CRÔNICAS

OS AMIGOS DE JORGE

Em: 18 de Novembro de 2007 Visualizações: 2882
Quando o cantor Georges Brassens morreu, em 1981, os franceses colocaram luto e prantearam sua morte. A televisão mostrou à saciedade imagens daquele bigodudo, com o seu inseparável cachimbo, cercado da ternura de seus gatos. Reproduziu cenas em que ele aparece, ainda jovem, no filme ‘Porte de Lilás’ de René Clair. E tocou a música ‘Os amigos de Georges’ ‘pessoas facilmente identificáveis – dizia a letra - porque não eram alpinistas sociais e atravessavam a vida como arlequins, passeando de um lugar para o outro com a cabeça nas estrelas’.
 
Essa música em homenagem a um Georges – Brassens – feita por outro Georges - Moustaki - me veio à lembrança por causa de um terceiro Jorge – Terena, que morreu na semana passada, no Hospital Santa Júlia, em Manaus, aos 53 anos, deixando a todos que o conheceram com uma saudade danada. Apesar de ser Jorge, assim, no singular, ‘ele foi muitos ao mesmo tempo’. Com um deles, autor do artigo ‘A biodiversidade do ponto de vista de um índio’, tive o privilégio de conviver durante a Rio 92. Cinco anos depois nos encontramos num Seminário organizado pela COIAB em Manaus, que reuniu 54 líderes indígenas, para o qual fui convidado como moderador dos debates. Na foto ele está ao lado de outro líder já falecido Idjarruri Karajá. 
 
Diretor do Departamento Etnoambiental da Coordenação das Organizaçôes Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Jorge Terena era formado em Sociologia pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. ‘Algumas pessoas ainda acham estranho um índio ter bacharelado, mestrado e doutorado – escreveu ele – que combateu o preconceito de que índio com diploma deixa de ser índio, lembrando a frase de protesto dos estudantes indígenas de Brasília na época da ditadura militar: ‘Posso ser o que você é sem deixar de ser o que sou’.
 
A melhor homenagem que essa coluna pode fazer a Jorge Terena, intelectual brilhante e uma das principais lideranças indígenas do Brasil, é reproduzir trechos do que foi escrito por dois de seus amigos. Um dele, Marcos Terena, destacou que embora seu povo ‘não tenha o costume de celebrar a missa de 7º dia, podemos pensar escutar, falar, ler e transmitir...Agora, o silêncio, o vento, a chuva, a vida’. O outro, Daniel Munduruku, escreveu ‘Requiem a um parente chamado Jorge Terena’.     
 
Réquiem Munduruku
 
Diz Daniel: “Não importa  em que condição social nascemos. Nascer índio ou não-índio é apenas um detalhe. Há muitos que querem ser índio por terem amor pela causa ou por entenderem que isso é uma benção divina. Acabam se transformando. Há os que, sendo índio, desejam não sê-lo por causa do estigma a que são vítimas desde que nascem. Estes, normalmente, não são muito felizes, pois negam o que são vivendo uma vida que não lhes pertence de fato”.
 
“Há alguns que, sendo índios, viveram outros caminhos, construíram outras histórias e, se quisessem, poderiam viver uma vida alheia à causa de seus parentes indígenas. Poderiam ser facilmente “capturados” pelo sistema econômico que promete sucesso aos que lhe devotam seus melhores conhecimentos.  Muitos já fizeram isso e não se pode condená-los por agirem assim. Não se pode culpar ninguém por tentar viver sua vida da melhor forma possível”.
 
“No entanto, há pessoas que preferem escrever sua biografia de um outro jeito mesmo tendo todos os conhecimentos do dito sistema. Escolhem o caminho mais difícil e mais árduo, para poder deixar a marca de sua passagem por este planeta. Normalmente abrem mão do conforto pessoal para se sujeitarem a viver por uma causa a qual dão seus melhores anos sem esperar retorno real: vivem de esperança. Esperança! É isso que dá valor às biografias. Grandes são pessoas que alimentam nosso espírito com esta semente motivacional e que inspiram nossa caminhada”.
 
“Nosso parente Jorge Terena foi uma dessas pessoas. Tinha tudo para trilhar outros caminhos: era bem formado, falava outros idiomas, era boa pinta e sabia conversar como ninguém. Podia ter sido o que quisesse ser, mas escolheu continuar índio. Optou pelo caminho mais difícil para continuar a nos revelar suas esperanças. Isso o tornou um grande homem!”
 
“Hoje ele não está mais entre nós. Grandes homens também passam deixando saudades e certezas. Saudades porque nos fará falta e certezas porque nos apontou caminhos. Ele foi muitos ao mesmo tempo. Certamente poderia ser muito mais. Não teve mais tempo para isso. Não importa. Somos finitos. Ele se foi, mas seu espírito empreendedor permanece conosco. Para sempre. Desejamos a você, Jorge, uma boa viagem ao encontro dos nossos ancestrais”.
 
Adeus Terena
 
Marcos escreveu: “Jorge Terena, amigo, irmão, pai, companheiro, parente, adentra nesse dia 09 de Novembro em pleno coração da Amazônia brasileira, no campo eterno de nossos ancestrais. Exímio cavaleiro do Pantanal, sabia como nenhum outro fazer amizade, contar histórias e propor ações a favor dos direitos indígenas, somado à sua experiência de homem bilíngüe e bicultural, levado que fora ainda jovem para conviver nos EUA, onde certamente aprendeu novos costumes, mas sem jamais esquecer ou abandonar suas origens e tradições”.
 
“Professor, filósofo e conselheiro, foi demitido da Funai pelo então presidente Álvaro Vilas Boas, diante de sua afirmação de que era parte do empoderamento indígena que estava nascendo. Atuou como assessor especial do Ministro da Cultura, sendo idealizador e fundador junto com Paulinho Paiakan, Marcos Terena, Davi Yanomami e Ailton Krenak do histórico Núcleo dos Direitos Indígenas, que contribuiu para garantir os direitos indígenas na Constituição Federal. Como assessor de José Lutzemberg, teve papel estratégico para a demarcação da Terra Yanomami”.
 
“Assim era Jorge, solidário tirava do bolso o que às vezes não tinha, para ajudar ou socorrer um companheiro. Sempre afetivo e festivo, fazia de sua casa um centro comunitário de fim de semana com peixadas, farinha, pimenta e música onde todos gostavam de estar e usufruir”.
 
“Jorge Terena, que num repente foi chamado a percorrer os caminhos das estrelas, não pôde como a maioria dos indígenas, perceber em tempo, que seu corpo estava tomado pelas novas doenças da modernidade como o diabetes e o câncer, mas deixa um legado principalmente aos Povos Indígenas da Amazônia como o Centro de Treinamento, preocupado com a formação e capacitação das lideranças indígenas. Caminhe firme Jorge, Terena que és, mesmo diante da morte como parte da vida, pois nossas lágrimas hoje são de saudades, tristezas e gratidão ao Grande Ituko-Óviti por termos podido compartilhar ainda que um pouco, da sua vida!
 
Poí Caxé, Boinún! (Até outro Sol, irmão!)”.
 
P.S. Os amigos de Jorge estarão presentes, nessa terça-feira, dia 20, de manhã, à palestra de Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Almeida sobre conhecimentos tradicionais e direitos intelectuais e, à tarde, na fala de Eduardo Viveiros de Castro e Laymert Garcia, que desenvolvem o tema ‘Levando a vida na flauta – como pensar (junto) com o pensamento indígena’. Jorge Terena, com certeza, também estará presente lá, na lembrança de todos que comparecerem ao Centro de Artes da UFAM, à rua Monsenhor Coutinho, 724, em Manaus, no evento organizado pelo Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) e pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

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