CRÔNICAS

O REI DA QUITANDA E O JABUTI

Em: 30 de Janeiro de 2005
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O jabuti estava embaixo de um pé de taperebá, comendo as frutinhas ao lado de alguns amigos. Chegou a anta, com dois capangas - dois gorilões - e disse: “Cai fora, senão leva porrada”. Aí, os três pisaram o jabuti com tanta violência, que ele ficou atolado no barro durante todo o verão. No inverno, a chuva amoleceu o barro, o jabuti saiu e encontrou o rasto da anta. Perguntou a ele: - “Cadê o teu dono?”. O rasto desconfiou: - “O que você quer com ele?” O jabuti disfarçou: - “Nada. Só bater papo”. O rasto acreditou: - “Meu dono tá dormindo ali, na beira do igarapé”. O jabuti foi lá, deu um pulo e agarrou os testículos da anta, apertando com força durante vários dias. Ela urrou de dor até morrer. Quando o cadáver apodreceu, o jabuti pegou o osso da canela, fez uma flauta e saiu tocando por ai: firifiri-finfin, firifiri-finfin.
Essa narrativa singela circulava por toda a Amazônia no século XIX. Uma versão em língua Nheengatu foi recolhida por Couto de Magalhães em 1865. Ele concluiu que se tratava de uma lição ensinada pelos índios do Pará. Moral da história: o caminho para se conseguir justiça é ter paciência, saber esperar; a inteligência vence a truculência; a força do direito vale mais do que o direito da força. Uma versão moderna dessa história – por enquanto apenas na sua primeira parte – acaba de acontecer num restaurante em Belém, com o jornalista Lúcio Flávio Pinto protagonizando o jabuti, e um dos donos de ‘O Liberal', Ronaldo Maioranta, representando o seu próprio papel, ou seja, o de anta maior. Como gorilões, um sargento e um sub-tenente da Polícia Militar do Pará.
Jornal Pessoal
Quem é o jabuti? Lúcio Flávio Pinto, paraense, 54 anos, pai de dois filhos, trabalhou em grandes jornais e revistas de São Paulo, Rio e Belém. Com o seu talento, conquistou quatro prêmios Esso, dois prêmios da Federação Nacional dos Jornalistas e um prêmio internacional dado pela Itália. Sociólogo, já publicou sete livros, além de centenas de artigos. Docente aposentado da Universidade Federal do Pará foi também professor visitante na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Com sua inteligência e sua coragem, ele tem nos ajudado muito a compreender a Amazônia.
Na época da ditadura, foi censurado pelos militares, em matérias enviadas do Chile, no final do governo Allende, e em reportagens sobre a meningite em São Paulo. Mas sofreu também censuras internas, dos próprios jornais onde trabalhava. Por isso, em 1987, rompeu com a grande imprensa, e criou o ‘Jornal Pessoal', que não aceita publicidade e vive apenas de assinaturas. Durante anos, escreveu, sozinho, esse valente tablóide quinzenal (depois mensal), com tiragem de dois mil exemplares, abordando assuntos que eram proibidos e censurados nos grandes jornais de Belém.
Ele dá vários exemplos. A grande imprensa paraense se negou a noticiar o rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia, em 1987, porque a quadrilha era chefiada pelo procurador jurídico do maior jornal local, ‘O Liberal'. Outro exemplo: o assassinato, em 1991, de um membro de uma das mais tradicionais famílias de Belém, envolvido com o narcotráfico internacional. Se cobrisse o caso - o que só o Jornal Pessoal fez - a imprensa poderia ter alertado em tempo a sociedade para a expansão do mundo da droga entre as camadas mais pobres da população e no núcleo do poder.
Lúcio Flávio lutou sempre por “uma imprensa comprometida em ir atrás dos fatos. Não interessa a quem serve ou a quem contraria. Desde que sejam efetivamente fatos e tenham relevância, devem ser publicados. Não só fatos: raciocínios, análises, idéias e propostas. A função principal do jornal é aproximar a agenda do cidadão da pauta da história, permitindo que tenham acesso aos fatos importantes antes que eles estejam consumados. Não deixar que as decisões sejam privilégio de minorias, grupos de pressão ou interesses exclusivistas. Essa imprensa é necessária todos os dias”.
Maior anta
O ‘Jornal Pessoal' publicou matéria em janeiro, assinada por Lúcio Flávio, intitulada “O Rei da quitanda”, contando em detalhes como a família Maiorana acumulou poder com transações comerciais duvidosas, vendendo espaço editorial como se fosse banana. Mostra como o jornal atacou algumas empresas e alguns políticos, transformando-os em inimigos públicos do Pará. No entanto, depois que compram espaço publicitário, a coisa muda. Jader Barbalho deixou de ser ‘ladrão' para se transformar num ‘estadista'. Lúcio Flávio admite que o jornal pode até mudar de opinião, mas precisa explicar porque mudou.  Se não explica, “em linguagem de rua, isso é chantagem”.
Foi aí que entrou em ação Ronaldo Maioranta, 36 anos, pai também de dois filhos, podre de rico, sócio das Organizações Rômulo Maiorana (ORM), dono do jornal ‘O Liberal', de emissoras de rádio e da afiliada local da Rede Globo. Em vez de exercer o direito de resposta, ou de usar sua própria mídia para publicar a sua versão, deu uma de anta. Encontrou Lúcio Flávio em um restaurante de Belém, chamou os seus dois seguranças – um é sargento e o outro sub-tenente da PM - e os três espancaram o jornalista, ameaçando-o de morte. A advogada Mary Cohen, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Pará, estranhou que militares pagos com dinheiro público, estivessem fazendo segurança privada ao empresário.
As emissoras e o jornal da ORM não deram uma palavra sobre o assunto. Seus leitores não tomaram conhecimento do fato. Mas anteontem, quando Ronaldo Maioranta foi prestar depoimento na Delegacia de Polícia, a ORM enviou para lá doze jornalistas, cinegrafistas, radialistas, câmeras, fotógrafos e oscambau a quatro, sem contar os técnicos de televisão. Só para intimidar. Como estratégia de defesa, Maioranta reconheceu seu erro, mas alegou ter agido “sob emoção violenta, na justa indignação”. Se cada pessoa que discordasse das versões construídas pelo ‘O Liberal' agisse da mesma forma, a anta seria um animal em extinção. Lúcio Flávio ironizou: “Pela tese do meu agressor, daqui a pouco serei acusado de bater com a minha cara na mão dele. Isso é um ultraje à inteligência das pessoas”.
O jornalista Lúcio Flávio Pinto já foi atrás do rasto da anta. Nos próximos dias, ele vai entrar com uma ação penal e outra cível, por dano moral, contra o empresário Ronaldo Maioranta, responsável por agressão covarde que feriu toda a categoria de jornalistas e a própria liberdade de expressão. Como o jabuti, saberemos esperar o momento em que se fará justiça, quando então, metaforicamente, tocaremos flauta com a canela da anta: firifiri-finfin.
P.S. – Lula está governando o país há 760 dias e ainda não homologou a demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em área contínua.

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