CRÔNICAS

SE EU COZINHO, É MEU? AS ARMAS

Em: 16 de Outubro de 2005
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O bairro de Aparecida está numa sinuca de bico. Seus moradores, confusos e angustiados, não sabem como enfrentar o referendo popular. Se responderem ‘não', contrariam direitos individuais. Se disserem ‘sim', abdicam de princípios sagrados e, dessa forma, acabam dando aquilo que o Nêgo Valdir deu: a própria honra. Muitos preferem fugir pela tangente, dizendo: ‘talvez ', ‘depende', ‘sei lá '. Mas essas alternativas não existem no referendo. Não há meio termo. É ‘preto' ou é ‘branco'. Não tem ‘cinza'. De todo jeito, a gente se ferra. Com o ‘sim', é créu. Com o ‘não', é crau. A diferença é apenas de uma mísera vogal?
Manaus viveu drama similar no referendo do peixe que aconteceu há 50 anos. Na época, desnorteado, busquei orientação com tia Eulália. Ela era freira da Congregação das Adoradoras do Preciosíssimo Sangue. Uma santa. Estava mais perto do céu do que eu, pecador empedernido. Quem sabe, a titia podia me iluminar sobre os enigmas do mundo e da vida? Era domingo, dia de visita ao convento, ali na Av. Constantino Nery, bem em frente à igreja de São Geraldo. Cheguei, pedi a benção – benstia – e, à queima roupa, fui logo fazendo a pergunta do referendo do peixe que atormentava, então, os amazonenses.
- Titia, se eu pesco um peixe, se eu cozinho, é meu?
Minha mãe ralhou: “Deixa de ser abestado, menino”. Mas tia Eulália me levou a sério. Não respondeu de chofre. Primeiro, me abençoou:
- Deus te faça feliz.
Naquela época, sobrinho pedia benção, tia abençoava e a gente falava “de chofre”. Hoje , é a maior esculhambação. Minha sobrinha Ana Paula, por exemplo, não me concede sequer a graça do título de ‘tio', me trata simplesmente de ‘Beibe', sem qualquer cerimônia. Nunca, nunquinha, me pediu a benção. Essa é mágoa que guardo no fundo do meu coração. Sei que é uma questão familiar, mas preciso compartilhar esse sofrimento com os leitores.
Digo não ao não
Mas onde é mesmo que eu estava? Ah, na titia. Depois de me abençoar, ela coçou a cabeça. Não, pera lá! Minto! A cena, com certeza, exige uma coçada reflexiva. No entanto, as freiras usavam uma espécie de capacete de plástico, coberto por véu branco, que não deixava coçar a cabeça. Se fosse homem, titia coçaria outra coisa. Acabou mesmo coçando o queixo, enquanto repetia baixinho, quase rezando:
“Se eu pesco um peixe, se eu cozinho, é meu?”
Aí, como se descobrisse a pólvora, sentenciou:
- É seu , meu sobrinho. É seu ”. Fez uma pausa e confirmou inapelável:
- Sim, meu sobrinho, é seu. Indubitavelmente, é seu.
Meio século depois, Tia Eulália – a inocente - está morta, mas sua lição orienta o rumo que devo tomar nesse plebiscito nacional sobre o desarmamento, cuja pergunta também é capciosa: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Há uma evidente manipulação da linguagem como no referendo do peixe . Quem responder ‘sim', está querendo dizer “não quero que vendam armas”. Quem marcar ‘não ', diz o contrário: “sim, eu quero que a venda seja permitida”. Está tudo de revestrés. O ‘não', que é negativo, libera. Já o ‘sim', que tem conotação positiva, proíbe. Eraste! Eu , einh!
Como se isso não bastasse, os partidários de um lado e de outro usam o horário da propaganda política obrigatória na rádio e na televisão para confundir ainda mais. Não discutem princípios, nem esclarecem dúvidas, querem apenas vender o 'não' ou o ‘sim', usando uma linguagem marqueteira abjeta, como se estivessem anunciando sabão em pó, margarina, telefone celular ou um deputado qualquer do PFL (viche! viche!). Não pretendem nos fazer pensar e refletir, querem apenas nos obrigar a aderir .
A turma do ‘não', em vez de provar porque é bom vender arma e munição adoidado, faz terrorismo, jurando que se o ‘sim' ganhar, o povão vai se ferrar, o mercado negro de armas vai crescer, o Estado ficará sem o controle sobre revólveres e pistolas, os bandidos vão invadir nossas casas, as empresas de segurança privada vão faturar, enfim, fazendeiros, grandes empresários, lideres políticos, juízes e advogados famosos continuarão a se armar legalmente, enquanto a plebe ficará desarmada. Como se a plebe, hoje, estivesse armada.
Esse é o argumento da revista VEJA, que apresentou sete razões – sete é conta de mentiroso – para provar que é bom vender armas e munições e que, portanto, os leitores devem votar ‘não'. Quase todas as razões são terroristas, tentam nos amedrontar e desestabilizar, jurando que os bandidos vão se sentir mais seguros para assaltar e invadir as casas, já que sabem que seus proprietários estão desarmados. A revista invoca ainda, cinicamente, o princípio da liberdade: por que impedir o cidadão, que paga impostos, de comprar uma arma e de exercer com ela o direito de legítima defesa? Depois da novela ‘O direito de nascer ', VEJA roteiriza ‘O direito de matar'.  
Digo sim ao sim
O meu amigo Rubem Rola, que mora na Bandeira Branca, discorda da VEJA. Ele e sua mãe Marina votam ‘sim' nos dois referendos – o do peixe e o do desarmamento. São pequenos empresários, donos da Rolamar Produtos Alimentícios Ltda.- que fabrica broas. Sua empresa familiar não será prejudicada pelo resultado da consulta popular. Estão conscientes de que os únicos que vão lucrar com o ‘não ' são os fabricantes e comerciantes de armas. Para eles, a questão é saber se queremos mudar ou se queremos que a situação fique como está. Quem vota ‘não', quer que fique como está. Quem vota ‘sim‘ quer mudar.
Rubem e Marina são produtores de broas e não de armas. Querem mudança e por isso votam ‘sim'. Não desejam ficar do mesmo lado do pistoleiro Bolsonaro e do porquinho Fleury. Raciocinam da seguinte forma: hoje é permitido vender armas e a situação está – com o perdão da palavra – uma merda. Portanto, precisamos mudar. O ‘ sim ' significa mudança, não necessariamente para melhor, é certo. Por isso, depois de proibir a comercialização, devemos pressionar o governo para melhorar a segurança pública. De qualquer forma, o que não pode é ficar como está.
Todos nós sabemos que não haverá diminuição da violência no Brasil, enquanto houver desemprego, miséria, ignorância, fome, doença e corrupção. Votamos no ‘ sim ', sem esperar milagres, mas acreditando que a sociedade com a qual sonhamos não pode ser construída com cada um organizando individualmente sua defesa pessoal. Essa não é a sociedade que quero para meus filhos e netos: um aglomerado de pistoleiros onde cada um é responsável por sua segurança, no lugar de uma comunidade de cidadãos, cuja segurança é responsabilidade do Estado. É preciso ter coragem para não tirar o fiofó da reta e dizer ‘sim', como fizeram tia Eulália, Rubem Rola e Marina. Com o ‘sim', sinalizamos a sociedade que queremos, onde a segurança não é um problema individual e privado, mas é uma questão de política pública.
Quanto ao referendo do peixe, não há nada a temer, leitor (a). Responde “sim”, corajosamente , porque o peixe é de quem o pescou e o cozinhou. Se eu cozinho, é meu, indubitavelmente. Não podemos negar isso, só por causa de um joguinho de palavras. Se tens medo de ficar como o Nego Valdir, exige a tradução da pergunta ao inglês: “If I fish a fish, if I cook it, is it mine?”. Ai, podes responder “yes”, sem comprometer tua honra . Afinal, se o Berinho, secretário de Cultura, colocou avisos em inglês para orientar os cavalos das charretes da praça São Sebastião, por que não podemos traduzir aos humanos a pergunta de um referendo?

P.S. - Por falar em inglês, recebi a seguinte notícia, que é uma forte razão adicional para votar no ‘sim': “On October the 11th at 12:35 a.m. was born the princess Maria Rafaela do Espirito Santo Fontoura Nogueira, weighing 3,359 kg and measuring 51 cm. Her  Highness and Her Majesty are very well. (assinado) The King”. Agradeço ainda ao José Amaro Júnior e à Ana Paula pela sugestão do tema da crônica de hoje . .

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