CRÔNICAS

HOMOFOBIA: A MORTE DO MENINO BAILARINO

Em: 09 de Março de 2014 Visualizações: 8354
HOMOFOBIA: A MORTE DO MENINO BAILARINO

“Nasci pra ser bailarina  /  É só por a sapatilha / Já sinto bater o meu coração”

(Balé – Palavra Cantada)

Mais de 100 bailarinos do Nordeste participaram da abertura, em praça pública, do 3° Mossoró Mostra Dança, ocorrido na última semana de abril de 2013. É provável que nessa ocasião, o menino Alex, de 8 anos, que morava em Mossoró (RN) com a mãe, Digna Medeiros, tenha se encantado com a dança oriental apresentada pela bailarina Nuriel. O certo é que quando ele desembarcou, dias depois, no Rio, para onde se mudou, já estava completamente enfeitiçado pela dança do ventre, o que iria originar uma tragédia familiar.

No casebre suburbano da Vila Kennedy, onde foi morar com o pai, a madrasta e outras cinco crianças, Alex costumava ensaiar passos da dança, se contorcendo em movimentos corporais com sinuosidades de serpente. O pai, Alex André, desempregado, ex-presidiário condenado por tráfico de drogas, virava uma fera. Ele não admitia que o filho, herdeiro de seu nome, se comportasse "como uma mulherzinha". Quando descobriu que, além disso, o menino gostava de lavar louça e andava com o cabelo comprido, passou a surrá-lo quase diariamente para ele "aprender a andar como homem".

O menino, bailarino nato, tinha o physique du rôle. Era franzino, esguio e descarnado. Apesar da repressão paterna, continuou a "pisar no chão com a ponta do pé" e a "tocar o céu com a palma da mão", como a bailarina da dupla musical Palavra Cantada. Os coleguinhas da Escola Municipal Coronel José Gomes Moreira, em Bangu, dizem que aquele magricelinha, com o corpo de mola e amor pela dança, era calmo, não brigava com ninguém. A professora atesta que era afetuoso, dócil e muito inteligente, como demonstram suas notas nos três bimestres: 88, 100 e 90. 

Surras homéricas

No meio do caminho, no entanto, havia uma pedra. O pai Alex André, em janeiro, não conseguindo dobrar o filho, foi à Escola Municipal e pediu que lhe fosse entregue a documentação escolar para uma transferência, alegando um retorno a Mossoró. Era mentira. A escola foi trocada pelo cárcere privado, como suspeita um dos conselheiros tutelares de Bangu. O bailarinozinho ficou preso em casa, onde continuou submetido a frequentes sessões de espancamento, surrado pelo próprio pai que devia protegê-lo. Os "corretivos", insiste o pai, pretendiam ensinar o filho a "ser homem".

No 17 de fevereiro, ocorreu a última sessão de espancamento. Obcecado, o pai queria obrigar o bailarinozinho a cortar o cabelo. Diante da resistência, começou a porrada, tão forte desta vez, que dilacerou o fígado da criança. Ele teve uma hemorragia interna. A madrasta, que o socorreu, levou-o para o posto de saúde da Vila Kennedy. "Estava com os olhos grandes, de cílios longos, entreabertos. Mas não havia mais o que fazer. Estava morto" - conta a repórter Maria Elisa Alves, do Globo, num relato publicado nesta quarta-feira de cinzas, quando só então o fato foi divulgado:

- O corpo de Alex, coberto de hematomas, era um mapa dos horrores que ele vinha passando. O laudo do Instituto Médico 

Legal descreve em muitas linhas todo o sofrimento: a criança tinha escoriações nos joelhos, cotovelos, perto do ouvido esquerdo, no tórax, na região cervical; apresentava também equimoses na face, no tórax, no supercílio direito, no deltoide, punho esquerdo, braço e antebraços direitos, além de edemas no punho direito e na coxa direita. A legista Áurea Torres também atestou que o corpo magricelo apresentava sinais de desnutrição.

A cena do menino no caixão branco, de blusinha listrada, foi tão forte - conta Elisa - que levou pessoas de quatro velórios que eram realizados ao lado a sair de suas capelas para abraçar a mãe.

Fipilhopó daputapa

Preso, o pai confessou à polícia que ficava enfurecido porque o bailarinozinho apanhava sem chorar, evidenciando que a lição "não estava sendo suficiente e que, por isso, batia mais e mais”. Uma sobrinha do assassino, ouvida por Elisa, confirma que ele era homofóbico, "cismado com essa coisa de homossexual" e rejeitava também outro filho, mais velho, por achar que não era suficientemente macho.

Muitos pais ficariam exultantes e orgulhosos se tivessem um filho com a doçura, a sensibilidade e o dom do bailarinozinho, capaz de participar das tarefas domésticas, de dançar e cantar. Um preconceito infame, porém, levou um energúmeno a se sentir 

infeliz e a acabar com a vida de uma criança indefesa, causando mais infelicidade para ele próprio e para os que o cercam. Nem o presidente da Uganda foi tão longe, quando barbarizou, sancionando lei que pune os gays com prisão perpétua. Alex André puniu com a pena de morte quem sequer, com oito aninhos, ainda não havia afirmado o direito à sua sexualidade.

Se Alex André não nasceu com a cabeça cheia de preconceito, a pergunta que se impõe é: quem foi que colocou tanta merda lá dentro?

Em entrevista há pouco mais de três anos, o deputado Jair Bolsonaro aconselhou, neste caso, os pais a surrarem seus filhos: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho leva um couro, ele muda o comportamento dele. Tem muita gente que diz: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”. Para ele, homossexualismo é uma doença que só se cura com porrada. Ninguém sabe se Bolsonaro apanhou muito, se fala por experiência própria, se espancou algum de seus quatro filhos homens. Mas ele conseguiu vender seu peixe para muitos incautos.

O resultado está aí: uma vida brutalmente ceifada e outras vidas destruídas. Quem vai agora ensinar o fipilhopó daputapa do ex-presidiario, ele sim, a "andar como homem", a resgatar sua humanidade?

 P.S. - Charge do companheiro de tantas viagens, Fernando Assaz Atroz, publicado no assazatroz.blogspot.com.br

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24 Comentário(s)

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Ângela Aparecida Teodoro Ruperes (Portal Cultura em Movimento) comentou:
15/03/2014
É lamentável que atitudes irracionais como esta, tire a vida de uma criança indefesa que se quer teve tempo suficiente para fazer suas escolhas. E com um agravante! o autor desse crime bárbaro, se diz ser seu "pai."
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Mayara Santos (Portal Cultura em Movimento) comentou:
14/03/2014
Podemos ver que este pai só pensava nele mesmo e na sua própria opinião. E nunca levou em consideração o sentimento do filho e suas vontades e sonhos. Engraçado que é tão comum homem gostar de dança, arte e cultura. E mesmo assim ainda prevalece essa visão machista e ignorante. Muito triste ver uma história que acabou assim.
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Simone Gomes Firmino (Portal Cultura em Movimento) comentou:
12/03/2014
Realmente é uma pena ainda termos que recebermos esse tipo de notícia. A barbárie humana é inesgotável e o preconceito cada vez mais enrustido naqueles que se passam por seres racionais. Não tenho dúvida, de que esse ódio homofóbico, não apenas desse assassino, mas o ódio homofóbico em geral é devido ao fato de essas pessoas não conseguirem lhe dar com sua própria condição fisiológica sexual, ou seja, são pessoas enrustidas que, por não conseguirem assumir sua verdadeira sexualidade, agridem aqueles que não são covardes a ponto de se esconderem atrás da violência, intolerância, ignorância e ódio, como este assassino fez.
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SERGIO SOUTO comentou:
12/03/2014
Grande Babá, que maravilha de crônica! Que esse filho da puta do Alex André pague dobrado o que fez com seu filho "bailarinozinho". Ele agora vai poder dançar em paz com os anjos! Abração amigo! Contato de SERGIO SOUTO
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Almir Vieira comentou:
11/03/2014
Selvagem...Bestial...Não se pode chamar esse elemento depai...Um pai cuida...um pai ama...incondicionalmente...Um pai morre pelo filho...não mata um filho..
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Denise Teixeira comentou:
11/03/2014
Acredito que esse pai enxergava seu espelho no filho. Talvez ele gostaria de ser como essa criança talentosa e foi banido desse direito, então resolve matar o filho por não poder feito isso quando criança.Esse ser é um assassino , que deve ser tratado como merece dentro de uma penitenciária.Esse ser é um demente, ridículo,assassino, indecente...ele é tudo de mal, menos pai!Com certeza esse anjo está no paraíso, e como a vida continua ele dançara para Deus e para os anjos.Fique em paz
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Susana Grillo comentou:
10/03/2014
Bessa, que horror, que crueldade com uma criança tão indefesa ... é muito triste
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Daniele Lopes comentou:
10/03/2014
Bessa estou chocada, esse monstro tem que receber o dobro das chibatadas que ele deu no filho, filho esse que não via esse crápula como devia ser um "pai".
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BOSCO BEZERRA comentou:
10/03/2014
ESSE FILHA PUTA VAI SE ARREPENDER E EH PROVAVEL QUE ELE NA PRISAO SERA ENRABADO PELOS SEUS COLEGAS DE CELA Contato de BOSCO BEZERRA
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Paula comentou:
10/03/2014
Leitura que dói, mas leitura necessária. Parabéns pela escolha do tema, professor Bessa. Contato de Paula
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victoria regina comentou:
09/03/2014
É o preconceito puro, o pai prefere ter um filho traficante como ja ouvi, do que ter um com dom para a dança.Lastmável.
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R.Costinha (Blog Amazonia) comentou:
09/03/2014
Não tem como não se emocionar com o relato desta bestialidade cometida contra uma pobre,inocente e guerreira criança.Fica muito difícil sentir algo de bom neste relato,a não ser a luta deste pequeno guerreiro que mesmo com todas atrocidades cometidas contra ele,resistiu a seu desejo com a bravura e determinação, sentimentos estes,que esta ' besta' chamada de pai jamais sentirá em sua vida medíocre porque são sentimentos reservados aos heróis!
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José Lemos da Silva Filho (Blog Amazonia) comentou:
09/03/2014
As causas da barbaridade são muitas. Uma, certamente, é a propaganda criminosa de deputados doentes que, por deficiência intelectual, usam o preconceito como bandeira. Essas lideranças tem palanque, verba nossa e influência para criar monstros como aquele pai.
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Mariana comentou:
09/03/2014
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Alberto Santoro comentou:
09/03/2014
É realmente algo inacreditável. Vivendo no século XXI com essas coisas. Esse homem é um monstro!
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Yara Clin (via FB) comentou:
09/03/2014
ADOREI! desde o título até o fim . Muito obrigada ficarei freguesa e até vou aderir tudojunto o taquiprati.
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Luiza Linhares comentou:
09/03/2014
Ótima crônica! O menino lindo perdeu a vida por um preconceito bobo.
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Tereza Ydalgo (via FB) comentou:
09/03/2014
Muito boa, Bessa! Texto importante para nós que criamos filhos e netos. Tantas mães e irmãs impotentes diante de tanto sofrimento caladas, permissivas. Para pensar.
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Ana Stanislaw comentou:
09/03/2014
Quanta crueldade! Texto sensível, emotivo. Parabéns, Bessa!
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Regina comentou:
08/03/2014
Bessa, um dos textos mais sensíveis e relevantes q ja li. Muitos aplausos. Compartilhei no facebbok.
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Leila Nunes comentou:
08/03/2014
Ribamar gosto de ler suas crônicas. Mas esta especialmente me sensibilizou mto! Conheço Mossoró e já dei aulas em Vila Kennedy! Um abraco, Leila Nunes
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Evelyn comentou:
08/03/2014
Bessa como sempre, você acerta na mosca. O seu texto é pleno. Parabéns. Infelizmente o tema é de uma tristeza profunda. Contato de Evelyn
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Sergio Silva comentou:
08/03/2014
Barbarie moderna!! A homofobia e toda sorte de preconceitos que as pessoas mantém pela fraqueza de carater e e personalidade podiam ser neutraizados pelo reconhecimento do outro. Esse como que é alguém que tem e merece respeito como todos.
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Eliane Potiguara comentou:
08/03/2014
excelente crônica, mostra o verdadeiro lado da intolerância.
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