CRÔNICAS

O sequestro do ônibus: esquerdopatas e direitopatos

Em: 25 de Agosto de 2019 Visualizações: 4557

“Há sangue nesta vida / Há vida neste sangue / Há flor nesta vida / Há vida nesta vida”.

Eliane Potiguara – Tocantins de sangue, 2004

Terça-feira friorenta. Saio de casa em Niterói para dar aula na Uerj. São 5h45. Faz escuro. Mas eu canto? A manhã vai chegar com esse engarrafamento monstruoso? Tudo paralisado. Estou engasgado no viaduto, antes da praça do pedágio. Ligo o rádio. Alguém sequestrou um ônibus com 37 passageiros, agora atravessado na ponte e cercado por viaturas policiais. As informações são ainda imprecisas. Algumas pessoas descem de seus carros. Conversam. Estão tensas. Não há previsão de liberar o trânsito. Envio mensagens por WhatsApp a meus alunos, suspendendo as aulas.

Depois de duas horas de espera, a ponte continua interditada, mas uma pista no sentido contrário é liberada para quem quer sair do gargalo. Retorno. Já em casa, acompanho pela TV. A polícia negocia. Seis reféns são liberados. A negociação é interrompida pelo governador Wilson Witzel (PSC – vixe vixe), que monitorou tudo através de aplicativo de celular. Ele autoriza os disparos. Um atirador de elite do BOPE mata o sequestrador. Num espetáculo deprimente que envergonharia qualquer nação civilizada, Witzel desce de um helicóptero e se exibe diante das câmeras de TV, de punhos fechados, comemorando a morte.

Quem era o sequestrador morto chamado de “criminoso” pelo governador do Rio? William Augusto da Silva era um menino: tinha apenas 20 anos. De família pobre: a mãe Renata Paula da Silva, merendeira e o pai José Rinaldo da Silva, padeiro. “Era um bom filho, mas extremamente depressivo” disse a major Fabiana Silva, que comanda a Secretaria de Vitimização do Rio, depois de conversar com a mãe, que tinha consciência do transtorno mental temporário do filho. “Ele não tinha amigos. Vivia enfurnado no telefone, na internet e usava remédios controlados” – contou um primo.

A empatia

Bastou uma postagem nas redes sociais, questionando a morte de William, para gerar uma guerra de palavras, com tiros de adjetivos, substantivos e verbos de lá e daqui.

- Vocês são uns esquerdopatas. A morte do “criminoso” foi para salvar vidas. Quero ver se o filho ou a filha de um de vocês estivessem dentro do ônibus, se seriam tão bonzinhos assim.

E aí? Esse parece ser um argumento forte, de peso. Lembro que há meio século, em plena ditadura, o estudante Edson Luís foi assassinado pela polícia. O enterro saiu da Cinelândia. Fomos a pé até o cemitério em Botafogo e, no caminho, as pessoas acenavam das janelas dos edifícios, nos apoiando, quando gritávamos:

- Mataram um estudante. E se fosse um filho seu? Mataram um estudante. E se fosse um filho seu?

Era um apelo para cada um se colocar no lugar do outro, do morto e de sua família. No entanto, no caso deste sequestro, essa empatia que permite compartilhar temores, dores e sofrimento, parece ser incompleta. Teria de ser estendida também a outra pessoa dentro do ônibus que foi excluída. E se o seu filho fosse o William, você concordaria com os disparos mortais ou insistiria na negociação?

Se a polícia tivesse tanta pontaria e habilidade na negociação como teve com o sniper, era possível salvar a vida do menino. Bastava trazer a mãe dele ou a professora, como ocorreu em Manaus, em junho de 1967, quando o Petel subiu num poste de iluminação do Estádio da Colina e diante de 12 mil pessoas ameaçou fazer e acontecer. Chamaram sua mãe, dona Geraldina, que chegou e botou ordem na casa. Outro precedente foi a professora que impediu seu aluno armado de assaltar um ônibus da Linha 388 Carioca-Santa Cruz. (Ver “Todo prefeito é Wandernilson”)

Menino calado

William não portava nenhuma daquelas armas já liberadas por Bolsonaro para atender os interesses da indústria armamentista. Tinha um revólver de brinquedo, uma arma de choque e uma faca, além de uma garrafa PET cheia de combustível. Um dos reféns do ônibus, o professor de geografia Hans Moreno, disse que o sequestrador não pretendia incendiar o veículo, que jogou fora o isqueiro para a polícia ver, que tranquilizou a todos dizendo que não ia machucar ninguém, nem roubar nada, que só queria entrar para a História e que permitiu que cada passageiro usasse seu celular para se comunicar com a família. Lá fora, ninguém estava sabendo disso, o que aumentava a tensão sobre o desenlace final.

- Ele estava com um rádio transmissor, e escreveu o número da frequência no vidro do veículo, para entrar em contato com a polícia. A todo momento, de forma calma, Willian pedia para a polícia "tomar cuidado para os passageiros não se machucarem" – contou o professor.

A professora de William numa escola pública de São Gonçalo disse a uma jornalista que ele era “um menino calado e arredio”, que era “muito introvertido”, que não gostava de ir pro recreio, ficando sempre dentro da sala e que “era uma pessoa que gritava por ajuda desde a adolescência”

- "Ainda não consegui digerir. Porque eu sei que ele não era uma pessoa ruim. Infelizmente o que aconteceu poderia ter sido evitado se ele tivesse recebido toda a ajuda que o ser humano precisa pra encontrar o equilíbrio e aguentar as pressões da vida” -, disse a professora, segundo o relato da produtora do RJTV, Amanda Prado.

William nunca matou uma mosca, não era um “criminoso” como o classificou o governador esfregando as mãos tintas de sangue. Não precisava de balas, mas de atenção, de cuidados médicos.

- Ele era um louco perigoso – retrucam os “direitopatos”, como se loucos devessem ser exterminados pela polícia, que é paga pelo contribuinte para zelar pela vida de todos. Parecem incomodados com os “esquerdopatas”, que encontraram sinais de vida naquele sangue derramado.  

Suicídio por policial

O governador Witzel, ex-fuzileiro naval e ex-juiz federal, foi censurado por uns e aplaudido por outros devido à celebração da morte. Diante das críticas da mídia, desconversou: - Não pude me conter – disse. Mudou o tom do discurso, jurando que celebrava as vidas poupadas, como se a vida de William não fosse também vida.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro – aquele das conversas reveladas pelo Intercept – parabenizou os policiais. O presidente Jair Bolsonaro – aquele que contratou a Wal do Açai com dinheiro público para cuidar de seus cachorros - se regozijou afirmando que “não tem que ter pena do sequestrador”. O senador Flávio Bolsonaro – aquele investigado por comprar imóveis no Rio para lavar dinheiro, amigo do Queiroz desaparecido – apresentou um projeto de lei que altera o Código Penal para incluir mortes como a de William como “suicídio por policial”, uma contribuição esdrúxula do Brasil ao direito internacional.

Os quatro podem vestir a camisa da loja online do empresário Lucas Nunes, cuja estampa celebra a morte do sequestrador: Grande Dia..

Enquanto isso, nós, os “esquerdopatas”, assistimos os “direitopatos” mandar nossa humanidade pelo ralo. Os tiros disparados contra o William atingiram todos nós, inclusive aqueles insconscientes que aplaudiram sua morte. 

P.S. – A Amazônia está em chamas. Ia escrever sobre o tema, mas a morte do William não deixou.

Ver também: 1) Todo prefeito é Wandernilson e Alô alô Realengo, http://www.taquiprati.com.br/cronica/1056-todo-prefeito-e-wandernilson

http://www.taquiprati.com.br/cronica/911-alo-alo-realengo

 
 
 
 

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25 Comentário(s)

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Rui Martins comentou:
29/08/2019
Caro Bessa, está publicado no "Direto da Redação".: https://www.correiodobrasil.com.br/o-sequestro-do-onibus-esquerdopatas-e-direitopatos/
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Silvio Márcio comentou:
26/08/2019
Também, Professor comunista comemora morte de policial militar, acha certo? https://www.tercalivre.com.br/professor-comunista-comemora-morte-de-policial-militar-e-causa-revolta-no-sul/
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Alessandra Marques comentou:
26/08/2019
Não aguento olhar para esse Auschwitzel que só pensa em trucidar o povo.
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Marcio D'Olne Campos comentou:
26/08/2019
Com toda razão José Bessa! Tô aqui pra ti na tristeza pelo Rio de Janeiro
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Airam Sá Xavier comentou:
26/08/2019
Bessa como sempre... irretocável
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Vera Nilce Cordeiro Correa (via FB) comentou:
26/08/2019
Foi um crime e mataram bem quando ele iria se entregar. Eles poderiam não ter morto o jovem, mas a ordem é matar é policial se não matar não se sente homem, e o ódio disseminado é de gente que não tem empatia e nem se coloca no lugar do outro. É cruel!
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Serafim Correa comentou:
25/08/2019
Publicado no Blog do Sarafa https://www.blogdosarafa.com.br/o-sequestro-do-onibus-esquerdopatas-e-direitopatos/
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Fernando Rodrigues comentou:
25/08/2019
Publicado em Racismo Ambiental: https://racismoambiental.net.br/
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Felipe Martins comentou:
25/08/2019
Comemorar a morte de alguém, passa longe de um estado civilizado!
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Rodrigo Matins comentou:
25/08/2019
Emocionante crônica professor Bessa. Muito triste ver a postura do governador comemorando como se estivesse jogando um game de computador. Governador gostaria de informá-lo que a vida não é um "Counter-Strike" ou "Battlefield", o senhor deveria zelar pelo estado e melhorar através dos impostos (que gera uma quantia mais do que suficiente para isso) a educação e a saúde dos cidadãos e principalmente tentar ao máximo evitar mortes como a do menino William e de muitos outros pelo país. O país está em chamas, o presidente além de despreparado, só fala besteiras na imprensa gerando chacota internacional e agora a pergunta que fazemos é, governador o senhor está rindo do que? O que tanto comemora? E destaco também o relato do professor Hans Moreno, muito interessante os detalhes que o professor relatou mostrando que o menino William não queria machucar ninguém e que ele tinha escrito o número da frequência no vidro do ônibus. Tudo isso podia ter sido resolvido da melhor forma. Nota zero para você governador. Um abraço querido professor.
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Ana Daou comentou:
25/08/2019
Olá Bessa, Muito Obrigada! Excelente sua reflexão sobre mais um exercício da tremenda banalização da violência do presente.
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Amanda Soares comentou:
25/08/2019
É triste ver a frieza e o desamor que se instaurou na sociedade. Não compreendo como tantas pessoas se alegraram com uma morte. O Estado é culpado por mais essa catástrofe. Lamentável
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Roberto comentou:
25/08/2019
Infelizmente não tinha como saber que a arma era de brinquedo, mas o combustível, as facas e as vítimas amarradas eram reais. Ele se colocou em risco e as outras pessoas tbm. Foi um suicídio indireto. Problemas mentais, sociais e qlq outro não justifica colocar outras vidas em risco. Não sou a favor da postura do governador, mas a Polícia fez o certo.
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Vanessa Lima comentou:
25/08/2019
Me fez encher os olhos de lágrimas, obrigada por escrever o que eu penso!
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Ana Paula Artaxo comentou:
25/08/2019
Lindo, emocionante! Parabéns
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Ana Silva comentou:
25/08/2019
Realmente, o William só precisava de atenção e cuidados. Precisava da nossa humanidade, mas "se colocar no lugar do outro" implica ter sentimentos e isso hoje em dia é coisa rara."Como se a vida do Wiliam não fosse também vida", que linda frase Bessa. Sensível, humano e oportuno. Obrigada!
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Celeste Correa comentou:
24/08/2019
Nossa! Essa semana foi difícil demais!Muitos crimes...crime contra a vida humana e crime contra a biodiversidade ... Eu imaginei a dor dessa mãe que já sofria ao ver o filho com esse mal solitário chamado depressão e agora tbm chorava a sua morte .. É, esse rapaz tinha uma mãe que além de chorar a sua perda ainda ficou exposta a tristes e cruéis comentários nas redes sociais e nos jornais, com direito à comemoração do Presidente do Brasil e do Governador carniceiro do RJ. Como disse outro dia o Boff em uma entrevista, a sociedade está doente, estamos passando por uma grave crise civilizatória! Muito triste,olha...
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Vera Rodrigues (via FB) comentou:
24/08/2019
Ainda sobre o sequestro do ônibus, no Rio, porque não dá pra pular de um acontecimento p/ outro na velocidade das redes sociais. É preciso , no mínimo , refletir sobre uma politica de "segurança" pública que mata, mata muito, mata antes de qualquer coisa. Texto magistral do professor José Bessa. (Oi, Marcelo Freixo).
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Maria Luiza Santos comentou:
24/08/2019
Das suas aulas sinto saudade Do seu jeito tão peculiar Perfeita descrição do acontecido Tive vontade de chorar. Forte abraço, saudades UERJIANAS.
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Tiago Dantas comentou:
24/08/2019
Me pergunto o que o Brasil estaria discutindo se ele fosse um homem branco e de classe média ou rico. Só pra esclarecer. Não tenho opinião formada sobre esse ocorrido. Fico feliz que o rapaz tenha sido a única vítima fatal desse sequestro. Mas meu questionamento é se estamos fazendo a coisa certa. Por que o rapaz fez isso? O que nós, como sociedade, podemos fazer para isso não se repetir? Estamos apenas remediando o efeito? Tem como previnir a causa?
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Paulo Henrique Leitão Couto comentou:
24/08/2019
Tiago Dantas posso falar por mim. Se ele foi estimulado a fazer isso pelo desespero que a depressão causa, eu diria que o que a sociedade deveria fazer é dar boas chances de um indivíduo ser bem sucedido. Pq tem um vídeo muito bom que falam dos valores dos imóveis dos anos 40 até o inicio doa anos 90. Antigamente jovens de 20 anos conseguiam com algum trabalho, ter sua casa e automóvel. Hj trabalhamos mais e nosso dinheiro vale menos. Sendo que os imóveis em especial ficaram mais caros. Bem caros. Daí esse moleque por saber que é feio, pobre e burro, sem ver saída da situação dele pois nem experiência ele tinha pra poder ter um bom emprego, uma namorada de qualidade. Se sentiu um merda e inútil. E fez essa besteira. Eu mesmo tive vontade de me vingar de quem me machucou e me humilhou, mas percebi que quem se fode no fim sou só eu. Eu me trato na psicóloga e psiquiatra. Não vejo ajudar muito, mas quem sabe se alguém tivesse levado ele para os profissionais ele teria pensado melhor nas coisas que fez...
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Ana Gita Oliveira comentou:
24/08/2019
O mundo anda muito feio, desumano e sem qualquer poesia mínima .
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Lia Aurora comentou:
24/08/2019
A metade da população brasileira está com uma doença grave, foram contagiados pelo ódio que Bolsonaro destila contra os menos favorecidos!
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Isabel Miranda comentou:
24/08/2019
Que horror, que horror, que horror.
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Venize Ramos Rodrigues comentou:
24/08/2019