PRODUÇÃO ACADÊMICA

Os Guarani e a memória oral: a canoa do tempo (Curitiba, SEED, 2006)

Em: 09 de Março de 2010

Autor: JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE
Local da Publicação: CURITIBA. SEED/PR. 2006, PGS.38-43

 

in Secretaria de Estado da Educação do Paraná. CADERNOS TEMÁTICOS - EDUCAÇÃO ESCOLAR INDIGENA. Curitiba. SEED. 2006. 86 pgs.

 

 

OS GUARANI E A MEMÓRIA ORAL: A CANOA DO TEMPO

                                                                José Ribamar Bessa Freire


No ano de 1985, em fevereiro, aconteceu um acidente muito grave em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, perto da aldeia guarani de Sapukai. Choveu muito e as águas pluviais provocaram deslizamentos de terras das encostas da Serra do Mar, destruindo o Laboratório de Radioecologia da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, construída em 1970 num lugar que os índios Tupinambá, há mais de 500 anos, chamavam de Itaorna. O prejuízo foi calculado na época em 8 bilhões de cruzeiros.

Os engenheiros responsáveis pela construção da usina nuclear não sabiam que o nome dado pelos índios continha informação sobre a estrutura do solo, minado pelas águas da chuva. Só descobriram que Itaorna, em língua tupinambá, quer dizer pedra podre, depois do acidente, que talvez pudesse ter sido evitado, se o conhecimento dos índios fosse levado a sério. 

A mandioca foi domesticada pelos índios do alto Amazonas há quatro mil anos, segundo os arqueólogos. (2) De lá para cá, os índios fizeram experimentos e inventaram muitos tipos de mandioca, enriquecendo a espécie. Só na região do rio Negro (AM), entre os índios Tukano, foram encontradas 137 espécies diferentes. A preservação, as técnicas de cultivo e a forma de extrair o veneno da mandioca vêm sendo transmitidas eficazmente pelos horticultores indígenas através da tradição oral.(3)

Esses dois acontecimentos mostram que houve a quebra de elos na cadeia de transmissão oral de conhecimentos, prejudicando a memória. Por causa disso, a sociedade brasileira deixou de se apropriar de um saber milenar, útil para a sua sobrevivência, pois a escrita não substituiu, nesses casos, as funções de registro e de memória. Afinal, qual é a importância da tradição oral para a memória dos povos indígenas e dos brasileiros?

Os senhores da memória

Sem memória coletiva, os homens não podem sobreviver. A memória ajuda a sociedade a se organizar, permite conhecer o passado e constitui elemento importante da identidade, individual ou coletiva. Ela orienta o destino dos povos. Por isso, em algumas sociedades, quem controla a memória - os senhores da memória - detém o poder.

As sociedades criaram, ao longo da história, instituições e mecanismos para preservar a memória coletiva. O historiador francês Jacques Le Goff, que estudou este processo, encontrou cinco tipos de memória, com formas diferentes de conservação e de transmissão:

1.      A memória oral, que ele chama também de memória étnica, presente nas sociedades sem escrita.

2.      A memória de transição da oralidade à escrita, correspondendo classicamente ao período da Pré-História à Antiguidade.

3.      A memória medieval, onde se dá um equilíbrio entre o oral e o escrito.

4.      A memória escrita, com a invenção da imprensa, a mecanização e seus progressos, do século XVI aos nossos dias.

5.      A memória eletrônica, atual, que através da informática sistematiza e agiliza o acesso às fontes de informação (4).

Existem muitas diferenças entre as culturas orais, como as sociedades indígenas, e a sociedade juruá, onde predomina a escrita. No entanto, há uma equivalência de tais sociedades no sentido de que ambas possuem uma memória institucionalizada. Uma não é melhor do que a outra.

Se um professor bilíngüe guarani quiser pesquisar e conhecer a história de seu povo, ele deve procurar, em primeiro lugar, as fontes orais, os conhecimentos dos velhos, dos karai, que são livros vivos. Depois, ele deve combinar esses conhecimentos com os documentos escritos que estão nos arquivos. Foi o que fizeram os participantes do Curso de Formação para Professores Indígenas Guarani das regiões Sul e Sudeste, realizado desde 2003 em Santa Catarina. Eles entrevistaram os velhos de suas aldeias para usar esses conhecimentos nas escolas bilingües.

Um dos entrevistados, em janeiro de 2004, foi o karai Alexandre Acosta, 60 anos, da aldeia Jataity, Canta Galo, RS. Ele nasceu em Manguerinha e passou por várias aldeias, entre as quais a aldeia Tamanduá, na Argentina. Contou para o professor Marcos Moreira como plantava e colhia o milho guarani e como levava o milho para a Opy, para o Nhemongarai. Falou como era a vida dos guarani, antigamente, e como mudavam de um lugar para outro. Contou sobre as cerimônias, a reza, o canto e a dança dentro da Opy. Ensinou como os guarani curavam a doença e como eram tratados os rios e as matas. Ele disse:

- “Nós respeitamos a mata porque é dali que retiramos a lenha. Os rios também eram tratados com respeito. Antigamente não bebíamos água só nas nascentes, bebíamos também nas correntezas. Onde era encontrado um rio, a gente limpava um lugar para as crianças tomarem banho e perto da nascente ninguém podia ocupar aquela água. O rio também é um remédio para nós porque fornece a água para preparar os remédios com as ervas medicinais que tomamos, para fazer comida. A água era tratada com mais respeito. Quando era tarde não mexíamos na água, porque ela está descansando. A água não pode ser usada de qualquer forma. Água é remédio. A água é o que nos salva também”.

Sobre a terra, o karai Alexandre Acosta disse:

- “Esta terra que pisamos é o nosso irmão. Por isso que a terra tem algumas condições e por isso que o Guarani respeita a terra, que é também um Guarani. Por isso que o Guarani não polui a água, pois é o sangue de um Karaí. Esta terra tem vida, só que nós não sabemos. É uma pessoa, tem alma – é o Karaí. A mata, por exemplo, quando um Guarani vai cortar uma árvore pede licença, pois sabe que é uma pessoa que se transformou neste mundo. Esta terra aqui é nosso parente, mas uma pessoa acima de nós. Por isso falamos para as crianças não brincar com a terra, porque ela foi um Karaí e até hoje ele se movimenta, só que nós não percebemos. Por isso quando os parentes morrem, a carne e o corpo se misturam com a terra. Por isso que temos que respeitar esta terra e este mundo que a gente vive. Foi assim que eu aprendi e sei como este mundo foi feito”. (5)


Os conhecimentos dos guarani sempre foram transmitidos oralmente, ao contrário dos índios astecas e maias, do México e da Guatemala, que tinham escrita. Todas as sociedades indígenas que habitavam no século XVI o território que hoje é o Brasil, eram sociedades ágrafas, isto é, sem escrita, onde os conhecimentos e experiências de cada povo eram armazenados na memória humana e transmitidos de uma geração a outra pela tradição oral.  

Em pelo menos um grupo indígena da Amazônia se conhecem outros recursos que foram utilizados, além da memória oral. Os Sateré-Mawé, de língua tupi, distribuídos por mais de trinta povoados dos rios do baixo-Amazonas, preservam com muito cuidado três exemplares do Porantim - uma clava em forma de remo, trabalhadas em pau-ferro, onde estão gravados desenhos e figuras que representam simbolicamente um conjunto de mitos e histórias, com informações sobre as origens da tribo. Os desenhos do Porantim têm valor mnemônico, isto é, ajudam a memória, da mesma forma que as figuras em objetos de artesanato de muitos grupos. Até hoje alguns velhos são capazes de ler o seu conteúdo. "No Porantim está escrito como se formou o mundo, o guaraná e a mandioca. É a nossa Bíblia. ", diz o taxaua Emílio (6).

Durante muito tempo, os juruá que pesquisavam a história, achavam que os povos de memória oral eram "povos sem história" ou povos pré-históricos, que não dominavam a escrita, não detinham o saber e, por isso, não tinham memória. Eles achavam que a tradição oral não era digna de credibilidade. Diziam que sem fontes escritas, não há história, não há saber. Mas agora isso está mudando, porque os juruá descobriram que os povos indígenas não eram carentes de escrita. Eram independentes da escrita.

A tradição oral


Um pesquisador juruá, o antropólogo Franz Boas, descobriu que a tradição oral era como se fosse a "autobiografia da tribo", um recurso e uma técnica para transmitir sua cultura e a sua história, os mitos, contos, sistema de crenças, histórias e outros relatos. Outro pesquisador, Jan Vansina, disse que a tradição oral é "tudo aquilo que é transmitido pela boca e pela memória”, ou “um testemunho transmitido oralmente de uma geração a outra" (7).

 Esses pesquisadores falaram que está havendo um processo de valorização da tradição oral feita não só nas sociedades indígenas, mas também naquelas que têm uma longa e forte tradição literária, de escrita, porque nada prova que a escrita registra a realidade de forma mais fiel do que o testemunho oral transmitido de geração à geração.

 "Se tradição oral e memória significassem fantasia e fragilidade perpétuas - escreve Henri Moniot – não seria possível que sociedades sem escrita tenham conseguido realizações políticas e culturais, algumas vezes complexas, extensas e duráveis" (8) 

 Ele tem razão. Basta ver as línguas dos povos da floresta amazônica e as formas como domesticaram a mandioca e como até hoje processam a extração de seus derivados, mediante uma tecnologia sofisticada milenar que tem que lidar com um veneno poderosíssimo. Isso mostra que estas sociedades orais têm uma prática de produção de conhecimento, testam hipóteses através de experimentos genéticos, plantam e selecionam sementes, realizam observações rigorosas e classificam o mundo natural de uma maneira tão complexa como a taxonomia de um biólogo universitário, conforme demonstram recentes estudos na área de etnobiologia.(9)

 As pesquisas que incorporaram a tradição oral como fonte, realizadas nas três últimas décadas, vêm demonstrando que os julgamentos sobre as culturas ágrafas, consideradas como incapazes de construir o pensamento abstrato, são preconceitos que não fazem diferença entre o saber e a escrita, quando sabemos que "a escrita é uma coisa, e o saber outra. A escrita é apenas uma fotografia do saber, mas não o saber em si".(10)

 Por isso, na África, os pesquisadores realizaram campanhas de coleta da tradição oral e criaram centros regionais de documentação oral. Em vários países da América de colonização espanhola como o México, o Peru, a Guatemala, a Bolívia, o Equador e a Venezuela, os avanços da pesquisa histórica, que usa a tradição oral como fonte, tem apresentado resultados surpreendentes e reveladores não apenas da memória indígena, mas da própria identidade nacional.

 No Brasil, as universidades e os centros de pesquisa começam a prestar atenção para essa questão. Os índios também. Existem algumas iniciativas como o Museu Maguta, no Alto Solimões (AM), criado com o objetivo de preservar a cultura Tukuna, da mesma forma que a proposta de criação de Centro de Tradição Oral dos Povos Tukano, no rio Negro (AM). Os professores guarani das regiões Sul e Sudeste também estão registrando a fala dos velhos. Após a publicação do mito desana, três índios Tukano, no rio Papuri, munidos de gravadores, passaram a registrar os mitos que alguns velhos ainda recordam, segundo informações da antropóloga Berta Ribeiro (11).

 A canoa do tempo

 A ignorância, o despreparo e até mesmo o desprezo mantido em relação às línguas e cultura indígenas tem impedido que a atual sociedade brasileira aprenda com o saber indígena, transmitido de uma geração a outra através da tradição oral. O preconceito não nos tem permitido aproveitar dessa herança cultural acumulada durante milênios. É um especialista em biologia, citado pelo antropólogo francês Lévi-Strauss em O Pensamento Selvagem, que chama a atenção para o fato de que muitos erros e confusões poderiam ter sido evitados – alguns dos quais só muito recentemente retificados – se o colonizador tivesse confiado no saber indígena e nas taxonomias indígenas em lugar de improvisar outras não tão adequadas.

 O desaparecimento nos últimos quinhentos anos de mais de mil línguas indígenas no Brasil significou uma queima de arquivo, um apagamento da memória, cujos estragos podem ser ainda minimizados. Como observa Darell Posey, “com a extinção de cada grupo indígena, o mundo perde milhares de anos de conhecimento sobre a vida e a adaptação a ecossistemas tropicais”(12).

 Mas existe ainda o saber armazenado na memória que continua circulando ainda hoje, de pai para filho, através da tradição oral veiculada na maioria das 180 línguas indígenas que existem atualmente. O conhecimento que delas temos é ainda muito pequeno, mas sua importância para a história pode ser medida pela fala de um índio Wapixana num curso de História da Amazônia, ocorrida no mesmo ano da chuva em Itaorna, no Rio de Janeiro, e do envenenamento com mandioca em Porto Alegre.

 Foi em janeiro de 1985. Demos um curso para um grupo de sessenta índios Makuxi, Wapixana, Ingaricó e Taurepang, em Boa Vista, Roraima.  No curso, quase todos eles contaram o que sabiam de sua história desde os primeiros contatos com o branco no século XVIII. Demonstraram ser bons narradores e conhecedores dos fatos, com boa memória. No entanto, o wapixana Clóvis Ambrósio ficou isolado por desconhecer a técnica de narração e os fatos históricos relatados por seus colegas. Educado em Boa Vista com brasileiros, retornou adulto à aldeia. Portanto, não havia aprendido a língua do seu grupo e tinha perdido a possibilidade de se comunicar com os velhos que não falam português. Por isso, sem poder conhecer o saber dos velhos, ele perdeu um pouco da memória. Refletindo com eles sobre esta situação, dissemos que a gente só pode sair de um lugar para o outro, no espaço amazônico, se tivermos uma canoa. Da mesma forma, para sair do tempo presente para o passado, necessitamos da língua. Foi então que o wapixana Clóvis compreendeu com lucidez a importância da língua para sua identidade e sua memória, quando perguntou “Quer dizer que a língua é a canoa do tempo?”.

 Os guarani só podem se deslocar do tempo presente para o passado porque conservam a canoa do tempo, que é a língua guarani.

 Notas Bibliográficas

 1. Agência O Estado de São Paulo: “Famílias famintas comem raiz mortal”. A CRÍTICA, Manaus, 26 de abril de 1985.

2. LATHRAP, Donald W.: “O Alto Amazonas”. Southampton: The Camelot Press Ltd. 1970. (Cap. III – “Cultura da Floresta Tropical”).

3. CHERNELLA, Janet M.: “Os cultivares de mandioca na área do Uaupés (Tukano)” in Suma Etnológica Brasileira. Edição atualizada do Handbook of South América Indians. Coordenação Berta G. Ribeiro. Vol. 1 – Etnobiologia, Petrópolis. Vozes. 1986. p. 151 a 158.

4. LE GOFF, Jacques: “Memória”. Enciclopédia Einaudi. Vol. I. Memória – História. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 11 a 50.

5. ACOSTA, Alexandre. Relato oral feito em entrevista a Marcos Moreira. Aldeia Jataity, Canta Galo – RS. 28 e 30 de janeiro de 2004.

6. BESSA FREIRE, José. “É remo, é clava, é voz de guerreiro”. Revista de Comunicação. Ano 4, no 15 – 1988. Rio de Janeiro: Agora Comunicação Integrada Ltda. p. 30.

7. VANSINA, Jan. “A tradição oral e sua metodologia”. História Geral da África.Vol. I. Metodologia e Pré-História da África. São Paulo: Ática-Unesco, 1980.Vol. 1. p. 160.

8. MONIOT, Henri. “A história dos povos sem história”. in História: novos problemas. 2a edição. RJ: Livraria Francisco Alves Editora, 1979, p. 100

9.RIBEIRO, Berta G. coord.: “Suma Etnológica Brasileira”. Etnobiologia t. 1. Petrópolis: Vozes, 1986.

10. HAMPATÉ BÁ, A. “A tradição viva”. História Geral da África. Vol. I. São Paulo: Ática-Unesco, 1980,  p. 181.

11.  RIBEIRO, Berta G. “Os índios das águas pretas”. SP: Livraria Cultura Editora. 1980.  p. 44.

12. DARREL, Posey. A.: Ëtnobiologia: teoriq e prática". Introdução Suma Etnológica Brasileira. Petrópolis. Vozes. 1986, t. 1