CRÔNICAS

COM QUE ROUPA, E(U)VO(U)?

Em: 23 de Janeiro de 2006
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Chefes de Estado se vestem sempre da mesma forma. Nos encontros internacionais, as fotos mostram presidentes de repúblicas, reis e primeiros-ministros, todos trajando obrigatoriamente terno e gravata, de corte sóbrio e cores discretas. Parece até farda de colégio. Não há diferença. Acabou a diversidade. Essa regra foi obedecida até por quem usava macacão: o torneiro mecânico Luiz Ignácio da Silva. Hoje, porém, o presidente da Bolívia, Evo Morales Aima, o primeiro índio a ser eleito para o cargo, rompe as normas protocolares e toma posse sem paletó nem gravata, com trajes de cores andinas.
Evo viajou recentemente como presidente eleito e enfrentou o frio na China e em vários países europeus, usando ‘ chompa’ - um tipo de pulôver, de alpaca, em cores rosa, azul e cinza ou ‘chamara’, que é uma espécie de jaleco aberto, ou ainda um casaco de couro. Vestiu também ‘poncho’, tecido de lã, com desenhos coloridos. Dessa forma, escandalizou e confundiu os guardas militares de vários países, que assistiram pela primeira vez na vida um índio, sem terno, atravessar os portões dos palácios presidenciais. No Brasil, Venezuela e Cuba, devido ao forte calor, usou camisa de manga curta. Sempre impecável.
A mídia conservadora caiu de pau. Na Inglaterra, a BBC tratou Evo como um plebeu, com roupas incompatíveis com as de um chefe de Estado. Na Espanha, o diário ABC achou um desaforo. No Brasil, Bárbara Gancia, da Folha de São Paulo, indignada, perguntou: “Será que os bolivianos não se sentiriam diminuídos se algum chefe de Estado os visitasse vestindo bermudões e sandálias Rider?”.
Num curso que ministrei para engenheiros bolivianos da Petrobrás, em companhia do escritor Marco Lucchesi, em Santa Cruz de la Sierra, perguntei como eles viam o fato de Evo se vestir assim. Foram quase todos contra. Um deles justificou: "así pensarán que nosostros somos índios". 
- Y nosotros somos qué? - indaguei no meu portunhol.
De repente, a situação se inverteu. Eu, um brasileiro, é que defendia o modo de vestir de Evo e os bolivianos de Santa Cruz discordavam. Lembrei a eles os comentários do escritor português, José Saramago, que criticou a “soberba estúpida dos povos civilizados”, esclarecendo que a ´chompa´, de “caro tecido de lã, de alta qualidade”, era usada em situações especiais na Bolívia e que o uso dela por Evo portava uma mensagem. Afinal, o que Evo Morales quer nos dizer com suas roupas?
Linguagem das roupas
Os estudiosos do assunto, como a professora da Cornell University, Alison Lurie, estão convencidos de que as roupas constituem um tipo de linguagem, fazem parte de um sistema não-verbal de comunicação e que os seres humanos se revelam através delas. Diz-me como te vestes, e eu te direi quem és: teu sexo, idade, classe social, tipo de trabalho, personalidade, opiniões, gostos, desejos sexuais. A forma de vestir é um idioma, como qualquer outro, com vocabulário e gramática, capaz de expressar idéias e emoções.
Essa comparação entre a linguagem das roupas e a fala permite entender melhor o equívoco etnocêntrico da mídia conservadora, para quem o terno é a forma certa de um presidente se vestir, e a ‘chompa’, uma forma errada. Ora, se as línguas faladas no mundo são muitas e não uma só, então não existe uma única “língua certa”.  Ninguém pode dizer que “table” é a forma correta de designar um determinado móvel, e que chamá-lo de “mesa” está errado. São formas diferentes que devem ser respeitadas e usadas dentro de um contexto próprio. Ocorre o mesmo com os idiomas das roupas.
Mas da mesma forma que uma língua toma emprestado palavras de outra língua, assim também determinadas peças de roupa e formas de vestir transitam de uma cultura para outra, algumas vezes com propriedade, outras como arremedo. No séc. XIX, o paletó foi macaqueado da França por outros países, chegando a Manaus e ao Rio de Janeiro, tornando-se hoje uniforme de advogados, estudantes de direito, garçons e seguranças da Petrobrás e do BNDES. Num calor senegalês de 40 graus, esse pessoal elimina suor por todos os poros, porque usa paletó “com sotaque”, como quem fala inglês na base do “´ái donti bélive, bichinho”. Importaram o paletó, mas não o clima da França.
Um médico alemão, Robert Ave-Lallemant, passou por Manaus em 1859 e testemunhou a chegada da moda européia adotada por jovens endomingados que iam paquerar as caboquinhas na porta da igreja. De um lado, viu “damas mais ou menos brancas”, espartilhadas, apertadas em vestidos de seda preta, calçadas, com chapéu e chale, visivelmente “desajeitadas, mortificadas e sufocadas!” De outro, viu índias tapuias, circulando de um lado pra outro com leves anáguas e camisas brancas e que, ao contrário, “andavam leves e alegres subindo a encosta do rio com o pote de água na cabeça”.
Basta de ratos cinzas
Essa luta vem se arrastando pelo continente americano durante cinco séculos. Os povos da América, índios, negros e mestiços, sacrificaram o conforto e a qualidade de vida, para imitar o europeu, com vergonha de assumir sua própria identidade e de viver de acordo com as condições ecológicas, históricas e culturais próprias da região. A insistência em vestir roupas estrangeiras significou sempre a rejeição da indumentária local ou regional e da cultura nacional. O uso de roupas étnicas, quando ocorria, era apenas em dias festivos, em ocasiões folclóricas, para divertir os turistas. É contra isso que se insurge o novo presidente eleito da Bolívia ao rejeitar o terno.     
A ´chompa´, a ‘chamara’ e o ‘poncho’ de Evo constituem uma forma gráfica de declaração política. Suas roupas dizem de onde ele é e nos dão informações sobre sua origem étnica e nacional. Com elas, ele está dizendo: “Ninguém pode esquecer quem sou eu, de onde venho, o que pretendo e para onde caminho”. Com seus trajes com o qual toma posse hoje no mais alto cargo da Bolívia, ele reafirma o seu orgulho andino, a sua cultura, as suas línguas: quéchua, aimara e espanhol mas, sobretudo, o caráter plural e diversificado do mundo. Os valores europeus e o terno não são universais.
Ouvindo um brasileiro falar, podemos dizer se ele é da Bahia, do Rio ou do Paraná. Da mesma forma, nos Andes, tanto peruano como boliviano, é possível identificar a comunidade de origem de qualquer individuo pelas roupas coloridas que ele usa. Cada comunidade se veste diferente. No entanto, a escola obriga todas as crianças a se desfazerem desse mundo colorido em que vivem, vestindo-as com um uniforme cinzento. Por isso, quando o pesquisador Luiz E. Lopez pediu aos alunos de um vilarejo à margem do lago Titicaca, que desenhassem sua escola, eles se representaram como ratos cinzentos por causa dessa farda insuportável. O pesquisador escreveu um belo artigo intitulado “Basta de ratos cinzas”. Essa é, na realidade, a mensagem das roupas de Evo: basta de ratos cinzas! Viva a diversidade de cores!   
O curioso é que a imprensa conservadora não criticou outros chefes de Estado em situação similar. O príncipe Charles, por exemplo, visitou a Escócia vestido com a kilt, aquela saia escocesa tradicional e todo mundo achou “uma fofura”. O presidente americano Dwight Eisenhower só andava com uma jaqueta, com a gola virada para baixo e as mangas abotoadas nos punhos. Reagan usava, inclusive em ocasiões formais, traje de cowboy. O primeiro ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, durante 17 anos (1947 a 1964), comparecia a todas as solenidades com sua túnica estreita com gola reta e alta. Até o ex-governador do Amazonas, Amazonino Mendes aparece numa foto em Eirunepé vestido com traje de marinheiro. É verdade que tinha apenas 5 anos de idade. De qualquer forma, viva a diferença!
P.S. - Pelo amor de Deus, se não aparecer uma alma caridosa  na minisérie JK para enfiar uma faca no bucho do coronel Licurgo ou dar-lhe um tiro nos cornos, ele vai acabar confundindo o Juscelino com a Salomé e dessa forma mudará todo o curso da história.

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