Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." (Mario Quintana)
Caboco, dizem que a política é a arte de escolher caminhos. O problema é que, no Amazonas, às vezes a gente olha para a placa e descobre que o caminho já foi percorrido por alguém, que outro está sendo asfaltado com dinheiro público e material de péssima qualidade, que um terceiro está cheio de buracos e que o quarto nem estrada tem.
E como eleição é coisa séria demais para ser tratada apenas com seriedade, resolvi voltar à corrida pelo Governo do Amazonas, agora que faltam menos de duas semanas para a urna. Desta vez temos sete candidatos: Omar Aziz (PSD), Roberto Cidade (União Brasil), David Almeida (Avante), Maria do Carmo Seffair (PL), Cabo Daciolo (Mobiliza), Gilberto Vasconcelos (PSTU) e Isael Munduruku (Rede).
Papai me dizia que sete é a conta do mentiroso. E aqui temos sete nomes, sete histórias e uma quantidade de alianças capaz de fazer até o caboco mais acostumado com eleição perguntar: “Mas quem está com quem mesmo?”.
A pesquisa mais recente que encontrei, do Instituto Projeta, divulgada em 21 de setembro, mostra Omar Aziz com 25,8%, Roberto Cidade com 24,36%, Maria do Carmo com 15,82% e David Almeida com 15,41%. Cabo Daciolo tem 2,27%, Isael Munduruku, 0,82%, e Gilberto Vasconcelos, 0,43%. A diferença entre Omar e Cidade está dentro da margem de erro. Para mais? Para menos?
A Paraná Pesquisas, divulgada em 5 de setembro, mostrava Omar com 29,6%, Cidade com 21,5%, Maria do Carmo com 19,4% e David com 16,8%.
A política, Caboco, é tão instável que até a máquina fotográfica parece ter opinião. Mas pesquisa é fotografia, não certidão de casamento. Registra um momento, não entrega o resultado da urna. E aqui me desculpem a modéstia, quem fala é um estatístico de profissão.
Remexendo o baú
Quando se fala de Omar, inevitavelmente aparece a Operação Maus Caminhos, que investigou desvios de recursos da Saúde do Amazonas estimados pelo Ministério Público Federal em mais de R$ 100 milhões. O MPF descreveu um núcleo político no esquema e registrou investigação envolvendo um irmão de Omar Aziz. Em 2019, a Operação Vertex atingiu pessoas ligadas ao então senador.
Isso não significa dizer que Omar foi condenado pelos crimes investigados. Não foi isso que encontrei, nem é isso que estou falando.
Mas política trabalha também com memória. E memória, Caboco, é um bicho danado: às vezes esquece quem prometeu construir uma cidade universitária, mas nunca esquece quem apareceu na fotografia das obras abandonadas.
Omar (PSD) entra na corrida como quem conhece o caminho porque já passou por ele. Foi governador, é senador e tem uma extensa rede de relações políticas. Experiência, porém, tem dois lados: para o candidato é currículo; para o adversário, é arquivo.
David Almeida (Avante) também conhece o caminho. Foi prefeito de Manaus por dois mandatos e deixou o cargo em 31 de março deste ano para disputar o Governo. A vantagem é não precisar explicar como funciona a máquina pública. O problema é exatamente esse: quem tem governo para mostrar também tem governo para explicar.
E há uma investigação sobre possível corrupção eleitoral nas eleições municipais de 2024, envolvendo suspeita de promessa de regularização de terreno em troca de votos. Em setembro, a Justiça Eleitoral manteve o processo na primeira instância e autorizou o depoimento de David como investigado.
Mais uma vez: investigação não é condenação. O caboco pode desconfiar, questionar e acompanhar. Só não precisa substituir o juiz.
Roberto Cidade (União Brasil) é outro caso curioso. Até pouco tempo atrás, era presidente da Assembleia Legislativa. Hoje é governador do Amazonas, eleito pelos 24 deputados estaduais em eleição indireta, após a renúncia de Wilson Lima e Tadeu de Souza. Assumiu um mandato que vai até janeiro de 2027 e tem Serafim Corrêa como vice. Caboco, isso produz uma situação quase surreal: Roberto Cidade não está simplesmente prometendo governar. Ele já está governando.
Então a pergunta mais simples é também a mais inconveniente: “E como está indo o governo que você já está fazendo?”.
E há outra ironia: Roberto é do União Brasil, o mesmo partido de Wilson Lima. Wilson renunciou, Cidade assume e a eleição transforma o sucessor em candidato. Se fosse novela, o diretor pediria para o roteirista diminuir a imaginação.
Novo ou reciclado?
Maria do Carmo Seffair (PL – vixe vixe!) aparece como outro tipo de candidatura. Empresária, professora e dirigente de uma instituição privada de ensino superior, construiu sua trajetória justamente na educação.
Seu maior ativo é não carregar um governo estadual anterior nas costas. Seu maior problema é carregar o PL. Porque partido também tem biografia. E o PL é uma das principais forças do bolsonarismo. Daí surge uma questão que considero legítima para uma professora e dirigente de instituição de ensino superior: qual é o lugar da universidade pública, da ciência e da pesquisa no projeto político ao qual ela pertence?
A pergunta ganha um componente simbólico quando lembramos que parlamentares desse campo político já defenderam a retirada de Paulo Freire da condição de Patrono da Educação Brasileira. É como uma professora entrar na sala de aula e descobrir que o diretor mandou retirar da biblioteca justamente o autor que ela ensina.
Cabo Daciolo (Mobiliza) chega ao Amazonas com trajetória nacional, candidatura à Presidência da República e seu conhecido repertório político-religioso. O desafio é convencer o eleitor amazonense de que conhece o caminho daqui.
Gilberto Vasconcelos (PSTU) representa a esquerda socialista e uma estrutura eleitoral pequena. Nas buscas que fiz, não encontrei um grande escândalo nacional de corrupção envolvendo o partido que pudesse ser comparado ao passivo de grandes legendas. Isso não significa concordância com suas ideias; significa apenas que divergência ideológica não é sinônimo de escândalo.
Isael Munduruku (Rede) chega com perfil diferente: liderança indígena, ligado às pautas dos povos originários e da Amazônia, comprometido com a defesa do meio-ambiente, contra o desmatamento e contra a fumaça que sufoca Manaus nesse momento. Também não encontrei um grande escândalo pessoal comparável ao de outros candidatos.
Seu problema é outro: estrutura eleitoral. Na política brasileira, às vezes o sujeito tem uma boa ideia, uma boa história e uma boa intenção, mas descobre que o adversário tem prefeito, deputado, vereador, partido, dinheiro, televisão e até o cafezinho da reunião.
E os vices?
Ah, os vices! Depois de Temer, eu temo e faço questão de prestar atenção neles.
David tem Shádia Fraxe; Gilberto, Juliana Frota; Daciolo, Igor Oliveira; Maria do Carmo, coronel Mário Aníbal; Omar, Alessandra Campelo. Isael tem Léo Balbi, do PSOL. Roberto Cidade tem Serafim Corrêa, escolhido seu vice na eleição indireta de maio.
E Serafim é justamente uma dessas figuras que lembram que política não tem prazo de validade. Durante muito tempo, teve o apreço da esquerda, porque foi um bom prefeito de Manaus e voz importante da oposição. Hoje está ao lado de Roberto Cidade.
É o tipo de aliança que faz o eleitor olhar para a urna, coçar a cabeça e perguntar: “Mas como foi que chegamos até aqui?”.
No fim das contas, talvez a eleição de 2026 seja menos uma disputa entre sete candidatos e mais uma disputa entre três coisas: memória, presente e promessa.
Omar representa quem já governou e quer voltar. David, quem governou Manaus e agora quer governar o Estado. Roberto, quem já está governando e pede continuidade. Maria oferece ruptura pelo campo bolsonarista. Daciolo, uma ruptura pela direita. Gilberto, pela esquerda socialista. Isael, pelas pautas indígenas, ambientais e sociais.
E aí chegamos ao velho problema da urna.
Todo candidato promete ser diferente do antecessor. Todo partido diz que aprendeu com os erros. Toda coligação afirma que pensa no povo.
Por isso, talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja “quem está na frente da pesquisa?”. Nem “quem fala melhor?”. A pergunta é mais simples e mais incômoda:
Quem já teve poder, o que fez com ele? Quem está tendo poder agora, o que está fazendo com ele? E quem nunca teve poder, por que deveríamos acreditar que fará melhor?
Porque, no Amazonas, temos uma mania curiosa de escolher o futuro olhando para o primeiro santinho que encontramos no chão da vida e esquecer de olhar para o retrovisor.
Eleição é como viagem de barco no Rio Negro: antes de escolher quem vai conduzir, convém perguntar se ele conhece o rio, se sabe onde ficam os bancos de areia e se, quando o motor falhar, vai assumir o comando ou procurar alguém para culpar.
Meu voto
O voto é secreto, mas qualquer eleitor pode declarar em quem vai votar. Vou de Isael. Mas, Caboco, depois de olhar esse retrovisor todo, falta explicar uma coisa: por que Isael?
Não simplesmente porque ele é novo. Novidade, sozinha, não paga conta, não leva médico para o interior e não melhora escola.
Minha escolha passa pelo programa que apresenta. Encontro nele uma proposta que conversa mais diretamente com o Amazonas que conheço e com o Estado que gostaria de ver construído.
Um Amazonas em que saúde não seja sinônimo de trazer o paciente para Manaus, mas de levar atendimento às calhas dos rios, com transporte sanitário, telemedicina e serviços regionais. Um Amazonas em que educação pública signifique valorização dos profissionais, conectividade, ciência e possibilidade de o jovem do interior estudar sem precisar abandonar sua terra. E um Amazonas que olhe para a floresta não apenas como patrimônio a ser protegido, mas como fonte de trabalho, renda e produção para quem vive nela.
No plano de Isael encontro a defesa da economia da floresta em pé, da agricultura familiar, da pesca, do cooperativismo, dos pequenos negócios e de políticas específicas para povos indígenas e comunidades tradicionais. Também aparecem transparência e participação popular.
Não há varinha mágica. Programa de governo é compromisso escrito; governar é transformar compromisso em orçamento, equipe, planejamento e resultado.
Mas identifico ali uma ideia de Amazonas mais próxima do que espero do poder público: menos concentrado na capital, mais atento ao interior, à floresta, aos povos e às desigualdades sociais.
E há outra razão para a minha escolha, Caboco: o PSOL e a Rede.
Eu confio no PSOL, entre outros, de Henrique Vieira, Erika Hilton, Sâmia Bomfim, Glauber Braga, Talíria, Jones Manoel e Tarcísio Motta. São pessoas que, por diferentes caminhos, representam para mim uma política comprometida com democracia, justiça social, educação, direitos e enfrentamento das desigualdades. Ah, mas Isael Munduruku não tem chance, tu vais perder teu voto – dirão os desesperançados. Negativo. Vou ganhar. Meu voto é para marcar posição.
Também confio em Marina Silva, da Rede, pela trajetória de defesa da Amazônia e da preservação ambiental.
Não estou dizendo que essas pessoas sejam iguais, que não cometam erros ou que eu concorde com cada uma de suas posições. Política não é religião, e partido não é igreja.
Mas reconheço nelas uma direção política que considero fundamental.
É essa confiança que também levo para o meu voto em Léo Balbi, do PSOL. Ao escolher Isael, da Rede, não separo completamente os dois votos. Vejo uma chapa que reúne a perspectiva amazônica de Isael com a referência política do PSOL que me inspira e com a história de defesa da Amazônia que reconheço em Marina Silva.
Talvez alguém pergunte: “Mas, Geraldo, confiar num partido é suficiente?”.
Não. Não é. Partido não substitui programa, candidato não substitui fiscalização e confiança não elimina a responsabilidade de cobrar resultados. Quando chega a hora de escolher, porém, todos nós partimos de algum lugar. Eu parto de uma história de lutas, de ideias e de pessoas que me fazem acreditar que a política pode ser instrumento de transformação social.
E é desse lugar que eu voto. Ao lado da minha mãe, da minha tia Dile e de outras tias e tios.
Nós já fizemos a nossa escolha. Neste pleito, vou de Isael, da Rede, e Léo Balbi, do PSOL.
Não porque acredito em candidato perfeito. Voto neles porque, depois de olhar os caminhos, encontrei uma ideia de Amazonas que conversa com o que espero do nosso Estado: saúde e educação chegando ao interior, ciência e conhecimento como instrumentos de desenvolvimento, floresta em pé gerando renda, respeito aos povos indígenas e participação da população nas decisões.
Afinal, Caboco, se é para escolher um caminho, eu prefiro aquele que reconhece que o Amazonas não termina na Ponta Negra, não cabe no Distrito Industrial e não pode ser governado olhando apenas para o mapa de Manaus.
Porque depois que o voto é contado, não adianta reclamar do caminho.
A estrada pode até ser ruim.
Mas, desta vez, a escolha do motorista é nossa.
No segundo turno, caboco, a gente volta a conversar. No primeiro turno, o voto vai para aquele que achamos ser o melhor. No segundo, vai para o menos pior.