$ 660 mil, o governo abocanha os outros R$1.340 mil. Eu, einh! Tão pensando que sou leso?”
Quer dizer, o Chiquinho acha que não é negócio ganhar essa baba toda sem fazer força, só porque quem vai ganhar mais é o Estado – ele fala “governo”, porque não vê a diferença entre um e outro. Ou seja, Francisco Garcia Rodrigues prefere perder dinheiro para, dessa forma, impedir que o Estado também ganhe o seu. Será que o Chiquinho é descendente de algum anarquista espanhol, que desejava dinamitar o Estado?
Ou será que ele pensa que pode convencer alguém com esse discurso descosturado, ilógico, surrealista? Vai ver teve a assessoria do Wallace Souza. A sorte do Chiquinho, que é genética, foi transmitida ao seu rebento Kiko, conforme noticiaram os principais jornais do país, inclusive o Jornal Nacional, da TV Globo. É uma pena que o Chiquinho não tenha conseguido passar a perna no Bosco Saraiva. Se Chiquinho fosse o vice do Negão poderia angariar muitos votos, prometendo ensinar, de graça, à população de Manaus, como ganhar na loteria. De repente, ele criaria até a Loteria Esportiva Municipal.
O irônico da história é o que foi descoberto pelo repórter Pirarucu na Internet. Ele encontrou um projeto de lei do deputado Francisco Garcia Rodrigues, com data de 31 de março de 2004, obrigando a Caixa Econômica Federal a divulgar o nome, CPF e outros dados de todos os ganhadores das apostas efetuadas. Na justificativa, Chiquinho ataca a empresa americana Gtech, responsável pelo processamento de nove mil casas lotéricas no Brasil. Aí, fala com conhecimento de causa, dizendo o seguinte:
“Afora as suspeitas advindas dos contratos mantidos pela Caixa Econômica Federal com a empresa Gtech e que resultaram em prejuízos para os cofres públicos, há ainda o fato, comprovado,de que os programas de computadores utilizados pela multinacional americana estão obsoletos e, portanto, não são imunes a fraudes. (...) De outro lado, contribui para a lavagem de dinheiro e para fraudes de todos os gêneros, com a diferença, irônica, de que no caso, ocorre o beneplácito do poder público. O próprio Ministério Público Federal trabalha em 48 inquéritos envolvendo sortudos das loterias, que alegam ter recebido diversas vezes o prêmio nos concursos da CEF e que podem estar ligados com o crime organizado. Em outras palavras, as loterias da Caixa poderiam estar servindo para a lavagem de dinheiro”.
Falou e disse tudo. Al Capone matava seus inimigos e depois ia ao enterro, chorava e mandava flores para a viúva para ninguém desconfiar dele. Chiquinho Garcia mandou flores no dia 31 de março de 2004, antes que o COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras – pegasse no seu pé. Aliás, é a mesma sigla do Centro de Orientação e Amparo à Família, que o Negão promete criar.

P.S. - Lula preside o país há 627 dias, um prazo suficiente para homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o que ainda não foi feito por ele..

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