CRÔNICAS

CONVERSAS NO BANZEIRO

Em: 03 de Agosto de 2014
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 Não vou mentir: ver, ver mesmo, euzinho aqui não vi. Conto o que me contou Decroly, vulgo Fon-fon, foi ele quem viu o destacado político do grupo do José Melo (PROS, vixe!) entrando tarde da noite disfarçado de freira no comitê eleitoral do seu rival, senador Eduardo Braga (PMDB, vixe!) a quem foi hipotecar apoio. Melo e Braga são candidatos ao governo do Amazonas. O traíra, embora com o rosto encoberto por uma espécie de burca árabe, foi identificado pelo formato piramidal do seu nariz.

- Isso é uma bomba! Você jura que viu? - perguntei.
- Depende do que é "ver". Assim de corpo presente não, mas foi como se tivesse visto. Aquele narigão é inconfundível - falou Decroly, que teve acesso às imagens filmadas por uma câmara instalada no poste em frente ao comitê do Braga, tão alta que bisbilhotava lá dentro e tão potente que filmaria até os pensamentos do deputado Sabino Castelo Branco (PTB, vixe) - se ele pensasse. Duvidei, mas Decroly jurou que queria ver sua mãe mortinha no inferno se estivesse mentindo, que só não me mostrava o filme porque ali não era o lugar apropriado.
"Ali" era o restaurante Banzeiro, na Rua Libertador, em Adrianópolis, onde almoçávamos eu, ele e o Tinoco. Não conto tudo o que ouvi sobre a briga entre bregantinos e melados com medo de ser preso, pois o juiz Márcio Rys do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas atendeu ação cautelar e mandou retirar a câmera de vigilância instalada pelo CIOPS - Centro Integrado de Operações de Segurança - na frente do "Manaus Show Clube" que abriga o comitê de campanha do Braga. Para o juiz se trata de um "reprovável procedimento de espionagem eleitoral".
Os bregantinos
- Muita coisa, no entanto, já havia sido filmada, inclusive o traíra narigudo - disse Decroly, que é advogado. Com sua voz fanhosa - daí o apelido Fon-fon que ele detesta - discordou do juiz porque, data venia, quem não deve não teme e se os bregantinos estavam com o fiofó trancado, se borrando de medo, é porque sabiam que corria sujeira grossa lá dentro do Comitê. Por isso, a avultada multa de R$ 100 mil por dia e em espécie estabelecida pelo juiz, caso a câmara do CIOPS não fosse retirada. O tamanho da multa diz tudo sobre o valor das imagens.
Foi aí que, de pura provocação, manifestei concordar com o juiz que, com aquela medida pretendia restabelecer "a igualdade entre os candidatos", baseado no direito romano do Paritas pirocorum que condena o princípio do "Piroca mea maioribus ut vestri est", ou seja, a minha é maior do que a tua, como sentenciara o jurista romano Públio Caio da Cyrenaica.
Com sua voz anasalada, Decroly retrucou dizendo que retirar a câmara não era igualdade entre candidatos, igualdade era o Braga matar a cobra e mostrar o pau, colocando também uma câmara, também vermelha, em frente ao comitê do Melo para não privar os eleitores da informação e, sobretudo, das fofocas. O que, na verdade, já havia sido feito de forma camuflada.
- Foi ou não foi, Tinoco? - perguntava Decroly depois de cada fala.
Descobri, então, o motivo da presença do Tinoco, funcionário da Seplan, trazido a tiracolo ao restaurante por Decroly. Ele estava ali para confirmar tudo, mas só balançava afirmativamente a cabeça, pois sua boca estava sempre cheia, ocupada em estraçalhar o filé de pirarucu empanado com farinha do Uarini, acompanhado de baião de dois, depois de ter saboreado na entrada a saúva na mandioquinha, especialidade da casa.
As câmaras do José Melo, atual governador, pretendiam - continuou Decroly - encontrar indícios daquilo que levou o Supremo Tribunal Federal a abrir inquérito para investigar o senador Eduardo Braga suspeito, quando o governador era ele, de formação de quadrilha, fraude em licitação e peculato, no caso da desapropriação de um terreno para construção de casas populares. Foi ou não foi, Tinoco?
Os melados
Na hora em que Tinoco foi fazer xixi, Decroly contou que, em represália, Dudu Braga havia instalado uma câmara clandestina para bisbilhotar o comitê de José Melo, na Rua Almir Pedreira, em frente a Graftech, no bairro de Petrópolis, na esperança de verificar o destino de milhares de ovos da merenda escolar, no valor de R$ 6 milhões, o equivalente a 215 caminhões de alimentos que, segundo o então deputado Nicolau, tinham ido parar, em 1996, nos bolsos do, na época, Secretário de Educação, que passou a ser conhecido como José Melo Merenda. Foi ou não foi, Tinoco?
Tinoco, que acabava de chegar do banheiro, confirmou tudo, embora nada tivesse ouvido, pensando que o assunto era a agressão, no domingo passado, do destemperado Eduardo Braga, que deu uma gravata em Joel Reis da Silva, de 24 anos, fotógrafo amador e deficiente físico, que fotografava a carreata no município de Maraã. A máquina foi-lhe arrancada do pescoço pelo "Bira", motorista do senador, com ajuda do "Batatinha", seu segurança e do Sabino Podrão, suspeitando que Joel documentava servidores públicos que trabalhavam para Braga em horário de expediente.
Decroly disse que o paraense Eduardo Braga, 54 anos, e o eirunepeense José Melo, 68 anos, são - como diria Catão, o Velho - ejusdem farinae mandiocae paneirorum”, ou seja, é tudo farinha do mesmo paneiro. Eu estou mentindo, Tinoco?
Repito: não vi o político vestido de freira, nem em carne e osso, nem em imagens. Não vou mentir, embora goste, de vez em quando, de uma mentirinha. Mas acredito no Decroly, que aliás nem Decroly é. Sua mãe, a Hilda, foi aluna do Carlos Eduardo, professor do curso pedagógico no IEA, nos anos 1960, em cujas aulas só dava Decroly. Era Decroly pra lá, Decroly pra cá. Ela jurou que se tivesse um filho, ele se chamaria Ovídio Decroly em homenagem ao médico belga que revolucionou a pedagogia. O menino nasceu, mas na hora de registrá-lo, o pai, vaidoso, preferiu Inezildo Junior. No entanto, para a mãe ele é e será para sempre Decroly, o fonfozinho da mamãe..
Ora, se o tacacá mais delicioso do Amazonas é feito por um japonês - tomei algumas cuias no Ishiba, lá no Eldorado - por que o Decroly Fon-fon, mesmo com nome falso, não pode ter contado a verdade? Bem disse Aldisio Filgueiras, nosso amado poeta: às vezes, a gente precisa mentir para dizer a verdade. É ou não é, Tinoco?
P.S.1- O amazonense que sai do interior para a cidade sempre fica com um pé lá e outro aqui, criando o chamado "circuito do agrado" no contexto do êxodo rural, que é um processo gradual e lento. Quem estiver interessado em discutir as fronteiras móveis entre cidade e interior deve ler Riquezas materiais e imateriais: relações cidade e campo na Amazônia, dissertação de Maurício Adu Schwade defendida em 29 de julho no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia da UFAM. Da banca fizeram parte José Aldemir de Oliveira (orientador), Alfredo Wagner Berno de Almeida e este locutor que vos fala, que depois da defesa aproveitou para almoçar com o Decroly.
P.S. 2 - Mauricio Adu é filho do Egydio Schwade e da saudosa Dorothy (in memoriam), militantes da causa indígena. 

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15 Comentário(s)

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Marcio comentou:
16/08/2014
Professor essas saúvas são boas mesmos? São de cativeiro ou ficam rolando e cortados coisas que ninguém sabe...rsrs
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Marcio comentou:
16/08/2014
Professor essas saúvas são boas mesmos? São de cativeiro ou ficam rolando e cortados coisas que ninguém sabe...rsrs
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Daria Katy (via FB) comentou:
07/08/2014
Eu sei esta politica e suja mas eu vou votar no Eduardo Braga porque ele nao e falso eu lamento muito o Artur neto ta apoiando a falsidade deste melo ele vai fazer a maior meleca no governo eu admiro o Eduardo porque ele nao incobre erros no seu governo quando foi prefeito eu fui vitima de um medico da prefeitura eu sou funcionaria ele na hora chamou os advogados e mandou investigar se houve erro medico ele me deu toda a assistencia obrigado Eduardo Brag vc e honesto eo se melo fingiu que nao me conhecia e todos me conhece na prefeitura SEMPAB quando eu tenho que eu falo na cara gosto Artur Neto mas nao vou votar no melo e sim no Eduardo Braga
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Gê Caleffi(via FB) comentou:
07/08/2014
O Eduardo náo é falso? kkkkkkkkkk Conta outra, Daria. Pergunta pra Rebecca Garcia se o Eduardo é falso ou sincero? Pergunta, maninha. Voce tem o direito de votar em quem quiser, admiro sua sinceridade ao afirmar: o eduardo é sujo, mas voto nele porque lhe devo um favor pessoal. Tudo bem. Mas isso nao pode nem deve ser criterio para justificar o voto, tem que pensar o que é melhor pro Amazonas. Daria, eu daria o voto pro Eduardo se ele fosse o melhor, mas como nao é eu nao dou, nem daria.
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Daria Katy (via FB) comentou:
07/08/2014
Eu sei esta politica e suja mas eu vou votar no Eduardo Braga porque ele nao e falso eu lamento muito o Artur neto ta apoiando a falsidade deste melo ele vai fazer a maior meleca no governo eu admiro o Eduardo porque ele nao incobre erros no seu governo quando foi prefeito eu fui vitima de um medico da prefeitura eu sou funcionaria ele na hora chamou os advogados e mandou investigar se houve erro medico ele me deu toda a assistencia obrigado Eduardo Brag vc e honesto eo se melo fingiu que nao me conhecia e todos me conhece na prefeitura SEMPAB quando eu tenho que eu falo na cara gosto Artur Neto mas nao vou votar no melo e sim no Eduardo Braga
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vania tadros comentou:
06/08/2014
Bessa amei as classificações Bregantinos e Melados.
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Claudinha (via FB) comentou:
04/08/2014
Bessa, que dilícia de crônica mais safada. Chamei meu irmão pra comentar que a tal câmera filmaria até pensamento do sujeito, caso ele pensasse kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Você é doido, usa até seu latim – podre de chic, ninguém entende nada, eu inclusive – para xingar e debochar desses sacanas todos. Quanto à dissertação do seu amigo, é bom pra fazer pensar os especialistas (aqueles que dão conta, como aponta você) que acreditam na existência de uma grande distância entre a zona rural e as cidades
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Thiago Orofino comentou:
04/08/2014
Afinal, esse Decroly existe ou foi inventado? Não ficou claro para mim. De qualquer forma, tanto faz, voce tem razao, sao farinha do mesmo saco, digo, paneiro. E é fqrinha mal peneirada, suja
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Olivia Maria Maia comentou:
04/08/2014
Affe!!! Se o cenário amazônico é inspirador, sua mente é fértil demais na labuta com as letras. Quando mergulhas nas coisas do Amazonas, eu mergulho também e me afogo de saudade. A não veracidade com sabor de veracidade que imprimes ao texto, fica gostoso como o tacacá com pimenta cumari, seguida de mariolas. Afetuoso abraço.
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Ana comentou:
03/08/2014
Eita, que texto saboroso!!!!!!!!!!!!
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Cabocla Dubois comentou:
03/08/2014
O titulo deveria ser Conversa de Banzeiro, aquele banzeiro que so aparece em época de eleiçao no Amazonas. Afinal todos andam na mesma canôa...e sao comandadas pelo mesmo batelao. O tronco da familia politica é o mesmo e nao se renova ha 1 século!. Vale a pena ler o resultado da Pesquisa feita pela ONG Transparência Brasil que aponta que 63% (cinco de oito deputados federais no Amazonas ) e 33% (um de três senadores) dos parlamentares do Amazonas no Congresso Nacional têm parentesco com outros políticos e foram por alavancados por eles. Em nível nacional, o percentual é de 44% para deputados federais e 64% para senadores. A culpa é de quem? Quem elege sempre os mesmos? Chamo atençao pra ver o estudo de modo geral no Brasil e ver a relaçao dos partidos politicos, o utimo da fileira é o PT, este ainda nao transformou o cargo politico em relaçao hereditaria, mas ja existe uma tendência, veja o caso do Acre...Em toda regra a excessao, quando existe independente politica na familia, por exemplo, o Governador do Rio Grande do Sul, é diferente, a filha do Tarso é deputada do PSOL e candidata hoje a Presidência do Brasil, a Luciana sempre fez campanha contra o pai....Em Manaus isto é impossivel, a politica é hereditaria chegam até o bisneto, tataranato da oligarquia e por ai vai....
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Ana Stanislaw comentou:
02/08/2014
Kkkk. Esse Bessa, ô cabra bom 'a Bessa'. Adorei e ri bastante!
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Cláudio Nogueira comentou:
02/08/2014
MERENDAGATE - Watergate foi assim, espionagem no comitê alheio. Teríamos aqui um Merendagate ?
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Zelia Andrade comentou:
02/08/2014
Ribamar, você devia escrever mais sobre os assuntos da nossa terra, já faz tempo que só escreve sobre assuntos que não são daqui do amazonas.
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Alcemir Teixeira (via FB) comentou:
02/08/2014
Esse é o cara. Amo os apelidos dos políticos amazonenses. Sabino Podrão kkkkkkkkkkkk.
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