CRÔNICAS

A QUADRILHA DO MENSALÃO

Em: 19 de Junho de 2005
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Parece que foram os aristocratas franceses com suas perucas empoadas e seus passos afrescalhados que inventaram a quadrilha. Sem qualquer escrúpulo, os portugueses copiaram o modelo francês e trouxeram a quadrilha para o Brasil no mesmo barco de dom João VI, no início do séc. XIX, quando ela ficou associada a uma cambada de ociosos da Corte Portuguesa sediada no Rio de Janeiro. Os caipiras brasileiros, observando como os portugueses organizavam uma quadrilha, recriaram essa dança de salão no contexto da roça, durante os festejos em que agradeciam as boas colheitas do ano aos santos juninos – Antônio, João e Pedro.
Dessa forma, no início do séc. XX, a quadrilha junina já havia invadido a roça e se espalhado por todo o sertão brasileiro, sofrendo importantes mudanças aqui e ali, mas mantendo alguns aspectos originais. O marcador , por exemplo, é o cara que orienta a evolução dos casais, usando palavras num francês macarrônico – en avant (avançar), balancer (ficar gingando sem sair de seu lugar), en arrière (voltar aos seus lugares) ou em português – olha a cobra, é mentira, a grande roda, trocar de damas. Além disso, cada quadrilha cria suas próprias marcações de acordo com a realidade local.
Foi o que aconteceu com a Quadrilha do Mensalão, organizada pelos políticos de Brasília, com enredo muito diferente do tradicional. Esse locutor que vos fala conhece o assunto, porque viu seu sobrinho, o Pão Molhado, bancar o noivo na quadrilha do Bairro de Aparecida, quando engravidou a noiva – a Raimunda Roroca - e casou obrigado pela polícia. Por isso, quadrilha tem delegado, padre e juiz. Os estudiosos dizem que essa é uma forma popular de debochar de algumas instituições e de discutir problemas como relação sexual antes do casamento, machismo, amor e oscambau a quatro. Já o enredo da quadrilha do mensalão está ligado à luta para chegar ao poder e para se manter lá, a qualquer preço, conforme coreografia aqui apresentada de forma resumida.
La grosse mensualité
O primeiro passo da quadrilha do mensalão lembra as últimas eleições presidenciais. O marcador dá um grito - Anavan! - sinalizando aos participantes para que sigam em frente. Damas e cavalheiros avançam elegendo pela primeira vez, em 500 anos de história do Brasil, um honrado e combativo operário como presidente da república, alimentando os sonhos dos lascados, dos ferrados, dos fugidos e mal pagos, dos honestos, dos que ganham o pão com o suor do seu rosto, dos aposentados, dos que lutam contra a impunidade, a corrupção e a injustiça, dos sem-terra, sem-escola, sem-pão e sem-esperança.
É aí que o marcador ordena o segundo passo - Cumprimentar os movimentos sociais e o distinto público! Os participantes da quadrilha, todos eles fazendo parte do Poder, movimentam o corpo no ritmo da música, fazem uma mesura, quase se ajoelhando diante da CUT, dos sindicatos, do MST, dos negros e dos índios. Os homens tiram o chapéu e as damas levantam levemente a barra da saia, fazendo mil promessas de um mundo melhor . É a festa da posse de Lula.
O marcador berra : - Caminho da roça . Os participantes formam uma só fila, vão acompanhando o ritmo da sanfona em direção à reforma agrária e à demarcação das terras indígenas, mas encontram barreiras formadas pelo agronegócio, pelo latifúndio e pela bancada ruralista. Imediatamente a marcação sinaliza: - Returnê! Todo mundo volta ao lugar de origem. Balancê! Os membros da quadrilha ficam mexendo o corpo, marcando passo sem sair do lugar. A voz comanda: – Promiscuité avec les cochons! Os pares da quadrilha dão um giro, andando sempre para a direita, se abraçam com colloridos, petebistas, malufistas, pê-emedebistas e toda a oligarquia fedorenta, expulsando pra fora da roda os babás, as luízas, as helenas e todos os que discordam do comando.
- Olha o troca-troca . Changez de parti! Os cavalheiros, simbolizando um bom partido, ficam imóveis numa grande roda, enquanto as damas, representando os deputados, vão passando de mão-em-mão. Muitos dos 300 picaretas são tratados como “companheiros”, até o Romero Jucá, o Porquinho Fleury, o Meirelles e o Orestes Quércia. – Regardez la grosse mensualité! Olha o mensalão aí, gente ! O ritmo da música se acelera e os partidos da base aliada, como um sapo, começam a inchar.
Couper la viande
É aí que o marcador grita: - Lá vem chuva. Todos fazem meia volta, marchando em sentido contrário, caminhando ao encontro dos "companheiros” Sarney, sua filha Roseana e seu genro Jorge Murad, aquele que guardou R$ 1,3 milhão no escritório da Lunus. Jucá, o homem do frango-gate, sassarica; Severino, o nepotista, baila; Renan Calheiros, ex-collorido, faz piruetas; Waldomiro Diniz aparece flagrado negociando propina com o contraventor Carlinhos Cachoeira. – Anarrié , sinaliza o comando. Os pares, de mãos dadas, voltam em marcha-ré, de forma acelerada,retrocedendo sempre em direção ao clientelismo, ao fisiologismo, ao tráfico de influência, ao uso indevido da máquina administrativa.
– Olha a cobra ! É o Roberto Jefferson, o saco-de-peido esvaziado, 50 quilos a menos de banha, destilando teatralmente o seu veneno, depois de haver perdido as bocas dos Correios e do IRB. Damas e cavalheiros caminham, dançando para a direita, deslizando em fileira como uma cobra se arrastando pelo chão – É mentira! Os pares da quadrilha voltam a dançar em sentido contrário, depois de descobrirem que o “companheiro” Roberto Jefferson, apesar do cheque em branco conferido por Lula, “esqueceu” de registrar dois apartamentos em Cabo Frio nas suas últimas duas declarações de renda.
O marcador tenta por ordem na quadrilha determinando: - aos seus  lugares! O Zé Dirceu e outros ministros para “ não fazerem réu um homem inocente", retornam à posição inicial. – Travessê geral! Todos os participantes, em duas filas, atravessam o salão ao mesmo tempo. - Balancê com seus pares ! Cada um fica fazendo o balanceio, sem sair do lugar. O comando, por fim, ordena: - Coupez sa propre chair. Como ninguém entendeu, o comando repetiu: - alors, coupez sa propre viande. Mas a faca que não havia sido amolada na bunda da Catirina, não conseguiu cortar nem o rabo do boi, quanto mais a própria carne. Considerando que a quadrilha tem de encerrar sua apresentação e este artigo precisa ser finalizado, os cavalheiros erguem os braços sobre as cabeças das damas e, em fila, saem no galope, acenando para o público em forma de despedida.

P.S – No meio de toda a confusão, o Senado aprovou a Medida Provisória 239, de interesse para a Amazônia, porque proíbe o desmatamento nas áreas de florestas que ainda estão em estudo para serem transformadas em reserva ou área de proteção. O senador baiano César Borges (PFL – viche! viche!) votou contra. Outro senador, Arthur Neto (PSDB-AM), apesar da cerrada oposição ao governo Lula, votou a favor, justificando: “Não sou urubu, sou tucano". Essa é a diferença da oposição golpista para a oposição democrática..

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