CRÔNICAS

DADÁ E O FRANGO PERUANO

Em: 11 de Junho de 2006
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Euclides, exagerado, diz que foram dois frangos. Mas Adair, comedida, sabe que foi só um. Foi só um. Eu juro.
Se eu conto aqui a história do frango, deixo de abordar temas atuais como, por exemplo, o quebra-quebra do MLST no Congresso Nacional, condenado histericamente por deputado engravatado, senador respeitado, empresário endinheirado, desembargador aposentado, juiz togado e muito cabra safado que ficou calado, quando parlamentares ´sanguessugas´ roubaram impunemente o dinheiro da saúde pública.
Mas é isso mesmo. Na conversa de hoje, em vez de crimes alheios, vou confessar antigo pecado meu. Para isso, vos apresento Euclides Coelho de Souza, nascido em Roraima em 1935. Neto de índio makuxi, ele estudou o secundário em Manaus e a universidade em Curitiba. Lá, no Paraná, fundou o Centro Popular de Cultura (CPC), se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e casou com Adair Chevonika, uma bonita filha de polacos.
Euclides e Adair fizeram um curso de teatro de bonecos e ficaram encantados com sua força de comunicação e sua magia. Criaram o Teatro de Bonecos Dada (TBD). De 1962 a 1964, apresentaram espetáculos em sindicatos, colégios, praças e ruas. Seus títeres alfabetizaram adultos com o método Paulo Freire. Agitaram passeatas, comícios, pichações, escolas e cursos políticos. Divertiram e alegraram crianças, jovens e adultos.
Com o golpe militar de 1964, Euclides tentou viajar para a Rússia, onde já estava Adair, mas foi preso em Roraima, e transferido para o quartel do 27º BC em Manaus e daí para o presídio do Ahú, em Curitiba. Saiu da prisão e, reincidente, participou de campanhas para ajudar presos políticos. Depois, foi aperfeiçoar seus conhecimentos no Teatro Central de Moscou, com o famoso titiriteiro Serguei Obratzov.
Exílio no Chile
Conheci Euclides e Adair no Chile, em 1969. Eles me contaram que após o curso em Moscou voltaram ao Brasil e retomaram sua grande paixão - o teatro de bonecos - com inovações aprendidas na Rússia, como a técnica de vareta. Em 1966-67 atuaram no Rio de Janeiro e foram premiados no Festival de Teatro de Marionetes e Fantoches.
De volta a Curitiba, em 1968, seus bonecos embelezam e politizaram o Jardim de Infância Pequeno Príncipe, fechado em seguida pela polícia, sob a acusação de que estavam ensinando subversão às crianças do maternal. Enquanto eram processados, foram morar em Brasília, num alojamento de madeira construído para índios e estudantes.
A sentença no processo de Curitiba saiu: quatro anos de prisão para Euclides, Adair Chevonika e outros. O barraco deles foi invadido pela polícia. Os dois conseguiram escapar com André - o filho recém nascido - mas seus bonecos foram estraçalhados, inclusive Eva, um fantoche de espuma, presente dos titiriteiros russos.
Para não ser preso, o casal entrou na clandestinidade. Era muito arriscado fugir do Brasil com André, que tinha um ano de idade. Deixaram o filho em segurança com a avó, em Curitiba e foram para Santiago, onde convivemos vários meses. Em 1970, eles me convidaram a ir ao Peru com o TBD. Não pensei duas vezes.
Os peruanos nos acolheram com generosidade. Nós três fomos morar nos fundos de um casarão em Miraflores, onde funcionava o Instituto Cultural Peru-URSS. Éramos uma espécie de zeladores do prédio. Enquanto os dois confeccionavam bonecos e preparavam as peças, eu tentava um bico em jornais de Lima. Foi ai que aconteceu a história do frango.
Galeto é saci?
O jornalista Alejandro Granados, colunista de ‘El Comércio´, me convidou para jantar em um restaurante. Aquela boca livre caía do céu. Sem dinheiro e ainda sem espetáculo montado, nós três estávamos comendo a mandioca que o capiroto ralou. Desse jeito, ainda não era possível realizar o sonho de trazer o André lá do Brasil.
No jantar, tirei a barriga da miséria. Tracei um bifão com taco-taco, o baião-de-dois peruano. Mas fiquei triste, imaginando que meus dois amigos nada tinham para comer. Alejandro percebeu:
- Garçom, prepara um frango com fritas pra viagem.
Aí, levou-me em seu carro até o endereço de David Lerer, médico paulista também exilado em Lima.
O apartamento de David era pura fachada. O nosso endereço real não podia ser revelado, pois traria complicações com a polícia. Acontece, porém, que David morava em Jirón Camaná, no Centro, e a Associação Peru-URSS ficava na zona sul, uma distância quilométrica como a do Teatro Amazonas ao aeroporto Eduardo Gomes.
Sem um centavo no bolso para pegar ônibus, fui dar uma ´facadinha´ no David, mas o porteiro informou que ele estava viajando. Danou-se. O jeito foi iniciar uma marcha de quase três horas pela noite limenha. No meio do caminho, a fome apertou. Estraçalhei uma coxinha do frango e parte das batatas fritas.
O frio era intenso. Mais adiante, me perguntei: “frango é saci, pra ter uma perna só?”. Devorei a outra perna e o resto de batata: “Eles vão ficar alegres com as duas asas e o corpo do galeto”. Mas a avenida Arequipa era infinita. Faltavam ainda uns quatro quilômetros para chegar, quando comi as asas. Embora frias, estavam ligeiramente crocantes.
O relógio da pracinha em frente de casa marcava uma hora da madrugada. Achei que era uma sacanagem chegar só com a carcaça. “Eles não estão mesmo esperando nada e, além disso, nessa hora devem estar dormindo”, pensei. Papei o resto. No entanto, ao entrar, vi as luzes acesas. Os dois estavam confeccionando bonecos na cozinha.
Adair, mostrando-me uma panelinha com caldo knorr, disse:
- Ah, meu filho, ainda bem que você chegou. O Euclides está com olhar pidão em cima da sopinha que guardei pra ti.
Um grito lancinante cortou a madrugada limenha: “Eu sou um canalha abjeto, um fdp. Perdão, mil vezes perdão”. Rasguei minha camisa, me joguei no chão, estrebuchei e cobri minha cabeça com cinzas.
Lembrei essa história porque nessa semana, em Curitiba, trabalhamos juntos com os índios guarani. Eu, com narrativas indígenas. Adair e Euclides, com os bonecos. Aos 70 anos, ele continua um romântico incorrigível, um vulcão em erupção. Ela, sempre terna, afetuosa e protetora. Os dois, comunistas da estirpe de Oscar Niemeyer, acreditam que é possível mudar o mundo e trabalham para isso. Tenho sorte de tê-los como amigos.
Com eles, aprendi mais do que em qualquer curso universitário: arte, literatura, teatro, poesia, política, preservação do patrimônio, resistência e, sobretudo, ética. Eles me orientaram como pais deviam fazer com os filhos. Com exemplo e não com palavras, me ensinaram que um frango se compartilha. Juro que se fosse hoje, o frango – foi um só e não dois – chegaria inteirinho. Com as batatas fritas, eu acho.
P.S. – Minha querida amiga Freida Bittencourt, teu primo Quidoca te manda beijos. Ele vai contar essa história num espetáculo de bonecos, insistindo que foram dois frangos. Na verdade, foi só um. Juro, maninha. Quero que santa Luzia me cegue, quero ver minha mãe mortinha no inferno.  Pergunta pra Adair.

 

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