CRÔNICAS

Canção para Thiago: Tetê e Alzira, suas danadas

Em: 28 de Março de 2021 Visualizações: 1621
Canção para Thiago: Tetê e Alzira, suas danadas

 “Passa pra cá, Tetê, vamos acabar de amor”.

 (Autor anônimo. De Manuel Bandeira para Thiago)

Nesta terça (30), Thiago de Mello completa 95 anos. Celebramos juntos vários aniversários seus, o primeiro deles em 1968, numa semiclandestinidade no Rio de Janeiro, sempre com uma canção.

O outro ocorreu no exílio em Santiago do Chile, em 1970. Foi um cumpleaños supimpa, quando sua filha Isabella, minha afilhada então com dois meses de vida, foi apresentada aos amigos chilenos. Cantamos então a mesma canção de autor anônimo, que lhe foi ensinada pelo poeta Manuel Bandeira. Ela faz parte da tradição oral e, que eu saiba, nunca foi gravada. Nem o Google, metido a sabichão, registra a sua existência. Tornou-se o “hino nacional” de cada reencontro nosso.

Nós voltamos a cantá-la com outras músicas no aniversário de 80 anos, em um restaurante de Brasília, num coro com sua irmã Cecéu e sua filha Isabella, depois do jantar do qual participaram umas trinta pessoas. Foi após a homenagem da Câmara de Deputados a Thiago - iniciativa da parlamentar Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) – com exposição dentro do Congresso Nacional de um painel gigantesco contendo na íntegra o poema “Os Estatutos do Homem”, escrito em 1964, mas que logo ganharia o mundo, traduzido em dezenas de línguas.

Tetê recebeu nova cantada em Porto Velho (RO), em 2009, documentada pelo jornalista Altino Machado, na 7ª edição do Festival de Cinema Ambiental da Amazônia (Fest Cineamazônia) organizado por Fernanda Kopanakis e José Jurandir da Costa. Thiago e eu havíamos participado de uma mesa redonda de Solidariedade entre os Povos da América, contando histórias do exílio. Ali, na “hora do recreio”, apareceu toda faceira a danada da Tetê que nunca nos abandonou, nem mesmo depois da chegada da ciumenta Alzira.

A Alzira me pegou

Faz poucos anos que a deslembrada Alzira entrou na vida de Thiago. Fui logo informado por ele, que me telefonou bem cedinho, falando em linguagem cifrada:

- Jura, o Japonês descobriu que a Alzira me pegou.

A voz embargada sugeria que a coisa era séria. Quando pedi detalhes, Thiago esclareceu as identidades daqueles dois personagens. Alzira era como ele chamava na intimidade a doença de Alzheimer que começava a dar os primeiros sinais. E Japonês era o neurologista Massanobu Takatani, seu médico, que a diagnosticou.

Minha reação foi uma sonora gargalhada para esconder a tensão provocada pela notícia. Disse-lhe que não me importava de pegar a Alzira, se pudesse chegar aos 90 anos e contasse com a competência médica do doutor Takatani, que conheço bem por haver cuidado e suavizado a vida da minha mãe.

- Te telefonei só para ouvir essa risada -  falou o poeta, aliviado.

Numa escada com dez degraus, o pé da Alzirinha estava no primeiro, conforme o diagnóstico clínico do neurologista. Ou seja, embora causasse lapsos na memória recente, a memória antiga do poeta permanecia intacta, o que ficou comprovado na última vez que flertamos com a danada da Tetê. Foi em novembro de 2018. Com o publicitário Mauro Freire de Souza e a equipe da expedição Amazônia das Palavras, visitamos Thiago em sua casa, em Manaus, para convidá-lo a comparecer no dia seguinte a uma homenagem que lhe seria prestada.

Nem dei boa noite. Da soleira da porta do apartamento já fui cantando:

- Passa pra cá, Tetê. Vamos acabar de amor. Eu não te dou meu coração, porque é preciso arrancar.

O rosto do poeta se transfigurou e sua memória se iluminou numa cena presenciada por Thiago Filho e a fiel Pollyanna Furtado, poeta e professora de literatura, tudo registrado por José Jurandir para o filme Amazônia das Palavras que será lançado brevemente. Lá de dentro, o poeta fez coro comigo:   

- E eu arrancando, Tetê. Eu sei que vou morrer. E eu morrendo já não posso mais te amar. Passa pra cá, Tetê. Vamos acabar de amoooooor.

A sombra da Alzira fazia escuro, mas a gente cantava.

Deslembranças

Três anos se passaram. Agora as comemorações pelo aniversário de Thiago se estenderam ao longo do mês de março por iniciativa do Conselho Municipal de Política Cultural (Concultura) presidido por Tenório Telles. A Exposição Thiago de Mello 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus está abrigada num portal com a vida e obra do poeta, versos e poemas, fotos, entrevistas e homenagens de familiares, amigos e admiradores. Entre elas -  era inevitável - gravei sozinho a Tetê com minha voz de cantor de banheiro e direito a desafinar no final.

Thiago esquece eventos recentes como o encontro ocorrido em 2018, quando depois de cantarmos a Tetê, o convidamos para ser homenageado no auditório do Centro Estadual de Tempo Integral Gilberto Mestrinho (CETI) no bairro de Educandos. No dia seguinte, ele de nada lembrava. Ficou em casa. Foi representado por seu filho com Ana Helena, o cantor Thiago Thiago de Mello, duas vezes Thiago, que apresentou suas músicas.

Quarenta anos antes, Maria Júlia, irmã do poeta, nos convidou para almoçar um tambaqui na brasa. Estavam lá os pais de ambos:  dona Maria e seu Pedro. Ao observar o olhar perdido do pai, o poeta comentou que o velho Pedro, que convivia há tempos com a Alzira, “de vez em quando deixava a memória voar para bem longe como um passarinho”.

Ignoro o quão alto já voou a memória do querido poeta e se o tratamento precoce estabilizou a evolução da doença, fazendo o bloqueio de outras enfermidades. Não sei se a Alzirinha é agora Alzirão. No entanto, algo ficamos devendo a ela: o poeta esqueceu quem preside o país e não sabe que o coronavirus já matou mais de 305 mil brasileiros, incluindo aí eleitores do Cloroquinado, cujo negativismo, incompetência e inépcia contribuiu para expandir a pandemia.

A Tetê, que não é ciumenta, convive numa boa com a Alzira, que felizmente nos permite ter Thiago ao lado de nós. Localizada na parte do cérebro que armazena a memória remota, Tetê permanece incólume. Por isso, nesta terça, vou desejar feliz cumpleaños e cantar por telefone com o poeta:

- Passa pra cá, Tetê, vamos acabar de amooooor.

Acho que o Thiaguinho devia gravá-la com sua bela voz para seguirmos compartilhando o resto de lembrança que nos fica, antes que Alzirão varra a Tetê da face da terra.

P.S. 1 Faltou nas homenagens do Portal o depoimento da escritora Marilza de Mello Foucher, autora do livro autobiográfico Fragmentos de tempos vividos (Editora Valer) com 35 narrativas nas quais aparece o seu primo poeta Thiago de Melo e que será objeto a seu tempo de uma resenha do Taquiprati.

(Ver Homenagens em https://vidaecultura.manaus.am.gov.br/#historia ).

As fotos são de Sérgio Sanz, Altino Machado, José Jurandir e Grazzie Caleffi, algumas delas constam no dossiê para o tombamento no IPHAN organizado por Isabella Thiago de Mello.

P.S. 2 – Nesta quinta-feira (25), a sede da Associação das Mulheres Indígenas Munduruku – Wakamborum, em Jacareacanga (Pará) foi depredada, queimada e saqueada por garimpeiros (Ver Amazônia Real, matéria de Tainá Aragão). Seguiremos atentos aos desdobramento, cobrando investigação pela Polícia Federal e punição dos criminosos. https://amazoniareal.com.br/author/taina-aragao

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20 Comentário(s)

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MARIA BRIGIDA SALGADO DE SOUZA comentou:
03/04/2021
Thiago de Melo é um dos poetas que cantamos em verso e prosa nos nossos encontros de familia - apredemos a ama-lo pelas mãos de nossa mãe professora Elza Salgado. Mas o curioso que é quando li TeTê e Alzira, suas danadas, fiquei pensando que relação teria Tetê Spindola e sua irmã Alzira, duas cantoras que nos encantam...
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Rodrigo Soares comentou:
31/03/2021
E aí, professor, estou curioso: vc. conseguiu cantar com o Thiago agora no aniversario dele? A "Alzira" deixou o Thiago cantar?
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Taquiprati comentou:
31/03/2021
Oi Rodrigo, sim, cantei pelo zapp com o Thiago, que estava alegre. A Isabella, convidada pela Pollyana e por seu pai, foi tomar o café da manhã com eles e me telefonou com video. O Thiago cantou a música toda. Rimos muito. Foi muito gratificante ver o poeta firme.
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Ademario Ribeiro comentou:
28/03/2021
Estimado Bessa, tuas crônicas nos fazem tão bem e outras nos cutucam fundo e nos convidam para avançar. Essa sobre Thiago de Mello - nosso colossal poeta de branco tão forte quanto as águas do seu Andirá - nos faz amar duplamente - não a desassossegada Alzira - mas ele e você!
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José Jurandir da Costa comentou:
28/03/2021
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Celeste Correa comentou:
28/03/2021
Linda a crônica, linda e merecida  homenagem do Taquiprati para o seu amigo e conterrâneo ilustre! Felicidades para o Thiago de Mello, com os meus desejos que a Alzira controle o seu ciúme e permita que a Tetê receba ainda  muitas cantadas pelos próximos anos. E o parabenizo parafraseando um fragmento da sua poesia " Sei que os tempos são difíceis" : Sei que os tempos são difíceis, sei que a Alzira é ciumenta e possessiva, mas ainda que os braços dessa inimiga pareçam tão largos como as asas de moinho, lute, avance, companheiro, não desanimes nunca.Mesmo que faça escuro, que você continue cantando a Tetê por mais um tempo.
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Marcos Colon comentou:
28/03/2021
Tiago é uma das esfinges poéticas da Amazônia
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Decio Adams comentou:
28/03/2021
Grande cronista José Ribamar Bessa Freire. Nos brinda com mais uma de sua pérolas, em que ele próprio é parte protagonista. Relata a longa convivência e agora no final o lento ocaso de uma estrela do mundo das letras da região amazônica. É um processo lento e gradual em que os amigos assistem o extinguir da chama, antes vigorosa, de um poeta de vasta produção literária. Pelo que nos relata José Ribamar, muita coisa, parece que o mais importante está gravado em takes de imagens que poderão ser vistas e ouvidas por muito tempo, se nada ocorrer para os danificar. Lamentável é a depredação de instalações das organizações empenhadas em preservar alguns aspectos da cultura regional. Chega a doer no fundo do coração ler uma notícia desse jaez. Parece que isso é parte da história da humanidade. Em todas as épocas ocorreram destruições de patrimônios valiosos e que, infelizmente são irrecuperáveis, por conta de sua fragilidade, apensar da aparente rudeza que ostentam. Obrigado José R.B. Freire pelo legado que nos repassa.
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Maria Luiza Dos Santos Gomes de Oliveira comentou:
28/03/2021
Nos dias atuais quem estiver com Alzira não sofrerá o que estamos sofrendo.
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Xoán Lagares comentou:
28/03/2021
Que linda homenagem, José Bessa! Também quero ouvir essa canção, e até desafinar junto!
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Rodrigo Martins comentou:
27/03/2021
Maravilhosa crõnica professor e aproveito o espaço para desejar um feliz aniversário para o poeta Thiago de Mello com muitas felicidades e saúde e sucesso sempre! Um grande abraço querido professor!
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Mailsa Passos comentou:
27/03/2021
Que linda crônica, como tudo que você, amigo, escreve. Obrigada por mais essa!
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Fernando Soares Campos comentou:
27/03/2021
Boa noite, professor Bessa. Eu gostaria de saber se você me autoriza a encaminhar essa crônica para publicação no Portal Pravda. Abraço Fernando
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Thiago Thiago de Mello comentou:
27/03/2021
Lindo demais o texto meu irmão. Obrigado!
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Isabella Thiago de Mello comentou:
27/03/2021
Assim você me mata do coração! Ter você ao nosso lado, Bessa, assinando a presidência do Instituto Thiago de Mello nos faz cada vez mais fortes para continuarmos no trabalho do tombamento das casas de papai que são as únicas obras do arquiteto Lucio Costa na Amazônia. É um trabalho de Dom Quixote que só é possivel graças a sua benção, padrinho antropólogo querido, e de tantos profissionais engajados com a História e o Patrimônio Brasileiro. Permita-me citar o apoio da UFAM, Reitor Pugga, Prof. Kleomara e Prof. Almir, e ao Núcleo de Educação Patrimonial do Instituto de Ciências Humanas e Letras IHCL da UFAM, Professores Otoni Mesquita, Maria Bernadete, e a Prof. Mariana Varzea da Escola Superior do Rio de Janeiro. Não posso deixar de citar as Superintendentes do IPHAN/AM, as arquitetas Sheila Campos e Karla Bittar, a arquiteta Camyla Torres que fez o laudo técnico em Barreirinha, e se pudesse citaria todos os jornalistas que trazem a baila esta campanha do tombamento com a efemeride do poeta vivo entre nós: Milton Hatoum, Claudio Leal do Estadão e da Folha, João Bosco e Luis Otávio Martins do Amazonas em Tempo, Aruana Brianesi d' A Crítica, Isabel Vieira da Revista Casa Claudia, os fotógrafos Pedro Martinelli e Marcicley Reggo, os editores Tenório Teles da Valer, e Luis Alves da Global (a casa derradeira do papai), Joseti Marques do Instituto Atrium, Jesus Cheduak, os advogados Fernando Drummond e Regina Linhares, o médico e craque de futebol Afonsinho do Botafogo estão no Conselho do Instituto...E claro, o cineasta Silvio Tendler que assina comigo o próximo documentário incluindo a história do tombamento. A lista para agradecer é imensa, péço desculpas pela omissão, não caberia toda aqui. Sempre estará comigo a gratidão e o carinho por você, Bessa. O companheiro que protegeu meu pai Thiago de Mello e minha mãe Lourdinha na travessia do exílio com mamãe grávida de mim, do Rio Grande do Sul para o Uruguai e de lá Santiago, história bonita que já contaste no Taquiprati. Tu és um cabra porreta, cabra macho pra cacete, corajoso, inteligente, um professor universitário daqueles que marcam a vida da gente. Gratidão. Gratidão. Gratidão. Vamos em frente!
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Joaquim Barbosa comentou:
27/03/2021
Belíssimo textp. Vida longa ao poeta.
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Maria Do Carmo Almeida (via FB) comentou:
27/03/2021
Que linda,crônica, meu amigo José Bessa ! Bela homenagem à amizade
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Hebel Costa comentou:
27/03/2021
Puta que pariu, José Bessa, você me emocionou.
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Ana Silva comentou:
27/03/2021
Que lindo texto, emocionante homenagem ao poeta!
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Dores Pena comentou:
27/03/2021
Ótimas lembranças! Me lembro das visitas de nosso poeta conterrâneo, na sua casa!!!
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