CRÔNICAS

NO DOMINÓ NÃO TEM MÃE NÃO!

Em: 11 de Setembro de 2005
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NO DOMINÓ NÃO TEM MÃE NÃO!
Dona Elisa, como todo amazonense que se preza, era viciada em dominó. Nas reuniões familiares de fim de semana, nos aniversários, ela era a primeira a se sentar em volta da mesa. Gostava de embaralhar as pedras, que tilintavam como agradável música aos seus ouvidos. Jogava em dupla com o Geraldão, seu genro, com quem tinha muita afinidade. Dizem as más línguas – mas eu não confirmo – que os dois tinham um código secreto, com sinais combinados para transmitir informações durante o jogo. Intriga da oposição?
Um dia, num disputado torneio familiar, Dona Elisa ficou encurralada. Era sua vez, mas a pedra que tinha não se encaixava no jogo. Em vez de dizer “passo”, o que significava perder a batida e dar vinte pontos aos adversários, ela gritou: “bati”, sentando sua carroça de sena numa ponta de branco. A jogada foi tão atrevida e tão rápida, mas tão dissimulada, que na confusão ninguém percebeu. Ela embaralhou rapidamente as peças, que soltavam miados altissonantes. Foi quando seu filho – o Tuta - pingando dois pontos de exclamação, gritou escandalizado:
- Um gato!! A mamãe passou um gaaaato!!
Dona Elisa negou energicamente com cinco pontos de exclamação:
- João Roberto, não desconfie de sua mãe!!!!! Você acha que sua mãe é capaz de roubar? Lembre que eu sou sua mãe!!!!!
- No dominó, não tem mãe não - obtemperou o Tuta, acrescentando: - No dominó, só tem parceiros e adversários. (Pra dizer a verdade, ele não obtemperou nem contrapôs coisa nenhuma, ele simplesmente falou, mas numa situação difícil como essa, a gente não fala, a gente obtempera, objeta, contrapõe e é capaz até mesmo de redargüir).
 
A MÃE DO LULA
Por que, leitor (a), estou ocupando teu tempo, num domingo de setembro, com fofocas familiares? Por uma razão mui singela. É que o presidente Lula ultimamente tem metido sua mãe no meio dos seus discursos e pronunciamentos, o que merece uma reflexão.
Diante das acusações da compra de deputados pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, Lula chorou publicamente, invocando Eurídice Ferreira, conhecida como dona Lindu, sua mãe, uma “viúva da seca”. Abandonada pelo marido, em 1952, colocou seus oito filhos num pau-de-arara e se mudou de Garanhuns, no sertão pernambucano, para São Paulo. Uma mulher de fibra, como milhares de heroínas anônimas existentes nos grotões do Brasil. Recentemente, lá no Piauí, Lula lembrou:
“Sou filho de pai e mãe analfabetos, minha mãe não era capaz de fazer um `o` com um copo. E o único legado que eles deixaram para mim era que andar de cabeça erguida é a coisa mais importante que pode acontecer a um homem e a uma mulher. Conquistei o direito de andar de cabeça erguida e não vai ser a elite brasileira que vai fazer eu baixar a minha cabeça”.
Desta forma, Lula tem citado com freqüência dona Lindu, provando através dela sua origem humilde, sua honestidade e sua disposição de luta. “Não foram poucas as vezes em que nós não tínhamos em casa o que comer, nem no almoço, nem na janta. Mas em nenhum momento minha mãe perdeu a esperança. Ela foi uma guerreira”.
É isso mesmo. Foi uma grande vitória. Pela primeira vez em 500 anos de história, um sertanejo pobre e lascado, operário, torneiro mecânico, filho de analfabetos, é escolhido para dirigir os destinos de um país, que sempre foi governado por bacharéis quase sempre corruptos. Esse fato pesou enormemente para que milhões de eleitores, entre os quais esse que digita essas mal traçadas linhas, votassem em Lula e fizessem campanha para ele, todas as vezes em que se candidatou.
No entanto, duas perguntas que não querem calar: com Lula, os trabalhadores efetivamente chegaram ao poder? A origem humilde é garantia de honestidade e de integridade? Vejamos, por exemplo, o caso do Severino Mensalinho Cavalcanti, presidente da Câmara de Deputados. Ele também é de origem pobre, lá de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco. Ele também passou fome. Sua mãe, Severina, também era analfabeta, lutadora e honesta. Mas isso não foi suficiente para que ele deixasse de ser o lixo que é.
 
NA POLÍTICA, TEM MÃE?
Na semana passada, Lula condecorou Severino Mensalinho com a mais alta comenda, a Ordem do Rio Branco. A televisão mostrou dois pernambucanos, sertanejos, pobres, filhos de analfabetas, mas com valores tão diferentes: um é honrado, lutou pela justiça social, o outro é um corrompido e desmoralizado, que sempre esteve a serviço da ditadura, da oligarquia e dos ricos.
Por que, então, o filho da dona Lindu, que aprendeu a andar de cabeça erguida, fica paparicando e puxando o saco do Severino, que é a negação de todos aqueles valores pelos quais todos nós sempre lutamos? A mãe do Roberto Jefferson com certeza também devia ser uma senhora digna, mas isso não é suficiente para dar um cheque em branco para ele.
Talvez Lula esteja confundindo algumas noções derivadas do próprio conceito de classe social, que foi trabalhado teoricamente por um jovem cientista político grego, Nicos Poulantzas, professor da Universidade de Paris. Com 32 anos, em 1968, Poulantzas publicou um livro intitulado “Classes sociais e poder político no estado capitalista”. Lá, ele discute noções como `origem de classe`, `interesse de classe`, `fração de classe`, entre outros, para explicar as alianças políticas e identificar as classes detentoras do aparelho de Estado. .
Poulantzas lembra que Abraham Lincoln era um lenhador, filho de imigrantes ingleses pobres. No entanto, sua eleição como presidente dos Estados Unidos, em 1860, não significou absolutamente que os lenhadores ou os pobres chegaram ao poder. Isso porque, apesar de sua origem, os interesses de classe que defendia não eram os de sua classe social de origem. Ele, inclusive, contemporizou com os escravocratas.
Nessa altura do campeonato, nós já estamos carecas de saber que dona Lindu era analfabeta, que ensinou o filho a andar de cabeça erguida, e que ele passou fome. O que ele precisa nos explicar agora é quais são os interesses de classe que o Governo Lula defende, quem está ganhando com a política econômica e financeira, como é que o governo trata os banqueiros, os empresários, os fazendeiros, os funcionários, os sem-terra, os índios, os trabalhadores da cidade e do campo, os políticos tradicionalmente vinculados às oligarquias.
A lição que a gente pode tirar disso tudo é que no jogo da política, como no dominó, não tem mãe não. Tem parceiros e adversários. É preciso saber escolhê-los. Quem são os do governo Lula? Era mesmo preciso passar pelo vexame de condecorar o Severino Mensalinho ou de buscar apoio no partido do Maluf?

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1 Comentário(s)

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marcosp comentou:
25/04/2012
Poxa, li essa crônica anos atrás, e hoje quando voltei para me divertir um pouco relendo-a, suprise! Só tem o título! Cadê a crônica, Bessa!?
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