CRÔNICAS

Pra não dizer que eu não falei de ixora

Em: 02 de Setembro de 2018 Visualizações: 2485
Pra não dizer que eu não falei de ixora

“Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor /

 Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão”.

(Geraldo Vandré)

- Vovô, como é o nome dessa flor?

A pergunta da Ana, do alto dos seus 7 anos, me pegou de surpresa. Era uma tarde calma. Estávamos numa alameda do parque onde costumamos passear nos fins de semana.

- Essa flor? ...  – ga-gue-jei para ganhar tempo.

- É. Essa flor, vovô! – ela apontou, enfática, uma florzinha alaranjada de pétalas em forma de pequeno catavento,  pendurada na ponta de um ramo, que dançava na cadência de suave brisa. Ao lado dela, bailavam outras da mesma família, todas escoltadas por folhas verdes. Eram pequenas, mas charmosas e desinibidas, com pinta de quererem seduzir polinizadores, borboletas e beija-flores. Hesitei:

 - Deixa ver se eu me lembro, essa flor.... essa flor....

Por um momento passou pela minha cabeça dar um chega-pra-lá autoritário, do tipo “deixa de ser curiosa, menina”, o que seria uma infâmia capaz de comprometer a busca do conhecimento. Nem minha neta, nem meus alunos merecem tal “curiosicídio”. Era melhor enrolar, criando um nome científico qualquer, que logo ela esqueceria. Os botânicos não usam o latim para batizar as flores? Pois é. Inspirado em Vandré, posso muito bem inventar que aquela flor é a “Vincere bombardam”, a “Flos resistentiae” ou ainda, neste período eleitoral, a “Inimica centurionis Bolsonarii”.

A flor perdida

O canhão vencido vai no caso acusativo, como qualquer bombarda derrotada quando é objeto direto. Como a resistência é da flor, que é inimiga do centurião, ambos vão no genitivo. Os casos e as desinências estão, portanto, corretos. Para algo tinha de servir o “latim de missa” do seminário. Mas desisti porque é desonesto usar a palavra certa para enganar pessoas, mormente a própria neta. Afinal, é essa curiosidade que empurra a gente e nos faz avançar. O desafio das perguntas incômodas é que nos acercam ao saber. Foi por isso que optei por cometer um “vovocídio”, consciente de que decepcionaria a filha da minha filha, para quem o avô é aquele velho que sabe tudo.

- Não sei o nome dessa flor – admiti, disfarçando o constrangimento.

- Como não sabe? – insistiu Ana, desapontada.

- Sei lá! Minha avó não me falou. Minha mãe se calou. A professora na escola não me ensinou. A televisão não mostrou. O jornal não divulgou. O livro não publicou. Museu, sindicato e igreja me ocultaram essa flor – denunciei, citando esses e outros aparelhos ideológicos de estado registrados por Louis Althusser.

De qualquer forma, senti que naquele momento murchava a flor do conhecimento que eu fingia possuir para impressionar minha neta. Era um estrago tão grave quanto o dano feito à jovem Dorila, “terna e mimosa”, cantada pelo poeta mineiro do séc. XIX, José Eloy Ottoni. A moça “foi ao prado colher flores”, mas “eis que do prado chorando voltou, confusa e aflita”. Quando lhe perguntavam o que havia acontecido, calada ficava e só emitia gemidos. O poeta matou a charada:

 “Que tem Dorila? Os sinais

Indicam, a pesar seu,

Qu'indo ao prado colher flores,

A flor, que tinha, perdeu...”

Quanto a mim, indo ao parque ver flores, a flor que perdi foi a do saber. Fui epistemologicamente desvirginado por não poder compartilhar um saber com minha neta.

Vovocídio

- Se você não sabe, vou perguntar, então, da minha avó – ameaçou Ana.

- É isso aí! Vai lá! – falei, dando a maior corda. Recomendei que buscasse ainda os dois avós paternos, ciente de que nenhum dos três saberia responder. Dessa forma, o “vovocídio” seria completo, o que relativiza minha ignorância. Não deu outra. Aliás, qualquer um de nós entra num parque e não identifica as espécies. É tudo genérico: plantas, árvores, pássaros. Fomos afastados da natureza que para nós é uma ilustre desconhecida. Só netos, camponeses e índios conseguem observar aquilo que o urbanoide não vê.

E foi justamente um índio Pataxó que me revelou:

- Ixora! Essa flor se chama ixora, pode ser encontrada nos canteiros e jardins de muitas praças do Brasil. Conhecida também como “cruz de malta”, “chama da floresta” e “trepadeira vermelha”, é um santo remédio. O chá da raiz cura dor de garganta, a folha é usada para o tratamento de pereba e curuba, o caule e as folhas cicatrizam feridas e desinflamam tumores. 

- E o que significa na tua língua?  – indaguei.

O meu amigo Pataxó respondeu que aquela palavra, cuja pronúncia é icsora, não pertencia à língua Patxohã, era estrangeira, que essa flor nem existia no Brasil, que foi trazida por D. João VI, em 1809, através do Suriname, onde é a flor nacional, que é originária da Índia e da Malásia, que dá o ano todo e prefere o clima quente, que tem várias cores – amarela, vermelha, laranja, cor de rosa, que são mais de 400 variedades. Quando eu quis entender como é que ele havia aprendido tudo isso, me disse que observou, perguntou dos velhos e complementou com o “Google”.

De posse de tais informações, pude me exibir agora para minhas três netas. Voltamos ao mesmo parque, às mesmas flores, no mesmo jardim. Expliquei-lhes que não basta saber o nome de uma flor, que é preciso cuidá-la e defendê-la como faz Katumbaiá, o espírito protetor da floresta na cultura Pataxó. É assim que a flor pode vencer o canhão do centurião.

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29 Comentário(s)

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Valk Paulino comentou:
04/09/2018
Amigo, acompanho há anos as tuas crônicas, te acho um excelente "escriba", aliás como vc mesmo se define, prosa bem humorada, de fácil leitura, com um estilo bem pessoal onde os adjetivos e jargões amazônicos são ingredientes que cativam o leitor até o final do texto...parabéns...
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Kleber Ferraz comentou:
02/09/2018
Tua narrativa nos transfere para aquele momento, parece que dá prá ver a florzinha e a netinha enfática na sua curiosidade! Sensacional!
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Fernando Soares Campos (via FB) comentou:
02/09/2018
É verdade, Kleber, nas narrativas do professor Bessa, a gente viaja na primeira classe...
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Fernando Campos comentou:
02/09/2018
Publicado no Pravda http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/02-09-2018/46215-ixora-0/
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Osana Lopes de Carvalho comentou:
02/09/2018
Essa mensagem faz nos lembrar dos descasos e da intolerância, que hora pregam no cenário politico do nosso país, nos levando a aceitar o que não e inaceitável.
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Zilda Saturno Cunha comentou:
02/09/2018
"Prá Não dizer que NÃO falei das Flores...Infelizmente a LUTA SANGRA NO CORAÇÃO DA NAÇÃO.
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Jose Manais comentou:
02/09/2018
Professor Bessa, O linguista Chomsky afirmou que a midia dominante não tem como objetivo informar o que acontece, mas moldar a opinião pública de acordo com a vontade e os interesses do poder dominante, das facções ideologicas e do mercado. O senhor concorda com isto? E se a Doralina for apenas uma pessoa do grupo dominante e trazer consigo todos os valores de ambição, falta de escrúpulo e crueldade da Lady Macbet , vilã Shakespeareliana? O poema estaria moldando a opinião pública para mostrá-la como uma " boazinha" ? Salvo pelo google. Icsora.
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comentou:
02/09/2018
José Ribamar Bessa Freire, Lindo demais! Não sabia que você além tudo era poeta! Ser avô ou avó nos torna mais talentosos ainda. Parabéns pela belíssima crônica!
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Julia Muniz comentou:
02/09/2018
Afinal o vovocídio não aconteceu, apenas a humanização dos vovôs. ????
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Renata Curado (via FB) comentou:
01/09/2018
Maravilhoso como sempre mestre!!! Que possamos sempre “dar nomes as flores” desde a infância para construirmos um mundo mais sábio que aprende de fato c os povos indígenas!
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Camila Aranha comentou:
01/09/2018
Professor, estás escrevendo no futuro! Seu texto está com a data do dia 2 de setembro de 2018, rsrs. Adorei o texto!
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Racismo Ambiental comentou:
01/09/2018
Publicado em COMBATE - Racismo ambiental. https://racismoambiental.net.br/2018/09/01/pra-nao-dizer-que-eu-nao-falei-de-ixora-por-jose-ribamar-bessa-freire/
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Solange Maria de Carvalho (via FB) comentou:
01/09/2018
Agora eu tb sei o nome dessa florzinha ?
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Maria Albuquerque comentou:
01/09/2018
Parabéns professor, não perco nenhuma crônica da sua coluna. Abraços
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Maria Do Carmo Cardoso (via FB) comentou:
01/09/2018
Adorei o texto e a curiosidade da Ana. Vou procurar no Google ixora.
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Celia Lacerda (via FB) comentou:
01/09/2018
Bela crônica! Dá gosto ler seus escritos. ?????
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Juliana Venturelli comentou:
01/09/2018
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Tesla Coutinho (via FB) comentou:
01/09/2018
Adianto um pouquinho do artigo de hoje do querido professor José Bessa, mas ele está inteiro no link, que abre as trilhas de outros tão nossos e imensos como esse aí
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Márcia Parequett comentou:
01/09/2018
Eu sempre estou lendo suas divertidas e críticas crônicas, me deliciei com a história da neta, que já anda nos sete anos. Os meus também andam crescendo e a mais velha já é aluna da UFF.
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Marcia Livia Gomes (via FB) comentou:
01/09/2018
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Rodrigo Martins Chagas comentou:
01/09/2018
Excelente crônica professor, como sempre! E de todos os nomes da Ixora eu prefiro a "Cruz de Malta". rs Abraço!
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Fátima Oliveira (via FB) comentou:
01/09/2018
José Bessa Como não se emocionar com suas crônicas?!Aliás você sabe como ninguém se eternizar nelas! Grande beijo eterno mestre!
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Célia Maria Dias de Carvalho comentou:
01/09/2018
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Maria De Carvalho Dias comentou:
01/09/2018
Que crônica! Vale a pena lê - la. .
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Falcão Vasconcellos (via FB) comentou:
01/09/2018
Falar de flores e dimensão de "natureza" em nossa vida é crime (?). Tempos de trevas esses(? ).
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Kerexu Yxapyry (via FB) comentou:
01/09/2018
Que lição de vida. Vivemos atrasados numa era tão moderna, onde não conversamos mais com os sábios e nem com o xeramõi Google. Sei lá o que procuramos. Simplesmente AMEI.
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Aurora Cano (via FB) comentou:
01/09/2018
Já cantava o poeta: Que tempos são esses em que falar de flores é quase um crime. Apesar disso, vale a pena ler a cronica sobre flores.
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Maria Pereira (via FB) comentou:
01/09/2018
Linda crônica! Lembrei do Gil com sua nova música sobre a intervenção cardiológica que fez, fazendo poesia de tudo e qualquer coisa. https://www.ouvirmusica.com.br/gilberto-gil/quatro-pedacinhos/
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Ana Silva comentou:
31/08/2018
Bravo! Adorei e morri de rir com o "constrangimento'. rsrs Também estou esperançosa da flor vencer o canhão.
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