CRÔNICAS

Um adeus a J. Rosha: nota do Cimi

Em: 12 de Novembro de 2020 Visualizações: 831
Um adeus a J. Rosha: nota do Cimi

A notícia da morte de J. Rosha me deixou nocauteado. Meu ex-aluno no curso de Jornalismo da UFAM, amigo querido, com quem compartilhei sonhos e envolvimento radical nas lutas indígenas pelo direito ao território, à cultura, à lingua. Ele militou em todas as frentes com as quais eu também estive comprometido: movimento indígena, Porantim, Cimi, jornalismo sindical, sindicato dos metalúrgicos.... Compartilho o que escrevi quando da morte de outro aluno, Eduardo Kuaray, guarani. "A morte de um aluno jovem é, para o professor que a ele sobrevive, como a morte de um filho: uma inversão antinatural, uma cilada do destino, uma emboscada da história. Assim como existe pai órfão de seu filho, existe professor órfão de seu aluno". Que Nhanderu o receba com todas as honras merecidas. O Taquiprati  reproduz aqui a nota do CIMI Regional Norte em homenagem a um homem bom, que lutava pela justiça. 

Nota de pesar pelo falecimento de José Rocha, assessor de comunicação do Cimi Regional Norte I

Informamos com profunda tristeza o falecimento, no início desta tarde, 10 de novembro de 2020, em Manaus, de José Honório Garcia Rocha (J. Rosha), jornalista e assessor de comunicação do Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Norte I. Manifestamos nossa solidariedade a seus familiares e amigos, que abraçamos na dor dessa perda irreparável.

Rosha assumiu a assessoria de comunicação do Cimi Norte I em 1989, abraçando a causa indígena com coragem, dedicação e compromisso. Logo no início passou por uma prova de fogo. Foi envolvido na luta dos povos indígenas no Rio Negro, no contexto do projeto Calha Norte, que propunha a demarcação das terras indígenas na forma de “Colônias Indígenas”, reduzindo drasticamente o território tradicional para favorecer empreendimentos minerais e outros interesses de terceiros na região.

Os militares, temerosos que a voz das lideranças indígenas reunidas na Assembleia em Taracuá, a favor de seus direitos e contra o esbulho de suas terras, se fizesse ouvir, conduziram Rosha, junto com outros companheiros do Cimi, até a sede do município de São Gabriel da Cachoeira, impedindo-o de fazer a cobertura jornalística para a qual tinha sido convidado.

Ao invés de se deixar intimidar, continuou repercutindo a voz das comunidades indígenas através do “Informativo Calha Norte” do Regional do Cimi, revelando as estratégias anti-indígenas do governo, até que a luta dos povos indígenas da região pela demarcação integral de suas terras fosse vitoriosa.

Ao longo dos mais de 30 anos no Cimi Norte I, Rosha ajudou a alimentar e impulsionar numerosas campanhas a favor da demarcação e proteção de terras indígenas e por políticas adequadas e específicas de saúde e educação. Bem como repercutir denúncias indígenas de violação de seus direitos e de outros temas de interesse das comunidades.

Num momento em que as lutas dos povos indígenas recebiam pouca atenção, Rosha contribuiu, com suas reportagens, para visibilizar a realidade das aldeias e amplificar as vozes dos povos originários da Amazônia, sempre primando pela qualidade e pela precisão de suas apurações.

Seu trabalho contribuiu diretamente para trazer ao conhecimento do público graves situações que, de outra forma, permaneceriam esquecidas, invisíveis aos olhos da sociedade não indígena. Para isso, não hesitou em percorrer os longuíssimos caminhos amazônicos, sendo muitas vezes acometido pela malária, atrás das informações junto aos povos. Um empenho também expresso em suas matérias tratando dos perigos que rondam os povos em isolamento voluntário.

Rosha graduou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), no ano de 1986, e sua trajetória expressa a coerência de uma pessoa comprometida com as causas nas quais acreditava. A causa indígena, à qual se dedicou por mais de três décadas, foi uma delas.

Além do Cimi, Rosha trabalhou como assessor de comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, onde começou editando o jornal da categoria, e atuou durante muitos anos e de forma bastante intensa no Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, sua própria categoria, onde foi diretor.

Seu compromisso com as lutas populares complementava-se com a paixão pela causa indígena. Causa que sistematiza o mundo que era vislumbrado por Rosha: mais solidário e generoso, um lugar onde todas as formas plurais de entender a vida possam ter seu espaço garantido e respeitado.

Hábil repórter, José Rocha também foi um talentoso cartunista e ilustrador, qualidade que exerceu na elaboração e ilustração de materiais de formação sobre os direitos indígenas. Foi nas assinaturas das charges e cartuns que adotou a alcunha ‘J. Rosha’, com a qual assinava também seus textos.

Incansável e sempre disposto a ampliar o alcance de uma comunicação popular e autônoma, Rosha colaborou com a formação de comunicadores indígenas e, nos últimos anos, também assumiu o programa de rádio “A Voz dos Povos Indígenas” na Rádio Comunitária A Voz das Comunidades, em Manaus. Também realizou um documentário, entre 2011 e 2012, sobre o descaso com a saúde indígena no Amazonas. De 1989 até os dias de hoje, Rosha contribuiu constantemente com o jornal Porantim, veículo de muitas de suas matérias.

Depois de tantas andanças e intensa atividade como jornalista e militante, Rosha acumulou alguns problemas de saúde. As dificuldades de visão causadas pela diabetes, doença que o acompanhava há alguns anos, não o impediram de seguir ativo em seu trabalho até os últimos dias de sua vida, aos 56 anos. Quando a diabetes afetou sua visão, passou a ampliar as letras do computador, para escrever, e a utilizar uma lupa para as leituras.

Sua derradeira cobertura foi sobre a violência perpetrada contra indígenas e ribeirinhos no rio Abacaxis. A fez mesmo enfermo. Durante esses meses de pandemia do novo coronavírus, Rosha também denunciou o descaso e o negacionismo do governo federal responsáveis por, especialmente em Manaus, provocar uma onda devastadora de mortes e doentes.

Pode ter sido a covid-19, por sinal, que tenha maltratado ainda mais o organismo do Rosha. Os exames iniciais deram negativo para a doença, mas ele seguia apresentando todos os sintomas. Por consequência da diabetes, as funções cardíacas e renais do jornalista estavam comprometidas a ponto dele ter que se submeter à hemodiálise.

Os sintomas da covid-19, possivelmente, agravaram a situação, e com o quadro de saúde frágil o nosso querido Rosha não resistiu a essa batalha, num ano em que muitos guerreiros como ele também foram vencidos.

Rosha deixa um importante legado para o Cimi, para os povos indígenas e para o jornalismo, especialmente o voltado à defesa dos direitos humanos e da causa indígena. É uma perda precoce e irreparável, mas o que fica é o exemplo de um jornalista que dedicou toda sua capacidade, intelecto e energia àquilo que acreditava, prestando um inestimável serviço aos povos, comunidades, trabalhadores e trabalhadoras dos estados da Amazônia.

Manifestamos nosso profundo reconhecimento e gratidão ao nosso companheiro Rosha, por sua dedicação e firmeza, e inspirados por ele, reafirmamos nosso compromisso firme com a defesa da vida e dos direitos dos povos indígenas.

Conselho Indigenista Missionário

10 de novembro de 2020

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15 Comentário(s)

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Marilene Correa comentou:
12/11/2020
Histórias, afetos, redes de aprendizagem, o companheirismo e profissionalismo do querido Rosha passou pela Lucta Social, Porantin, Cimi, CUT, Caravana da Cidadania, Sindicato dos Jornalistas, a democratização da Universidade, o rádio, o jornal, e tantos outros recortes de seu compromisso com a cidadania. Enfim, a comunicabilidade das lutas de minorias e classes sentirá muito a sua falta, companheiro. Muita luz e paz em seu descanso eterno. ROSHA, PRESENTE!
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Marilza De Melo Foucher comentou:
12/11/2020
Eu mandei este poema a Rosha e veja abaixo sua resposta: AS ROSAS E AS PEDRAS NO CAMINHO A caminho do trabalho ouço uma música que diz: “olhe as rosas ao longo do caminho” (Send me an angel). Não demoro a encontrar. Um pouco mais adiante, numa área de intenso movimento, vejo uma flor brotando por uma fresta entre o concreto do meio fio e o asfalto da rodovia. Estacionei o carro alguns metros à frente, fora da pista. Fui até o local, atravessando um parte do caminho cheio de pedregulhos, e fiquei observando: era, de fato, uma rosa vermelha. Devia ter brotado há pouco tempo e estava pujante. A primeira ideia que me ocorreu foi tirá-la daquele local, levá-la para um lugar mais seguro, supondo que poderia ser destruída por acidente. Porém, detive-me em uma reflexão. Ela lutou teimosamente contra a dureza do concreto e do asfalto para se mostrar à luz do sol. E ali no seu canto ela dançava com o vento e ostentava uma beleza que só fazia sentido porque ela estava ali, desafiando a força bruta e a indiferença. Quem a visse haveria de se encantar com sua leveza e sua cor. Entre outras flores igualmente bonitas, fora dali, ela só teria beleza - algo que pouco ou nada traduziria de sua profunda existência. Ao redor daquela pequena centelha de vida havia muitas pedras, latas enferrujadas, sacolas e garrafas de plástico e outros tipos de lixo que as pessoas atiram de seus carros na passagem. O mundo moderno é assim. Transforma nossos dias em um frenético vai e vem obrigando a nos desfazermos do que não nos serve mais sem ver o que estamos deixando para os que virão depois de nós: um mundo entulhado pela indiferença, pela ganância e por obstáculos de todo tipo por onde muitos trafegarão. Passamos, muitas vezes, em alta velocidade, sem tempo de ver a beleza da vida ao redor. Nos dias de hoje nossos caminhos andam cheios de todo tipo de pedregulho, ora forçando um percurso dolorido, ora uma caminhada trôpega e arriscada. É nesse momento que precisamos aprender com as coisas simples do nosso cotidiano: primeiro, que precisamos remover as pedras do caminho (que não são poucas); segundo, que isso nos requer uma dose considerável de teimosia. Nosso mundo é lindo, a vida é bela. Mas nossa existência precisa de substância, muito mais do que os olhos podem ver. O que nos dará substância é a capacidade de ver que somos a parte mais importante na busca de um mundo melhor para todos. Não podemos nos contentar com a superficialidade ou com as aparências da realidade que nos cerca. Estamos enfrentando um tempo em que há um terreno mais fértil para as mentiras e nem sempre nos damos conta de que os ventos sopram para o lado contrário de onde nos apontam. Parece mais cômodo se contentar com o que salta aos olhos em vez que buscar entender o que, de fato, acontece ao longo da caminhada. Somos impelidos para o futuro pela marcha da História. Nela nos deparamos com muitas encruzilhadas e muitos sinais indicando a direção. Para onde seguir? Como chegar ao destino com segurança e a certeza de que escolhemos o melhor lugar? A resposta talvez nos faça entender que nessa marcha com frequência estaremos em lado oposto a pessoas que nos são de grande estima, mas que preferiram seguir em outro rumo. É nessa marcha, com todos os sacrifícios por ela impostos, que somos desafiados a entender o sentido da nossa existência. Em tempos de pandemia, de isolamento dos que amamos, de distanciamento das coisas que gostamos, de crises de toda ordem e de perdas dolorosas... sejamos como a rosa da estrada: apesar da aparência frágil, lutemos para que a vida irrompa com toda sua pujança em meio às pedras do caminho. J. Rosha [10:32 AM, 11/11/2020] Marilza Foucher: Se podes publicar ou divulgar ais amigos de Manaus. Ele me pediu um testemunho sobre a situação do Covid-19 para sua rádio.
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Martha Azevedo comentou:
12/11/2020
Lindo comentário Bessa eu li... fiquei passada tb com o falecimento do Rosha...... muito triste!: Ele ajudou pra caramba a Copiar. A cada encontro na Maromba ele assistia tudo (!) não arredava o pé, e depois publicava lindas notícias nos jornais Sempre com sorriso no rosto!!
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Ana Chrystina Mignot comentou:
12/11/2020
Quanta delicadeza nesta homenagem! Coisas do Bessa
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Anne-Marie Milon Oliveira (via FB) comentou:
12/11/2020
Não há nome para essa morte, muito menos para o monstro que não fez nada para que isso fosse minimizado no nosso país. Muito pelo contrário!
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Eva Seiberlich comentou:
12/11/2020
Belas palavras em ocasião tão delicada, professor. Expressou tão bem o sentimento de um professor em relação ao seu aluno.
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Ely Macuxi comentou:
12/11/2020
Lamento profundamente o falecimento do neu amigo Rocha, companheiro de muitas lutas e esteve comigo na Coiab, Cimi e no sindicato dos metalúrgico. Que Macunaíma o receba na grande maloca.
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Macedo Heliomar comentou:
12/11/2020
Inestimável falta fará o companheiro Rosha nas lutas sociais e em defesa dos indígenas. Rosha Presente, agora e sempre! Descanse em paz!
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Jadir Augusto Lula de Souza comentou:
12/11/2020
Roscha foi um jornalista comprometido com os movimentos sociais e populares. Ajudou todos os movimentos que pode, tanto em Manaus, como no interior do Amazonas. Nos ajudou aqui na Redenção, quando conquistamos a Associação dos Moradores do Bairro da Redenção. Descanse em paz, companheiro.
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Dôra Brasil Queiroz Brasil comentou:
12/11/2020
Quando fui dirigente sindical do SINTTEL, Rosha foi nosso jornalista. Tinha compromisso e conteúdo admiráveis. Uma pena!! Estamos perdendo muita gente boa
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Joao Lizardo Rodrigues Paixao comentou:
12/11/2020
Além dessa perda, a sua companheira também encontra-se internada.
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Mario Lucio Covas comentou:
12/11/2020
Meu Deus! mais um guerreiro dos movimentos que perdemos!
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Magela Ranciaro (via FB) comentou:
12/11/2020
, sim: “... existe professor órfão de seu aluno”
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Herman Marinho comentou:
12/11/2020
ROSHA, contemporâneo na UFAM, mesma turma de comunicação. Amigo e ser humano único. Aqui e ali nos reencontrávamos. Ele sempre envolvido com a luta pelo respeito aos direitos das nações indígenas. Deixa uma imensa lacuna entre as fileiras dos seres de luta e luz neste plano. Q imensa perda pra todos q amam desmedidamente ao próximo! VAI EM PAZ, GRANDE ROSHA. Vou sentir saudades de te encontrar e vc sempre me saudando: “ salve Hermaníaco!”
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Lúcio Carril comentou:
12/11/2020
Meu amigo, estou atordoado. É uma perda atrás da outra. Cada golpe nos tira o chão. Rosha era um companheiro que ainda tinha muito para viver e lutar pela realização dos seus sonhos, sonhos de todos nós.
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