CRÔNICAS

ESSE NOSSO JEITÃO DE FALAR

Em: 20 de Fevereiro de 2005 Visualizações: 2483
ESSE NOSSO JEITÃO DE FALAR
“O papagaio é um bicho inteligente, ele fala toda língua, até
 a língua amazonense”. (Letra de uma música de carimbó).

A Unesco recomendou recentemente a todos os países do mundo que 21 de fevereiro seja considerado o dia internacional da língua materna. Não sei se amanhã vai haver algum tipo de comemoração oficial, se os governos nacionais estão preocupados com o tema, mas é sobre ele que me sinto na obrigação de escrever hoje. Afinal, a conversa semanal que temos aqui com os leitores, só é possível, por causa dela, a língua materna, onde fazemos nossa morada. Ela entra na composição desse jornal, como o trigo na feitura do pão. Sem ela, o milagre da comunicação não aconteceria. 
O que é mesmo a língua materna? Vale a pena conferir o que diz Benedict Anderson, professor da Universidade de Cornell (EUA), que estudou o Timor Leste, na Indonésia, onde também se fala português. Para ele, língua materna é aquela que a gente encontra no colo da mãe na primeira mamada e só vai abandonar lá no cemitério, depois do último suspiro. Por isso, criamos com ela laços afetivos:
“O que os olhos são para o amante – aqueles olhos comuns especiais com que ele, ou ela, nasceu – a língua é para o patriota. Por meio dessa língua, reconstituem-se os passados, imaginam-se solidariedades, sonham-se futuros” escreve Anderson. 
A língua amazonense
A língua encontrada pelos amazonenses no seio materno é o português, o que permite nos integrar ao resto do Brasil e às comunidades de fala lusitana. No entanto, é um português um pouco diferente das demais variedades, o que nos identifica e nos torna únicos no planeta, com o nosso jeito próprio de falar. O português falado no Amazonas vem sendo construído nos últimos séculos em contato com centenas de línguas indígenas e até mesmo com algumas línguas africanas que foram para aqui transplantadas. 
Esse nosso jeitão de falar tem merecido a atenção de vários estudiosos. O primeiro deles foi um médico baiano, Alfredo Augusto da Matta (1870-1954), que viveu e trabalhou em Manaus por mais de cinco décadas. Ele ficou tão impressionado com a ‘língua amazonense’, que escreveu em 1939 um livro intitulado ‘Vocabulário Amazonense: contribuição para o seu estudo”, reunindo aproximadamente quatro mil palavras de cunho regional, ligados à flora, à fauna, à alimentação, aos acidentes topográficos e hidrográficos.
Mas Alfredo da Matta não era linguista. Os instrumentos que usou em sua análise também não eram tão sofisticados como os que os pesquisadores dispõem agora. Sabemos, hoje, que a convivência histórica da língua portuguesa com as línguas indígenas da Amazônia deixou consequências muito mais profundas do que a simples incorporação de palavras de origem tupi, consideradas exóticas ou folclóricas. O português que nós falamos está marcado pela entoação, pela cadência e até mesmo por alguns traços fonológicos do Nheengatu, como foi constatado pelo linguista paraense Luiz Borges em estudo realizado com falantes da região do rio Negro.
Esses aspectos ainda são pouco conhecidos. Mas nos últimos anos, pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas e do próprio INPA decidiram estudar com mais carinho e rigor a nossa forma de falar, como é o caso da pesquisa realizada por Maria Luiza Cruz, que concluiu seu doutorado na UFRJ. Outra professora da UFAM, Maria Sandra Campos, na quarta-feira passada, dia 16 de fevereiro, defendeu na Universidade Federal Fluminense a sua dissertação de mestrado sobre o português falado na zona rural de Borba.
Além do português regional, a UFAM vem realizando esforços para descrever algumas línguas indígenas que são faladas atualmente em alguns bairros da própria cidade de Manaus, como a língua Sataré-Mawé, que foi objeto de doutorado da professora Dulce Franceschini, na França, e a dissertação de Mestrado sobre a mesma língua, que será defendida por Raynice Geraldine, na Unicamp, no próximo dia 28 de fevereiro. 
Pirarucu-de-casaca
A forma como os amazonenses foram construindo ao longo do tempo esse português regional foi testemunhada por alguns viajantes. Um deles, o médico Robert Ave-Lallemant, ao passar por Manaus em 1859, ficou hospedado na casa do major Tapajós, onde encontrou duas índias do Rio Branco, com as quais tentou se comunicar:
“Só uma dessas índias sabia algumas palavras em português, a outra ficou inteiramente muda”. Sobre a população da cidade, ele escreve: “Falam, perante o mundo, português e, contudo, ouve-se por toda parte a língua geral, falada por eles quando se encontram em seu ambiente”.
O médico Ave-Lallemant viu no português falado em Manaus “o europeísmo que avança”, e na língua geral, “a floresta virgem que se afasta cada vez mais”. Avaliou, porém, que esse não era “um combate de vida e morte”, mas uma “agradável reconciliação”. Para mostrar a importância de cada uma, comparou o uso da língua com o da arma. De um lado, a língua portuguesa (espingarda) e de outro, a língua geral (o arco e a flecha). Assim, os moradores de Manaus aprendiam a usar a espingarda e a apreciar seu valor, mas se serviam dela apenas “na luta com os animais maiores”. Para a caça menor, no entanto, “a espingarda não substitui o arco e a fecha, que matam, com grande segurança, o pirarucu e a tartaruga”.
De todos os viajantes, Ave-Lallemant foi o que percebeu com mais profundidade o que estava acontecendo, isto é, a tensão entre línguas em contato na Amazônia, que ocorria dentro de um processo de confronto entre culturas. Depois de comer chibé de farinha com champanha, “sob um telhado de folhas de palmeira”, e de almoçar peixe e pupunha, bebendo cerveja e vinho do Porto, ele viu navegar pelo rio um moderno barco a vapor, ao lado de uma canoa indígena. Concluiu, então, que estava nascendo uma sociedade mestiça, cujas vias de circulação se alternavam, “ora em ruas, ora em igarapés”, onde se erguiam “sólidos edifícios europeus”, ao lado de “primitivas casas tapuias de barro”.
Essa nova sociedade acabou reunindo no mesmo prato, as contribuições indígenas, portuguesas e até africanas, uma espécie de bacalhau, sem batata e azeite de oliva, mas enriquecido com pirão ou farinha do uarini e temperado com tucupi e pimenta murupi. Ou o pirarucu-de-casaca, que mantém o pitiu original, mas é preparado com muitos ingredientes que vem de fora. Talvez essa seja a imagem mais acabada para dar conta da variante regional do português que falamos: o pirarucu-de-casaca, síntese daquilo que somos.

P.S. – Os índios Makuxi, Wapixana, Taurepang e Ingarikó estão esperando pacientemente há 781 dias, que o Governo Lula homologue a demarcação em áreas contínuas da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, tal como foi prometido durante a campanha eleitoral.

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