CRÔNICAS

TODO PREFEITO É WANDERNILSON

Em: 13 de Outubro de 2013 Visualizações: 8272

O assalto vai acontecer daqui a pouco, alguns parágrafos abaixo. Ele é tão inevitável como a chegada do dia e da noite. E vai acontecer, com certeza, porque a onda de assaltos já faz parte da rotina do ônibus da Linha 388 Carioca-Santa Cruz, da Viação Algarve, que atravessa diariamente, em frequentes viagens, a Zona Oeste do Rio, num trajeto de mais de 40 kms. Os assaltos, absolutamente previsíveis, acontecem um dia sim e outro também. O inusitado, porém, é que, desta vez, um aluno vai assaltar sua professora. Aproveito o Dia do Professor para contar tudo.
Por enquanto, acompanhemos Alice, 55 anos, até o terminal. São três da tarde, ela embarca no ônibus, como faz habitualmente e, naquela hora, consegue assento num banco de trás. O busão percorre ruas do centro, sacolejando, cata um passageiro aqui, outro ali e, quase lotado, entra na Avenida Brasil. Na Zona Portuária, no ponto do Cemitério do Caju, sobem dois jovens menores de idade, um com corte moicano no cabelo, o outro, sem os dentes superiores, com a "comissão de frente" avariada.
Na parada seguinte, em Manguinhos, entram mais pessoas, entre elas um rapaz com tênis, bermuda cáqui, camisa xadrez e boné azul cuja aba dobrada para baixo meio-que esconde seu rosto. Na altura do Hospital de Bonsucesso, ele assume o comando da operação, aponta a arma para o motorista - uma pistola calibre 40 - e anuncia o assalto com o ônibus em movimento, enquanto lá atrás o Moicano ameaça o cobrador com outra arma. Está tudo ensaiado, sincronizado, dominado.
A uva do Ivo
Momentos de pânico. Uma gordinha sentada na janela começa a gritar, acordando seu vizinho que cochilava. O assaltante De Boné, lá na frente, sem tirar o olho do motorista, ordena que o Desdentado, no meio do ônibus, dê uma porrada na gordinha, que leva um tabefe e engole o choro. Ele avisa que se reagirem joga gasolina no ônibus, toca fogo e mata todo mundo.
- De onde eu conheço essa voz? - se pergunta Alice, aterrorizada, diminuindo de tamanho como se tivesse caído na toca do coelho. Os assaltantes estão nervosos, um deles com a arma engatilhada, faz pressão, ameaça, barbariza. Enquanto a gordinha disfarça o soluço contido, o Desdentado desliza pelo corredor do ônibus com uma sacola, prospecta bolsas e mochilas dos passageiros recolhendo pertences: dinheiro, celulares, smart phone, relógios, aliança, cordão, todo tipo de joia e até um notebook.
- Atira naquele que esconder alguma coisa - ordena o De Boné e, uma vez mais, Alice desconfia que aquela voz lhe era familiar.
O ônibus segue acelerado, sem parar. Deixa para trás Penha, Irajá, Parada de Lucas e Vigário Geral, ultrapassa o  Trevo das Margaridas, Coelho Neto, Guadalupe e Ricardo de Albuquerque. A viagem dura uma eternidade. Quando avalia que não há nada mais a roubar, De Boné levanta a aba e dá ordem pro motorista parar próximo ao Morro do Mata Quatro. É aí que Alice, vendo a cara do assaltante, dá um grito lancinante, que ecoa dentro do ônibus e se propaga pela Avenida Brasil, do Caju até Itaguaí:
- Wanderniiiiiiilson!
O Ivo, enfim, viu a uva! A professora, agora aposentada, reconhece seu ex-aluno do turno da noite, que havia aprendido a ler com ela numa classe de alfabetização da Escola Municipal Nova Holanda, no Complexo da Maré, o maior agrupamento de favelas do Rio, localizado na Zona Norte. Seu grito é lido pelo ex-aluno como uma censura, como se ela dissesse: - Não, não pode ser! Você não, Wanderniiiilson! Qualquer outro, mas você não! Não diga que meu trabalho foi inútil, Wanderniiiiilson!
Na troca de olhares, Wandernilson reconhece a mestra, provavelmente a única pessoa, além da mãe, que o chamava pelo nome de batismo e que lhe havia dado, com as letras, alguma migalha de atenção e de afeto. Ela conservava a moral e a autoridade de mãe, que uma boa professora sempre tem, capaz de derrotar as armas. ‘Pereba’, assim ele era conhecido, envergonhado, ordenou a seus parceiros:
- Sujou! Sujou! Devolve tudo.
Escola do Amanhã
O ônibus prossegue sua viagem, passando por Deodoro e Magalhães Bastos, enquanto os assaltantes vão devolvendo os pertences subtraídos, numa operação demorada que exige a identificação de cada passageiro:
 - De quem é esse relógio? Quantos reais a senhora tinha? E esse celular?
Concluída a restituição, Wandernilson, o Pereba, bastante constrangido, pede desculpas à sua mestra e - alô, alô, professora, aquele abraço! - desce na altura de Realengo, provavelmente para atacar outro ônibus. Os passageiros, alguns dos quais já haviam sido assaltados várias vezes, aplaudem a mestra.
Alice, mesmo aposentada, atuou no projeto Escola do Amanhã, cujo objetivo é reduzir a evasão das escolas da rede municipal localizadas em áreas de extrema violência. Acompanhou ainda o funcionamento da biblioteca popular Lima Barreto, em Nova Holanda, na Maré, que abriu um espaço dedicado às crianças, como se estivesse no País das Maravilhas. Por isso, decidiu cursar Biblioteconomia na UNIRIO, onde foi minha aluna de Comunicação, quando narrou em sala de aula esse fato.
As manifestações de professores, as condicões de trabalho e os salários aviltantes da categoria me fazem pensar que todo prefeito é Wandernilson. É e não é. É porque ao longo do mandato, prefeitos e governadores assaltam seus ex-mestres. Mas não é, porque quando em suas assembleias os professores gritam: - Wandernilson! - o poder público raramente volta atrás, não manifesta o mesmo respeito que o assaltante demonstrou à sua professora. Neste caso, o assalto continua, porque falta aos poderosos a grandeza de um Wandernilson. São mesquinhos.
Lembrei-me da Alice - embora agorinha não tenho mais a certeza de que se chamava Alice - quando vi a foto da professora de matemática Virginia Azambuja que protestava contra o prefeito do Rio Eduardo Paes nesta quinta-feira, ao lado de milhares de colegas. Na barreira policial, ela encontrou seu ex-aluno, o PM Ronny Pessanha. Os dois se abraçaram. Que esse abraço se traduza em mais diálogo.
P.S.1 Wandernilson é com W e não com V - me advertiu Alice, quando relatei aqui o fato pela primeira vez, sem tantos detalhes. (Odeio a escola - http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=116). Fica aqui a correção.
P.S.2 - Alguns estão vivos, outros já se foram. Orígenes Martins, Carlos Eduardo Gonçalves, Mercedes Ponce de León, José Braga, Hilda Tribuzzi,  Isis Falcone, Garcitylzo Silva e tantos outros professores do curso pedagógico do velho IEA - Instituto de Educação do Amazonas, o Wandernilson aqui vos agradece por tudo neste Dia do Professor. Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui fazendo malabarismo com palavras, graças a vocês, que me transmitiram o amor pela sala de aula.
 
P.S. Ver também http://www.taquiprati.com.br/cronica/116-eu-odeio-a-escola

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27 Comentário(s)

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fábio comentou:
23/10/2013
Casa, comida e roupa lavada para os professores. Não é Wandernilson !?
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Conceição Campos (facebook) comentou:
22/10/2013
Segue abaixo minha homenagem aos bons professores que tive e que, fundamentais na minha vida, estão aqui representados nas palavras de José Bessa, um craque na profissão de botar a gente pra pensar. A crônica é deliciosa.
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elias silva comentou:
19/10/2013
nada a declarar, a nao ser somente parabens por esta parabola..
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Fabrícia comentou:
17/10/2013
Parabéns pelo dia do mestre, Bessa! Obrigada por transmitir sua experiência, seja nas crônicas ou em sala de aula. Contato de Fabrícia
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Camilla Oliveira comentou:
16/10/2013
Obrigada professor! Isto nos mostra que a educação realmente muda a história do mundo, em qualquer parte dele.
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Mayara Manhães comentou:
15/10/2013
Caro mestre, espero poder reencontrá-lo, mas numa situação bem diferente desta! Obrigada por essa oportunidade de reflexão. Parabéns!!
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JANE comentou:
15/10/2013
JÁ HAVIA LIDO ESTE TEXTO, PORÉM TODA VEZ QUE LEIO FICO MUITO EMOCIONADA, É PARA REFLETIR, UMA OMENAGEM GRANDIOSA DA IMPORTÂNCIA DO PAPEL DO PROFESSOR!
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Edmere Pinto Quitete comentou:
15/10/2013
Educaçäo e amor juntos. Vale a pena. Parabéns, Professora!
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Edelson Rocha comentou:
14/10/2013
O pouco que os gestores públicos tem de Wandernilson é o pouco que os fazem seres sociais: pais, maridos, filhos, primos e cunhados. Mas lhes falta muito para reconhecerem a importância da educação, ainda mais num país como o nosso que pretende ser grande, trilhar seu futuro. Falta-lhes grandeza e humildade para reconhecerem a importância de bem gerir a coisa pública, como merece ser tratada, mas não nessa relação promíscua que fazem com os interesses privados. Sim, estão longe de ser um Wandernilson, de reconhecerem suas tias e professoras, de tratarem o educador como merecem. Sem falar...bem teríamos muitas outras histórias a serem contadas. Fica para uma próxima. Atenciosamente, prof. Edelson Rocha, de história, do Colégio Pedro Segundo, da Rede Municipal de Angra dos Reis e da Rede Privada da cidadevdo Rio de Janeiro.
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Julio Melo comentou:
14/10/2013
Muito boa a história, Mestre. Pena que cenas como essa (sem o específico desfecho) aconteça todos os dias nas ruas do Rio de Janeiro. Parabéns pelo seu dia. Contato de Julio Melo
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Silvia comentou:
14/10/2013
Sou professora do município. Estou em greve desde o início deste movimento. Fiquei emocionada com o seu texto. Parabéns!
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Vânia Santos comentou:
14/10/2013
Muito emocionante essa homenagem aos professores. Belo e maravilhoso respeito do aluno assaltante, atitude que os nossos governantes não tiveram mesmo com mais estudos q esse assaltante. Parabéns prof Bessa!
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Ivone Barros da Sila comentou:
14/10/2013
Linda crônica! Muito real! Só tenho uma retificação a fazer. A professora que encontrou o policial na barreira, é professora do estado e neste dia estava fazendo passeata até o palácio Laranjeiras, onde o Sepe iria tentar, mais uma vez, abrir as negociações com o governador Sérgio Cabral. Portanto, ela fazia, naquele exato momento, protesto contra o senhor Sérgio Cabral. A princípio a passeata daria prosseguimento até o palácio da cidade, onde fica o prefeito Eduardo Paes, entretanto, não conseguiu nem chegar ao palácio Laranjeiras, porque o governador sitiou a rua Pinheiro Machado, fechando o túnel Santa Bárbara e o viaduto que liga Botafogo à referida rua, colocando policiais para fazer barreiras na altura do estádio do Fluminense e carros de polícia guardando a entrada, na altura do prédio onde funcionava a Universidade Santa. Moradores ou quem ia à clínica localizada dentro do perímetro que guardava o governador, protegendo-o dos profissionais de educação, tinham que pedir autorização aos policiais que consultavam seus superiores. Vivemos num Rio com lei sem lei.
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Tatiana Piccardi comentou:
14/10/2013
Claro que a crônica é bonita, sensível, tem crítica e tem esperança ao mesmo tempo... mas tem duas coisas que não gosto muito, porque acho que não têm ajudado muito (ou tem ajudado apenas o professor a se manter na rede de escolas públicas dos bairros mais complicados...): (1) ainda a crença de que o professor dedicado pode, sozinho, reverter processos sócio-econômicos que estão longe de depender só dele e da escola; e (2) a crença de que se o poder público não "assaltasse" o salário dos professores e a verba para a educação, as coisas seriam melhores... A primeira crença é evidentemente falsa. A segunda por um lado afirma algo incontestável: falta salário e verba para a educação. Mas traz pressuposta a mesma crença anterior: a de que a educação é salvadora. Não é. A educação só funciona se os alunos tiverem pais empregados e ao mesmo tempo com algum tempo para os filhos, família minimamente estruturada, saúde (drogas longe!!), comida na mesa, etc etc etc. Acho que nós professores ainda alimentamos essa vocação salvadora. Claro que é preciso dar tudo de nós, fazer o melhor, mas o espanto da professora Alice está, no mínimo, fora de contexto. Abraços e FELIZ DIA DOS PROFESSORES!! Tatiana
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gerusa pontes de moura comentou:
14/10/2013
Pois é, me emocionei muito ao ver a menina Malala enfrentar um mundo cruel por pedir educação, escolhi a EDUCAÇÃO pois também sei que é ela que faz transformar, um grande abraço ao Senhor pelo Mestre que tem sido e continue nos mandando coisas lindas que só nos faz bem.
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Rossana comentou:
13/10/2013
É uma crônica maravilhosa, divertida e espelha muito desta relação incrível que se estabelece entre professores e alunos. Bjs, Rossana.
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Marcia comentou:
13/10/2013
Emocionante, ZB! Eu me lembrei dos meu meninos.
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Edilene Lima (via FB) comentou:
13/10/2013
Uma beleza de homenagem aos professores. Lembro da Rita sempre, da minha segunda série, no Jomap.
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Daniele Lopes comentou:
13/10/2013
O mundo dá voltas. O trabalho do mestre é digno de valor.
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Suely Carvalho (Blog Amazonia) comentou:
13/10/2013
Muito bom o texto,eu enquanto professora e como tal sou sonhadora, acredito que a educação ainda é a saída para essa sociedade corrompida e doente.
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Thiago Eugenio comentou:
12/10/2013
Uma boa leitura reflexiva para o dia dos professores...
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Paulo Apurinã comentou:
12/10/2013
Parabéns Mestre pelo seu dia!
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Ana Silva comentou:
12/10/2013
Linda homenagem aos professores, mestre Bessa! Você também me ensinou a amar a sala de aulae, principalmente os povos indígenas! Obrigada e parabéns pelo dia dos mestres.
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Anne-Marie comentou:
12/10/2013
Genial, como sempre, Bessa. É isso mesmo: os Wandernilsons da vida, aqueles que não tiveram direito a uma escola que os leve "para outro lugar", aprenderam, mesmo assim, com professoras como a Alice, lições que nossos políticos supostamente educados "nos melhores colégios" nunca poderão entender.
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weber@globo.com comentou:
12/10/2013
Hilariante, mas triste, bem triste.
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Jane Motta (via FB) comentou:
12/10/2013
Maravilhoso prof Bessa, emocionou-me muito, lembrou-me que tudo vale a pena se a alma não for pequena. gde abraço e parabéns pelo seu dia
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Lene comentou:
12/10/2013
Uma bela homenagem aos Mestres! E um momento para refletirmos vários aspectos da educação...inclusive a profundidade da palavra MESTRE! Parabéns Bessa!
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