PRODUÇÃO ACADÊMICA

COM JOHN, O SABOR DO ARQUIVO

Em: 28 de Julho de 2013

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA – ANPUH

XXVII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA

Conhecimento histórico e diálogo social

22 a 26 de julho de 2013

Natal - RN

 

Faz mais de vinte anos. Não lembro mais dos detalhes. Só do clima geral das conversas: comentários difusos e esparsos, frases soltas, aqui e ali, que retratavam as atribulações e o cotidiano do historiador nos arquivos. Foi no início dos anos 90. John Monteiro coordenava nacionalmente o projeto Guia de Fontes para a História Indígena e do Indigenismo idealizado por Manuela Carneiro da Cunha. Na época, realizávamos reuniões regulares, pois eu era responsável pela coordenação local no Rio de Janeiro. Na medida em que o trabalho avançava, íamos compartilhando ideias e experiências nas conversas mantidas nesses encontros periódicos.

Certos insights de John Monteiro sobre as dificuldades, mas também sobre o prazer de identificar e indagar as fontes arquivísticas, ofereciam, embora sem qualquer pretensão, pistas para uma espécie de etnografia do arquivo. Lembravam algumas ideias desenvolvidas pela historiadora francesa Arlette Farge, do CNRS, em seu livro Le Goût de l'archive, que então já circulava no Curso de Arquivologia da UNIRIO, no qual eu ministrava uma disciplina. Não lembro mais se foram as conversas que nos remeteram ao livro ou se foi este que acabou pautando nossas conversas. De qualquer forma, olhando retrospectivamente, penso que o título em português do livro que viria a ser editado vinte anos depois, resume bem aquele momento: "O sabor do arquivo" [1], que agora tomo emprestado para essa homenagem ao John, centrada, no caso da minha fala, no making off do Guia de Fontes.

John já trazia uma rica experiência de pesquisa em arquivos nacionais e estrangeiros que em muito contribuiu para que pudesse, de forma eficiente, coordenar nacionalmente o trabalho de 120 pesquisadores espalhados nas capitais brasileiras, quase todos ligados a universidades locais, alguns dos quais se encontram aqui, neste auditório, e que certamente podem contribuir tanto ou mais do que eu com seus depoimentos. Durante mais de dois anos, essas equipes vasculharam aproximadamente 700 conjuntos documentais – fundos, coleções, séries e subséries – de 140 arquivos para identificar e mapear documentação sobre a temática da história indígena e do indigenismo no Brasil.

No Rio de Janeiro, encontramos documentos sobre a temática indígena em 271 conjuntos de 25 grandes arquivos. Essa massa de informação representa um pouco mais de 40% do total nacional, conforme explicitado no Guia de Fontes – Acervos das capitais[2], organizado por John Monteiro, que nos incentivou a organizar uma publicação específica, o que foi feito posteriormente com o livro "Os índios em arquivos do Rio de Janeiro"[3].

O Guia de Fontes era um projeto interinstitucional e interdisciplinar, que contou com recursos da FAPESP e com a colaboração de historiadores, antropólogos, linguistas, especialistas na área de arquivo, de letras e de outros campos do saber. Com uma visão crítica, ele se beneficiou de experiências anteriores, especialmente do Guia de Fontes para a História da África e da Escravidão Negra[4], que havia sido publicado pelo Arquivo Nacional no Centenário da Abolição, mas também, em menor medida, do projeto do Ministério da Cultura Fontes para a História do Brasil Holandês[5], publicado em 1985.

A partir de tais experiências, o formulário de captação de dados e o plano geral da pesquisa sofreram significativas modificações em reuniões com os especialistas do Sistema Nacional de Arquivos (SINAR) e do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP. A publicação do Guia criou as bases para um posterior diálogo com o Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco, coordenado por Esther Caldas Bertoletti, que deu origem a outros guias de fontes para a historia do Brasil em arquivos da Espanha[6], França[7], Holanda[8], no último caso reforçado ainda por outro projeto do Ministério de Negócios Econômicos neerlandês[9].

O ideal seria que a relação entre o coordenador nacional e os coordenadores locais do projeto Guia de Fontes tivesse formatação bastante similar àquela desenvolvida em uma experiência anterior, de menor cobertura geográfica, pelo Projeto de Levantamento de Fontes para a História da Agricultura do Norte-Nordeste: 1850-1950, sob a coordenação geral de Maria Yedda Linhares, então no Curso de Mestrado em Desenvolvimento Agrícola da Fundação Getúlio Vargas, que em muito contribuiu para as pesquisas em história agrária[10]. No período de 1977-1979, ela realizou encontros, a cada dois meses, com a participação de todos os coordenadores locais, entre os quais estava eu incluído como responsável pela equipe do Amazonas; aqueles eram momentos em que compartilhávamos a documentação até ali mapeada e, juntos, discutíamos os problemas, caminhos e descaminhos da pesquisa, além de seus desdobramentos e reorientações.

Mas esse era um mecanismo muito oneroso para o projeto Guia de Fontes que cobria todo o território nacional. A alternativa foi, no lugar dessa reunião bimestral entre todos os coordenadores, organizar encontros do coordenador nacional com cada equipe local. Desta forma, John passou a se deslocar pelo Brasil, mas o número de viagens e seu destino dependiam em grande medida da dimensão dos arquivos locais e dos problemas ali encontrados. No caso do Rio, problemas não faltavam e, talvez por abrigar arquivos de porte nacional e pela proximidade de São Paulo, recebemos inúmeras visitas de John Monteiro nos mais de dois anos de execução do projeto. Em sua companhia entramos, pelo menos uma vez, em cada um dos 25 grandes arquivos trabalhados no Rio.

Esse foi o contexto das nossas conversas nas quais começamos a sentir o sabor do arquivo. Sem que tivesse sido planejado, John passou a cumprir uma função muito similar àquela do personagem do romance de Vargas Llosa "El hablador", no cenário da Amazônia peruana, em região habitada pelos índios Matsiguenga. Dispersos em grupos familiares, em pequenas comunidades muito distantes umas das outras, os Matsiguenga encontraram uma forma eficaz de comunicação. Eles conseguiam se manter coesos e bem informados graças à atividade desse personagem conhecido como "el hablador", cuja missão era caminhar entre aldeias, levando e trazendo notícias, que eram permanentemente atualizadas nessas andanças. No romance de Vargas Llosa, o personagem manifesta a vocação de etnólogo, incorpora a "imaginação antropológica" com os objetivos, métodos e práticas da antropologia e em especial da etnografia.

John, como "el hablador" matsiguenga, levava e trazia noticias e informações que recolhia nessas reuniões locais. Lembro de seu entusiasmo, quando começaram a aparecer documentos inéditos, desconhecidos ou pouco trabalhados, especialmente no Nordeste. Trouxe até nós, no Rio de Janeiro, notícias que depois iriam ser publicadas no Guia, ora da coleção de documentos sobre os sobreviventes da chamada Guerra dos Bárbaros encontrados no Arquivo Publico do Estado do Rio Grande do Norte, ora da documentação sobre o recrutamento de índios para servir na Guerra do Paraguai conservada no Arquivo Público de Alagoas, ora ainda de processos judiciais de Sobral, Crato, Quixeramobim e outras vilas do Ceará encontradas no Arquivo Público daquele Estado. Foi assim que tomamos conhecimento dos registros de terras de aldeias na Serra da Borborema e do uso da força de trabalho indígena em obras públicas no século XIX, guardados no Arquivo Histórico da Paraíba. Foi assim também que ficamos sabendo dos livros manuscritos com informações sobre o processo de desapropriação de terras indígenas pela Companhia da Estrada de Ferro de Recife que fazem parte do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, de Pernambuco.

Foram identificados em quase todas as capitais do Brasil documentos que traziam uma contribuição para "repensar, de forma crítica, tanto o passado quanto o futuro dos povos indígenas" no Brasil, como escreveu John Monteiro na Introdução. Com o levantamento feito, o Guia pretendia subsidiar pesquisas que combatessem a tese do desaparecimento dos índios e a cumplicidade, de certa forma, da historiografia brasileira "na tentativa de erradicar os índios" da memória e da história nacional, além de questionar a "participação inexplicavelmente discreta dos historiadores" nesse processo. John apostava que o mapeamento dessa documentação permitiria, segundo suas próprias palavras, "reescrever capítulos inteiros da história do Brasil, para que este novo conhecimento do passado pudesse lançar uma luz menos pessimista e mais justa sobre o futuro dos povos indígenas". Portanto, não se tratava exclusivamente de refazer a história indígena, mas de repensar toda a narrativa sobre a história do país.

Suspeito que John Monteiro levava também a outros estados as notícias sobre a documentação que íamos encontrando nos arquivos do Rio de Janeiro, especialmente aquela que ele destacou na introdução ao Guia de Fontes: correspondência do sec. XVII dando conta da participação da força de trabalho indígena na construção dos Arcos da Lapa, telegrama em língua bororo enviado ao presidente Vargas, livros de presos do Fundo Policia da Corte do Arquivo Nacional, com registro, no séc. XIX, de uma significativa população indígena que vivia em cortiços nos bairros pobres do Rio de Janeiro. Segundo John, além de algumas dessas curiosidades, percebia-se "a potencialidade fecunda de uma ampla gama de documentos até então inexplorados".

Buscar documentos escritos sobre sociedades ágrafas, que não tinham escrita alfabética, coloca uma série de questões inclusive de ordem epistemológica, que escapam ao objetivo desta fala. No romance de Vargas Llosa, "el hablador" vivenciou a luta sem tréguas travada em território Matsiguenga entre Tasurinchi, o criador do mundo, e os gênios malignos representados por Kientibakori. Construiu, então, um discurso povoado de metamorfoses, narrativas míticas, possessões, cerimônias mágicas, discurso que levava de uma aldeia a outra em plena selva.

Da mesma forma, John foi tecendo um relato quase etnográfico da aventura na selva de papéis, um discurso que buscava compreender as misteriosas relações e a lógica que orienta o funcionamento dos arquivos, as pequenas batalhas cotidianas travadas pelo pesquisador com arquivistas, bibliotecários e outros funcionários, e a compreensão do arquivo como instrumento de poder e de conhecimento, com suas técnicas para manter e ordenar os conjuntos documentais, trabalho feito por especialistas que nem sempre têm consciência das formas de dominação e das relações conflituosas que acabam interferindo no produto final do seu trabalho. É que os responsáveis pela elaboração dos instrumentos de pesquisa que dão acesso aos documentos compartilham a narrativa que exclui os índios da história do Brasil

Nas primeiras visitas que fizemos com John Monteiro aos grandes arquivos do Rio de Janeiro, quando se explicava o objetivo do projeto, quase sempre algum funcionário zeloso respondia: "Lamento. Aqui não temos documentos sobre índios". Era um convite para desistirmos. Foi assim no Arquivo Histórico do Exército (AHE), onde os militares que nos receberam foram muito gentis e prestativos, mas para alguns fundos, totalmente desorganizados, não havia sequer catálogos ou fichários, e em alguns casos apenas uma descrição sumária e lacônica do conteúdo como no fundo "Forças em Operações no Paraná e Santa Catarina (Cmte. Gen. Rondon). O próprio Arquivo do Exército ignorava o conteúdo das 118 caixas daquele conjunto documental. Em decisão conjunta com John, decidimos, então, abrir caixa por caixa, com mais de 600 livros manuscritos ou datilografados, suspeitando que poderíamos localizar nelas documentos sobre índios, tendo como única pista para reforçar a suspeita o nome de Rondon na denominação do Fundo. "Onde tem fumaça, tem fogo" dizia John. Somamos aos seis bolsistas da USP/FAPESP mais seis bolsistas de extensão da UERJ, num total de 12, para dar conta do trabalho. Foi assim que localizamos documentos confidenciais com informações reveladoras sobre a participação e morte de índios em episódios ligados à Coluna Prestes - "tanto no lado dos rebeldes quanto no lado da repressão comandada pelo General Rondon" - o que mereceu destaque na apresentação feita por John no Guia de Fontes.

Ao contrário do Arquivo do Exército que não sabia o que continham suas caixas, permitindo que se instaurasse a dúvida, no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ) foi mais grave ainda, porque lá ninguém duvidava de nada. Só havia certezas. Mais organizado, nos exibiram as provas de que não existia o que buscávamos: os catálogos, inventários e fichários não registravam documentos sobre a temática indígena, que estava praticamente ausente até mesmo do próprio guia do acervo do APERJ. No entanto, alguns conjuntos documentais que já havíamos trabalhado no Arquivo Nacional (AN), onde encontramos correspondência com a Província do Rio de Janeiro, nos davam clara indicação de que o Arquivo Público do Estado (APERJ) tinha que abrigar relatórios, ofícios, cartas circulares, avisos e processos envolvendo índios, mas estes estavam invisibilizados pelos instrumentos que deveriam facilitar o acesso a eles. Decidimos, com John, para o desespero da equipe, que iríamos uma vez mais procurar maço por maço, documento por documento.

O Arquivo Público do Estado funcionava, naquela época, em Niterói, era janeiro, não havia ar condicionado, sequer ventiladores e fazia um calor infernal. Era como procurar agulha num palheiro. Os primeiros dez dias foram decepcionantes. Quando estávamos para desistir, descobrimos escondidas na Coleção Diversos, do Fundo Presidência da Província, caixas contendo a correspondência do Barão de Araruama, diretor geral de Índios em 1846, com informações sobre as 15 aldeias indígenas então existentes no Rio, relação nominal de foreiros e arrendatários de terras indígenas, dados demográficos de algumas aldeias, documentos que não figuravam no catálogo, porque os critérios de sua organização desconsideravam a importância do índio no século XIX para a compreensão da história fluminense. Outra expressiva documentação foi aparecendo conforme consta no Guia.

Esse prazer de encontrar o insistentemente buscado, como no Arquivo Publico do Estado do Rio de Janeiro, só era comparável à alegria de se deixar encontrar por documentos de cuja existência nem sequer suspeitávamos, como no caso do Arquivo Histórico do Exército. Para isso se requer muita paciência, obstinação, teimosia e consciência da importância do trabalho que se realizava, além de muita sorte.

Com a elaboração do Guia de Fontes, começamos a perceber a precariedade das políticas públicas destinadas à guarda e conservação da documentação histórica e ao funcionamento das instituições, muitas vezes submetidas a caprichos de autoridades e a interesses desvinculados da pesquisa. John, mais que os integrantes das equipes locais, tinha uma visão de conjunto do que estava acontecendo nos principais arquivos do país. Em suas andanças, ele foi colecionando narrativas que davam uma ideia do que se passava. Quando, por exemplo, buscamos microfilmar documentos no Arquivo Histórico do Itamaraty fomos informados de que não era possível, o setor havia sido desativado na época em que José Sarney era o presidente da República, simplesmente porque Roseana Sarney havia participado de uma recepção ocorrida lá no Palacete da Av. Marechal Floriano, se encantou com a beleza do prédio, quando então reivindicou um espaço para montar um escritório em suas passagens pelo Rio. A sala cedida foi a de microfilmagem, que nunca mais voltou à sua condição anterior.

Se isso ocorria em grandes arquivos, o que dizer dos pequenos arquivos? Um dos filhotes do Guia de Fontes foi o levantamento imediatamente posterior que fizemos dos arquivos cartoriais, paroquiais e municipais do Vale do Paraíba, de Rezende até Campos. A situação era desoladora. Em Valença, na Câmara Municipal, documentos amontoados na garagem serviam de suporte para bicicletas de funcionários. Em Itaocara, quando de nossa passagem por lá, um juiz informou que a documentação do cartório ia ser queimada, o que levou um dos alunos da UERJ, a quem parabenizei pelo feito, a retirar de lá, escondido, dois processos envolvendo índios na metade do séc. XIX. Depois disso, conseguimos evitar a queima programada dos papéis, denunciando o fato no noticiário do RJ-TV. Diante da repercussão, o juiz retrocedeu e o arquivo do cartório foi, enfim, doado a UENF, para quem a UERJ devolveu meses depois os processos expropriados, que dessa forma, por vias tortas, voltaram ao seu lugar de origem. 

O Guia de Fontes nos ajudou também – e John Monteiro teve ai um importante papel – a enfrentar o silêncio dos arquivos às vezes muito mais expressivo e ensurdecedor do que a torcida em dias de clássico no Maracanã. São muitas as armadilhas e gatilhos dos arquivos, uma delas é a naturalização das fontes arquivísticas com as tentações que derivam do estar absorvido pelo arquivo a ponto de nem saber mais interrogá-lo. "Quando o documento se anima a ponto de levar a crer que ele se basta a si mesmo, sobrevém inevitavelmente a tentação de não se desgrudar dele, e de fazer um comentário imediato a seu respeito, como se a evidência de seu enunciado não devesse ser interrogada. Disso decorre uma escrita da historia, descritiva e plana, incapaz de produzir outra coisa que não o reflexo (e mesmo o decalque) do que foi escrito há duzentos anos” (Farge 2009).

John costumava dizer que o Guia de Fontes, apesar das lacunas e das imperfeições, podia muito bem servir de isca para atrair pesquisadores, o que efetivamente ocorreu. Muitos casos poderiam ser aqui citados, mas o mais emblemático é o do historiador americano Hal Langfur, que na época preparava sua tese de doutorado na Universidade do Texas, defendida em 1999. Ele pretendia, inicialmente, realizar sua pesquisa na Colômbia, mas decidiu mudar e vir ao Brasil em função, entre outras razões, do acesso à documentação facilitada pelo Guia de Fontes, que lhe permitiu trabalhar sobre a identidade colonial, índios e conflitos no Leste brasileiro entre 1760 e 1830.

Arquivo tem sabor? Sim, tem. E isso é tão verdadeiro quanto a afirmação de que John Monteiro, neste momento, está aqui presente, no meio de nós, no pensamento de cada um, no coração de muitos. Com ele, compartilhamos o prazer físico, a alegria, o entusiasmo na descoberta de documentos. "Quem tem o sabor do arquivo procura arrancar um sentido adicional dos fragmentos de frases encontradas. A emoção é um instrumento a mais para polir a pedra, a do passado, a do silêncio"escreve Arlette Farge, que adverte, no entanto, sobre a dúvida e muitas vezes a impotência de não saber como usar o documento, além das inúmeras possibilidades que acabam interferindo diretamente na qualidade da escrita da história (Farge 2009).

Não poderia concluir essa fala em homenagem a John sem citar três dos tantos agradecimentos que ele faz no Guia de Fontes. O primeiro que menciono é à Maria Helena P.T. Machado, "companheira que conviveu com o Guia de Fontes desde a primeira hora e que colaborou de diversas maneiras", aqui presente, a quem também homenageamos. O segundo, à Manuela Carneiro da Cunha: "se este trabalho fosse só meu, eu o dedicaria a ela" – escreveu John.  O terceiro à equipe do Rio de Janeiro, que só reproduzo aqui não por cabotinismo ou autoelogio, mas para corrigir, se me permitirem, um comentário generoso de John Monteiro. Ele escreveu:

"Merece uma menção especial a colaboração de José Ribamar Bessa Freire, coordenador do levantamento no Rio de Janeiro, responsável por uma equipe que trabalhou muito além do esperado, às vezes por conta própria, apresentando resultados que irão abrir a porta para inúmeras pesquisas originais. Foi tamanha a dedicação e renúncia dessa equipe que Bessa, pressionado pelos prazos por mim impostos, chegou a abrir mão de uma viagem totalmente paga para um congresso nos EUA".

Efetivamente, em 1994, John Monteiro sabia que a Universidade de New México havia acolhido um trabalho meu sobre a História da Língua Geral na Amazônia que seria apresentado na Terceira Conferencia Ibero-Americana Cultura e Sociedade, em Albuquerque e já estava até publicado no Caderno de Resumos do evento. John estava comigo na sala do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ, organizando os relatórios finais dos arquivos do Rio, quando fomos interrompidos por um funcionário exultante que trazia a passagem e as diárias liberadas por ato da reitoria, para que eu assinasse o recibo.

– Não posso ir – eu disse. E diante de John, redigi ali mesmo uma justificativa. Desisti da viagem, alegando que tinha prazos a cumprir com o Guia de Fontes. John quase caiu para trás, sentindo-se culpado. Insistiu para que eu fosse ao evento, dizendo que podíamos renegociar os prazos. Permaneci irredutível, o que ele interpretou na ocasião como um surto de virtude. Confesso que não esperava que sua generosidade tornasse público o fato na apresentação do Guia de Fontes. Posteriormente, quando o encontrei num Congresso na UNICAMP, me senti na obrigação de lhe contar parte da verdadeira razão que teve um peso definitivo na desistência.

Acontece que naquela ocasião eu havia me preparado para ir ao congresso nos Estados Unidos, mas uma situação emergencial levara para fora do país minha mulher e filha e eu ficara sozinho em casa. Sozinho não. Comigo ficaram meu cachorro e meu gato e, dessa forma, eu não podia viajar porque não tinha com quem deixá-los. Deram-me um endereço de um hotel para cães e felinos, mas não tive coragem de abandonar as crias. Eu não podia, porém, apresentar tal justificativa, nem ao coordenador do Guia, e muito menos fazer constar num documento oficial da Universidade. A burocracia não iria entender as razões de um cachorro de olhar doce e suplicante.

Mas anos depois sim, ao John podia confessar a verdade. Foi o que fiz. Terminei o relato dizendo a ele:

- Parece até exagero dos evolucionistas, mas te asseguro que cachorros e gatos podem contribuir para a qualidade da pesquisa histórica muito mais do que congressos nos Estados Unidos.

John, que conheceu o "Canalha", nome do meu cachorro, entendeu e respondeu com uma grande risada. É essa imagem dele, rindo, com um sorriso aberto, generoso e tolerante que gostaria de guardar.

[1] FARGE, Arlette Le Goût de l'archive. Paris, Le Seuil, 1989 "O sabor do arquivo" (Edusp, 2009).
[2] MONTEIRO, John. Guia de Fontes para a História Indígena e do Indigenismo em Arquivos Brasileiros. Acervos das capitais. São Paulo: NHII/USP/FAPESP, 1994.
[3] FREIRE, José R. Bessa (org.) Os índios em arquivos do Rio de Janeiro. Rio: UERJ, 1995 (t.1) e 1996 t.2.
[4] ARQUIVO NACIONAL. Guia Brasileiro de Fontes para a História da África, da Escravidão Negra e do Negro na Sociedade Atual (4), Brasília: Departamento de Imprensa Nacional, 1988. 2 vols. (Jaime Antunes da Silva – coordenador geral – e Vitor Manoel Fonseca – secretário executivo do projeto).
[5] MELLO, José Antônio Gonçalves (ed.). Fontes para a História do Brasil Holandês. Recife: MinC/SPHAN 4a. Diretoria Regional, 1985.
[6] GONZÁLEZ MARTINEZ, Elda E. Guía de fuentes manuscritas para la historia de Brasil conservadas en España. Madrid: Fundación Mapfre Tavera, 2002.
[7] MACHADO, Marco Antonio Gonçalves (org.). Guia de Fontes para a História Franco-Brasileira. Brasil Colônia, Vice-Reino e Reino Unido. Recife: MINC / L. Dantas Silva Editor, 2002.
[8] GALINDO, Marcos e HULSMAN, Lodewijk. Guia de Fontes para a História do Brasil Holandês. Brasília: MINC e Recife: Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massangana, 2011.
[9] WIESEBRON, Marianne L. (ed.) O Brasil em arquivos neerlandeses (1624-1654) – Brazilië in de Nederlandse archieven. Leiden: Research School CNWS, 2004.
[10] LINHARES, Maria Yedda Leite. História do abastecimento: uma problemática em questão (1530-1918). Brasília: Binagri, 1979