CRÔNICAS

O DIA DO JULGAMENTO DE SABINO PODRÃO

Em: 12 de Junho de 2005
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- Raimundo Sabino Castelo Branco Maués, favor comparecer à sala de julgamento.
A voz gasguita do oficial de Justiça, amplificada por poderoso aparelho de som, ecoou pelo vale de Josafá. Lá embaixo, uma multidão incalculável se apertava numa fila infinita que dava voltas e mais voltas, com as pessoas agrupadas de acordo com a procedência geográfica. Era a vez da fila do Amazonas. O funcionário do Tribunal consultava seu `note-book` e ia chamando os cabocos, um por um, pelo nome completo. A mesma voz gasguita repetiu:
- Raimundo Sabino Castelo Branco Maués. Última chamada!
O ex-agente policial, vereador e radialista Sabino Castelo Branco saiu da fila, apressado, despedindo-se de seus cúmplices, que lhe deram vários conselhos. O Negão recomendou: “Nega tudo”. Glória Carrate completou: “Bota a culpa no Egberto”. Até Belarmino Lins, que está brigado com Sabino, arriscou: “Testemunho em teu favor, mas vai lá e diz pro juiz pra contratar, no lugar do gasguita, o meu sobrinho, que tem uma voz muito boa”. Como todo mundo sabe, Belão Tribulins não resiste ao nepotismo, e fica todo ouriçado com a simples menção da palavra mágica: `tribunal-de-contas`.
Tratava-se, justamente do Tribunal de Contas de Cristo (TCC), responsável por julgar os vivos e os mortos. Sabino, encagaçado, entrou na sala e lá dentro viu, sentado no grande trono branco, o Supremo Juiz, com suas longa barba, julgando serenamente caso a caso. Diante dele, uma mesa oval sobre a qual havia uma enorme balança e o Livro da Vida. Depois de proferidas as sentenças, os homens bons ficavam do lado direito, com as ovelhas, para serem levados ao paraíso. Os maus, à esquerda, com os bodes, esperando o ônibus do capiroto, conforme escreveu Mateus (XXV:32-34). Os sete anjos tocaram suas sete trombetas. Foi ai, então, que caiu a ficha e Raimundo Sabino Castelo Branco Maués sacou que aquele era, efetivamente, o dia do Juízo Final.
O Juízo Final
Escoltado por dois guerreiros do Armagedom, fortemente armados, Sabino ficou cara a cara ante o Supremo Juiz, que lia o Livro da Vida, onde constavam relatórios oficiais, depoimentos de pessoas humilhadas, queixas de gente caluniada, boletins de ocorrência. Disse então o Grande Juiz:
- “Você era policia civil, da Secretaria de Segurança do Amazonas, pago pelos cofres públicos para combater o crime. No entanto, o Livro da Vida registra sua prisão em janeiro de 1990, num ônibus da Viação Novo Estado, em Guajará Mirim, Rondônia, na fronteira com a Bolívia, carregando 10 quilos da pasta base e 60 gramas de pó de cocaína. A Justiça Federal o condenou a dez anos de prisão por tráfico de drogas".
- “Data vênia. Não devo nada à Justiça, pois meu processo foi extinto. A ação prescreveu. Peço a Vossa Excelência que desconsidere esse crime” – implorou Sabino.
Mas o Supremo Juiz ignorou o recurso, argumentando:
- “Em verdade em verdade te digo, aqui, no Tribunal de Contas de Cristo, não tem ex-tunc, nem latinorum de advogado, com suas tretas e mutretas, como na Justiça dos homens. Aqui, na Justiça Divina, só vale a verdade, segundo jurisprudência estabelecida por Orozimbo Nonato”.
Em seguida, colocou o pecado de tráfico de drogas na balança, e viu que ele pesava 58.703 quilos, um quilo por cada eleitor enganado por Sabino na última eleição.
Sabino sabia que se a balança ultrapassasse os 100.000 quilos, ele iria inapelavelmente pro inferno. O Supremo Juiz folheou o livrão e leu outro crime: o réu invadiu um posto médico e arrombou uma escola municipal na comunidade de Novo Remanso, em Itacoatiara, aterrorizando as pessoas que lá se encontravam. Em seus programas de rádio, o réu usou inocentes e doentes para fazer politicagem, aproveitando-se da desgraça alheia como forma de autopromoção. Caluniou, mentiu e feriu a honra de gente honesta. Todos esses pecados, colocados na balança, pesaram 50.000 quilos, que somados aos anteriores totalizavam 108.703 quilos.
- “Protesto. Cometi efetivamente esses crimes, mas com uma atenuante: estou fazendo oposição, em Itacoatiara, ao Mamudinho”, disse o acusado em sua defesa. O Supremo Juiz, considerando que os ataques a Mamudinho eram efetivamente uma boa ação, aceitou o protesto e retirou 10.000 quilos de pecado. Sobraram 98.703 quilos. Sabino havia escapado por um triz nas portas do inferno. Momentaneamente.
As obras do Podrão
O Supremo Juiz colocou os óculos e leu, indignado, outro crime: calúnia e invasão de privacidade. Nas eleições de 2004, instigado por Egberto Batista (do caso Lula-Lurian), Sabino aproveitou o desequilíbrio da anestesista Soraia Pereira, levou-a ao plenário da Câmara Municipal, jurando que ela tivera um filho com o então candidato a prefeito Serafim Corrêa. A criança nunca apareceu, mas foram exibidas duas provas forjadas: uma meia amarela e uma cueca samba-canção, ambas apresentadas como sendo do Serafa, mas na realidade pertencentes a Egberto, que como todo mundo sabe adora cueca samba-canção. Esse pecado pesou 60.000 quilos, que somados aos 98.703 alcançaram 158.703 quilos. Acrescentando mais sete quilos por ter chamado o vereador Praciano (PT) de cachaceiro numa sessão da Câmara, os pecados de Sabino totalizaram 158.710 quilos. A balança quebrou.
Sabino havia carimbado seu passaporte para o tanque de enxofre. Para completar, tocou o celular do Supremo Juiz. Quem chamava era o bispo auxiliar da arquidiocese de Manaus, Dom Sebastião Bandeira Coelho, confirmando a ficha do dito-cujo. O bispo condenou o uso político da fé por parlamentares que detêm programas na televisão e no rádio e que aproveitam o sentimento religioso para fins eleitoreiros. Foi aí, então, que uma chuva de pedra e de fogo, misturada com sangue, começou a cair sobre a terra, e o Supremo Juiz, conferindo a planilha de pecados do réu, proferiu sua sentença irrecorrível:
- Pelos frutos, conhecereis a árvore. Teus frutos, Sabino Podrão, estão todos podres. Tu degradas e aviltas a vida política, com tua alma pestilenta, fazendo os jovens acreditarem que a atividade política tão nobre e tão bela é uma baixaria. Não és digno de sentar-te nem sequer numa cadeira de vereador de Eirunepé, quanto mais à direita de Deus Pai. Estás condenado ao fogo eterno do inferno. Raimundo Sabino Castelo Branco maués, mau foste, mau serás.
Em seguida, o Supremo Juiz, sempre justo e misericordioso, se dirigiu a esse escriba, falando:
- Taquiprati, vem te sentar à minha direita. Tenho uma missão especial para ti. Sei que os anos já começam a pesar em teus ombros, mas não duvido de tua capacidade. O Censo Demográfico do IBGE do ano 2000 indica que quase metade das mulheres de Manaus (42.12%) vivem na mais completa solidão. Vai, meu filho, vai e mata a solidão delas.
- É comigo mesmo, Excelência. Fique certo que não o decepcionarei e no dia do Juízo Final poderei dizer: missão cumprida.
P.S. – A Secretaria Municipal de Educação de Manaus solicitou e o prefeito Serafim Corrêa já autorizou a contratação de dez professores indígenas. Manaus é a primeira cidade do Brasil a preocupar-se em ter uma política educacional em relação aos índios urbanos.

.P.S. - A ilustração, de autoria de Fernando Assaz Atroz,  foi postada no dia 07/10/2012, retirada do blog http://assazatroz.blogspot.com.br/2012/10/os-candidatos-vira-casaca.html

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5 Comentário(s)

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Vanessa comentou:
09/10/2012
Apesar de escrita em 2005 ainda é muito atual, aliás, recomendo que novos pecados sejam inclusos no histórico do réu, todos verídicos é claro!
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Ed comentou:
07/10/2012
Fora a puxada que destes ao Serafim adoooooorei!!!
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Paulo Berger comentou:
03/10/2012
EXCELENTE ! Nunca sorri tanto, muita criatividade mesmo, apesar de usar fatos verdaderios... Parabéns !!
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Ricardo Cesar Lopes Pereira comentou:
12/09/2012
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RICARDO CESAR LOPES PEREIRA comentou:
12/09/2012