CRÔNICAS

SADDAM NA FORCA, BUSH NA LONA

Em: 31 de Dezembro de 2006
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Saddam Hussein, enforcado nessa madrugada em Bagdá, cometeu crimes inomináveis. Matou separatistas curdos, assassinou muçulmanos xiitas, torturou opositores, bombardeou alvos civis, destruiu cidades, violou sistematicamente os direitos humanos e ainda por cima registrou seus dois filhos – quer um delito maior que esse? - com os pornográficos nomes de Kudai e Kusai. Saddam não vale uma missa. Já vai tarde.
 
Acontece que quem o julgou, não vale um pai-nosso, porque foi cúmplice de muitos desses crimes e responsável por outros ainda mais hediondos. Os Estados Unidos reataram relações diplomáticas com o Iraque, em 1984, no governo de Reagan, e prestaram apoio político, militar e financeiro a Saddam, inclusive na administração de George Herbert Walker Bush – o Bushão, que também tem culpa no cartório.
 
Tive a certeza de que o enforcamento de Saddam marca o início da derrocada das tropas de ocupação dos Estados Unidos no Iraque e da derrota de George Bush - o Bushinho, quando vi na televisão a imagem de Saddam vestido de preto, cercado por três carrascos encapuzados, um dos quais passa um lenço preto em volta do pescoço do ex-ditador.
 
Foi um espetáculo deprimente, de selvageria e barbárie, de demonstração de força bruta, que acabou transformando em mártir um ditador sanguinário, enforcado justamente durante a festa muçulmana do Sacrifício – a Aid al Adha – que só termina na quinta-feira.  É muita burrice. Agora, é só esperar a onda de atentados e o recrudescimento da resistência dos grupos contrário à ocupação dos EUA. Quem viver, verá.
 
Os americanos condenaram Saddam, justificando que é porque ele torturava, matava e violava os direitos humanos. No entanto, os americanos empregam exatamente os mesmos métodos que juram condenar: suas tropas já mataram em três anos 655 mil iraquianos, segundo a Universidade John Hopkins.  Diante dos crimes de Bush, Saddam é fichinha. O Bushinho teria de ter mil pescoços para que a Justiça fosse feita.
 
De seu rancho, no Texas, Bushinho emitiu um comunicando, declarando que o enforcamento de Saddam “é um marco importante no caminho do Iraque para se tornar uma democracia que possa se governar, se sustentar e se defender” e que vai enviar mais tropas ao Iraque. 
 
A resposta a Bush foi dada há um mês pelo cineasta americano Michael Moore, em carta dirigida ao povo dos EUA. Nela, seu autor propõe um plano de paz, baseado na retirada da tropa de ocupação americana, com o pagamento de uma indenização ao Iraque. Selecionamos alguns trechos.
 
A Carta de Moore
 
Amigos, hoje (27/11) marca o dia em que permanecemos no Iraque mais tempo do que o que gastamos combatendo na Segunda Guerra Mundial. É isso mesmo. Nós fomos competentes para derrotar a Alemanha Nazista, Mussolini e o Império Japonês inteiro em menos tempo que a única superpotência mundial gastou para tentar tornar segura a estrada que liga o aeroporto de Bagdá ao centro da cidade.
 
Depois de 1.437 dias no Iraque, não pudemos conquistar sequer uma simples estrada e nos proteger contra bombas caseiras, feitas de latinhas, colocadas em buracos nas rodovias.
 
A culpa desse fracasso se deve às nossas tropas? Não. Não importa quantos soldados, helicópteros ou democracias nós cuspimos das nossas armas, nada irá "vencer a guerra no Iraque". É uma guerra perdida. Perdida porque jamais teve o direito de ser vencida, perdida porque começou por homens que jamais estiveram em uma guerra, que se escondem atrás daqueles que foram enviados para lutar e morrer.
 
Por isso não quero saber de mais tropas no Iraque. Só existe uma única solução e ela é simples: retirada já! Agora. Comecem imediatamente. Vamos cair fora de lá o mais rápido que pudermos e tentar reparar o dano que cometemos.
 
A responsabilidade pelo fim dessa guerra cabe agora aos democratas. O Congresso tem o poder de colocar um fim a essa loucura. Se fracassarem nisso, a ira dos eleitores recairá sobre eles. Nós não estamos brincando, senhores democratas, e se vocês não acreditam em nós, prossigam essa guerra. Nós lutaremos contra vocês com mais força ainda do que fizemos contra os republicanos. Essas são nossas exigências:
 
1 - Tragam as tropas de volta para casa já! Não em seis meses. Não em duas semanas. Agora! Deixem de procurar um meio de vencer. Nós não podemos vencer. Nós perdemos. Às vezes se perde. Essa é uma dessas vezes. Sejam corajosos e admitam isso.
 
2 - Peçam desculpas a nossos soldados. Digam a eles que nos desculpem, porque eles foram usados para lutar em uma guerra que não tinha nada a ver com a nossa segurança nacional. Nós precisamos garantir que cuidaremos deles e que eles sofrerão o mínimo possível. Os soldados incapacitados física e psicologicamente receberão os melhores cuidados e uma compensação financeira significante. As famílias dos soldados que morreram merecem desculpas e precisam ser cuidadas para o resto das suas vidas.
 
3 - Devemos pagar pelas atrocidades contra o povo do Iraque. Há poucos males piores do que fazer uma guerra baseada na mentira, invadir outro país porque você quer o que é deles e que está enterrado no solo. Se você paga impostos, então contribuiu para os 3 bilhões de dólares que gastamos por semana para levar o Iraque ao inferno, onde permanece até agora. Quando a guerra civil tiver terminado, nós deveremos ajudar a reconstruir o Iraque. Nós não podemos nos redimir, se não fizermos isso.
 
Por último, há uma coisa que eu sei. Nós, americanos, somos melhores do que as coisas que fizeram em nosso nome. A maioria de nós ficou estarrecida e zangada com o que aconteceu em 11 de setembro e perdeu a cabeça. Nós não pensamos direito e jamais olhamos um mapa. Porque somos mantidos na estupidez graças ao nosso sistema patético de educação e à nossa mídia preguiçosa, não sabemos nada de História.
 
Nós não sabemos que somos os caras que financiaram e armaram Saddam Hussein por muitos anos, inclusive quando ele massacrou os curdos. Ele era o nosso aliado. Nós não sabíamos o que era um sunita ou um xiita, sequer havíamos escutado essas palavras. De acordo com o National Geographic, 80% dos adultos do nosso país não sabem localizar o Iraque no globo terrestre.
 
Nossos líderes manipularam nossa estupidez com suas mentiras e nos amedrontaram até a morte. Mas, no fundo, somos um povo de bom coração. Aprendemos devagar, mas a bandeira de "missão cumprida" nos atingiu de modo ímpar e cedo começamos a fazer algumas perguntas. Depois, começamos a ficar espertos. No último dia 7 de novembro, nas eleições, nós tentamos consertar nossos erros.
 
A maioria agora conhece a verdade. A maioria agora sente uma tristeza e culpa profunda e uma esperança de que qualquer coisa que seja feita será melhor e colocará tudo nos eixos. Infelizmente, não é assim. Então precisamos aceitar as conseqüências de nossas ações e fazer o melhor para que o povo iraquiano possa até pensar em pedir auxílio a nós no futuro. Pedimos a eles que nos perdoem. Pedimos aos democratas que nos escutem e que saiamos do Iraque agora!  Do seu, Michael Moore".

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