CRÔNICAS

O general francês que deu aulas de tortura no Brasil

Em: 09 de Setembro de 2012 Visualizações: 15684
O general francês que deu aulas de tortura no Brasil
 

(Enviado de Paris) Acabo de ler o último livro que o general francês Paul Aussaresses escreveu: "Eu não contei tudo. Últimas revelações a serviço da França" (Je n'ai pas tout dit. Ultimes révélations au service de la France, Editions du Rocher, 2008). Depois disso, tentei entrevistá-lo, sem sucesso, através de contato com Jean-Philippe Bertrand, assessor de comunicação da editora. Soube que o general está com 94 anos, quase cego, e que não mora em Paris, reside na Alsácia. Mas não dá entrevistas.
 
Nos últimos anos, ele concedeu, pelo menos, duas entrevistas polêmicas: uma ao Le Monde, em novembro de 2000; outra, publicada pela Folha de São Paulo, em maio de 2008, feita pela jornalista brasileira Leneide Duarte-Plon, que vive na França. Paul Aussaresses falou com ela e deu sua opinião sobre os militares brasileiros. Disse que o general Ernesto Geisel era "uma homem racional de uma profunda moralidade", que o general João Figueiredo era "um adorável sedutor" e que guardou boas lembranças do general Garrastazu Médici, a quem conheceu na embaixada da França e com quem conversou em português.
 
Tentei arrancar agora uma entrevista para o Diário do Amazonas, consciente de que seria difícil. Diante da impossibilidade, só me resta compartilhar com o leitor minhas impressões sobre o livro que li, onde o general conta suas andanças pelo Brasil, suas atividades como adido cultural da França em Brasília de 1973 a 1975, e suas muitas passagens por Manaus, onde foi professor de tortura no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS).
 
Um predestinado
 
Logo no primeiro capítulo, Paul Aussaresses revela que sempre foi um babaca, desde que nasceu. Quer dizer, ele não diz que era babaca, é claro, sou eu que estou dizendo pelas coisas que ele narrou. Ele conta, por exemplo, que na sua infância, em Paris, olhava de sua janela os soldados desfilando no Campo de Marte e ficava fascinado:
 
- Eu dizia a mim mesmo: quando eu crescer, vou ser militar. Minha querida avó, em cuja casa meus pais me deixavam muitas vezes, me olhava e dizia orgulhosa: "Cadê o generalzinho da vovó"?
 
Na família, todo mundo dizia que minhas primeiras palavras foram: "Posição, sentido! Avançar!". Mas eu não amava apenas os desfiles militares e a música marcial. Era eu um predestinado?
 
Paul Aussaresses cresceu, se tornou militar e atuou no Serviço de Documentação Exterior e de Contra-Espionagem (SDECE). Participou da guerra da Indochina. Confessa, na maior cara de pau, que este órgão do governo francês decidiu montar uma rede para o tráfico de ópio:
 
- "Nós comprávamos ópio no Laos por 14 centavos o grama e revendíamos aos intermediários por 18 francos. Esse tráfico rendeu muito à República Francesa e dessa forma nós pudemos financiar atividades de repressão".
 
Chefe do Batalhão de Paraquedistas francês, além de combater na Indochina, lutou na Segunda Guerra Mundial e recebeu a medalha de herói. Foi um dos responsáveis pela sistematização da tortura durante a guerra da Argélia, instrutor das forças especiais norteamericanas em Fort Bragg, e se distinguiu nos anos 1970 como professor de tortura no CIGS, em Manaus, criado pelo marechal Castelo Branco no início da ditadura militar, em 1964. Teve alunos brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios e paraguaios, entre outros.

 Sem arrependimento

Vale a pena reproduzir aqui alguns trechos do livro. O jornalista Jean-Charles Deniau, autor da entrevista, que deu origem ao livro do general, lhe pergunta:
 
- Você ia com muita frequência a Manaus?
 
- Sim, ia todos os meses.
 
- O que você ia fazer lá?
 
- Manobras com os alunos e estagiários do CIGS.
 
- Mas você não ia para o coração da floresta apenas para realizar manobras...
 
- Não. Os brasileiros me confiaram outras tarefas. Meu programa consistia em ensinar aos alunos a guerra contra-revolucionária. Para ser bem claro: eu ensinava as técnicas da batalha da Argélia.
 
- E em relação à tortura, como é que acontecia?
 
- A gente ensinava as técnicas, ensinava como se devia fazer.
 
-  O ensino da tortura era, então, apenas teórico? Ou havia aulas práticas?
 
- Havia aulas práticas.
 
- Na realidade, vocês formavam torturadores brasileiros que, por sua vez, exportavam a técnica para outros países da América Latina?
 
- Sim. Confirma. Exato. Positivo.
 
O general francês conta que quando foi adido militar, o general João Figueiredo era chefe do SNI e com ele construiu uma sólida amizade, assim como com o delegado Sérgio Fleury. Narra que quando estava em Manaus foi chamado às pressas à Brasília por Figueiredo, que o levou ao porão de um prédio onde uma mulher presa, de nome Eva, com quem o francês havia tido um caso, estava sendo torturada. Ela morreu sob tortura. Segundo Figueiredo, era uma espiã.
 
O professor de tortura francês faz uma apologia da violência cometida contra presos indefesos, justificando: "A tortura é eficaz, a maior parte das pessoas não aguenta e fala mesmo. Depois, quase sempre, nós os matávamos.  Por acaso isso me trouxe problemas de consciência? Não, essa é que é a verdade: não".
 
Na entrevista a Leneide Duarte-Plon, ele havia declarado:
 
- "Não me arrependo de nada. E recusei uma proposta que me foi feita no tribunal, quando fui acusado de fazer a apologia da tortura, o que não é verdade. Meu advogado e meu editor me propuseram declarar que eu me arrependia do que fizera e do que escrevera. Não posso, não me arrependo, eu seria desprezado por minha mulher.
 
Enfim, o general francês Paul Aussaresses, no seu livro, demonstra que é - usando a linguagem do "p" - um grande fipilhopo daputapa, casado com alguém da mesma estirpe.

 P.S. Ilustrações do meu parceirinho Fernando Assaz Atroz - assazatroz.blogspot.fr

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26 Comentário(s)

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Leticia comentou:
19/05/2013
Eu não sei se chamaria de filho da puta um indivíduo como este... a crueldade e a falta de empatia com a dor de outro ser humano são apavorantes... um grande mistério da natureza... e as putas não têm definitivamente nada a ver com isto... em geral são homens né?
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wilodkzv comentou:
03/05/2013
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jmvtprcw comentou:
02/05/2013
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ksoaoyha comentou:
29/04/2013
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edson m leal comentou:
04/11/2012
O pessoal,essa reportagem do Bessa,sobre esse frances não devia shocar tanto assim não. Sempre houve tortura em guerras.O Brasil e nem a França não inventaram nada. A tortura já existe a milênios. É horrível? É sim. Mas ,infelizmente,é comum e esperado. Será que ninguém lembra que os castigos dos senhores fasendeiros, dos séculos 16,17,18,19 eram formas de tortura? E a lei da chibata nas marinhas do mundo ocidental no sec. passado; tortura! E como estamos num mundo globalisado,pelo menos nas ditatduras, importamos professor de tortura. Este artfício já era usado por imperadores chineses que torturavam, pessoalmente, suas vítimas com requintes de crueldade isso a 3000 atrás. A primeira intenção era descobrir pontos de maior sensiblilidade, com o intuito de serem mais eficases. Infelismente nós, humanos, somos assim; cruéis e hipócritas.
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WJvZHLtvXLRtkR comentou:
21/10/2012
No que se refere a nossa vedadre, nossa verse3o particular para a realidade, ne3o lembro de ter visto um termo melhor do que negociada , para demonstrar que aceitamos ou repelimos ofertas advindas de diverentes origens e, nos afetam ou ne3o, nos agradam ou ne3o (e9 por aed?). Assim, mesmo o nosso aque1rio sofre as transformae7e3os da nossa micro-histf3ria.Acho que essa ide9ia dialoga com as noe7f5es de sedntese (antedtese + tese) e, ao mesmo tempo, com a importe2ncia da chegada do estranho , de que fala Zygmunt Bauman, na obra Mal-Estar da Pf3s Modernidade.Apesar disso, ate9 o momento, sou adepto da noe7e3o de que a nossa verse3o particular e9 construedda, mas defendo que isso se de1 a partir da interpretae7e3o de um mundo que je1 existe e que ne3o foi formulado nem por nossa negociae7e3o particular, nem por nossa construe7e3o coletiva.Forte abrae7o! Contato de WJvZHLtvXLRtkR
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José Antonio Simões Filho comentou:
14/09/2012
Pois é. Seria ótimo para nós se os discípulos brasileiros deste senhor fizessem o mesmo e revelassem o prazer e a sensação de "dever cumprido" que sentiam ao executar as práticas aprendidas. Seríamos, no mínimo, poupados da hipocrisia da mídia que tanto os apoiou, na época, e que agora tanto protestam contra as atitudes "revanchistas" que pretendem revelar as arbitrariedades e horrores dos porões da ditadura.
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Dary Apolinário comentou:
13/09/2012
Esse cara é um lixo! Assim como todos que apoiaram a Ditadura Assassina no Brasil da Republiqueta dos Generais!
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Jordana Ribeiro de Ávila (portalrogerioferreira.ning.com) comentou:
13/09/2012
"A ação conhecida como esculacho visa denunciar ex-agentes que participaram direta ou indiretamente da ditadura militar brasileira e demonstrar que continuam levando suas vidas normalmente, sem que tenham passado por algum processo de julgamento sobre seus atos." LEVANTE PELA MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA!
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Felipe Fialho Neto (blog da Amazonia) comentou:
12/09/2012
Esse general francês quando morrer merece ir para os quintos do inferno!
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Nubia Ordalia de Mello (Blog da Amazonia) comentou:
12/09/2012
E tem alguns que acham bom... (seja por desconhecer seja por ansiedade em resolver os problemas. Se hoje tivesse outra, seria muito pior que o nazismo, já que a humanidade dispõe de outras técnicas mais ferozes e agressivas...
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TEwpYnnzTcebyQHtxb comentou:
21/10/2012
Rs, sem problemas, Nepf4. Eu eednnto. O livro tem coisas bem interessantes, mas e9 claro que, como ele mesmo indica, precisamos filtrar tudo, e isso inclui o prf3prio livro que diz isso! Rsrsrsrs. Bom, acho tambe9m que pra vc certas noe7f5es je1 este3o mais que consolidadas, mas para quem este1 ainda se graduando como agente de mudane7a (muitos risos para essa definie7e3o, haha) pode ser importante pensar nessas questf5es, sabe? Assim, ver quais se3o as opinif5es de ve1rias pessoas, pensadores etc e ir conflitando-as, pensando em cima delas, discordando, repensando e tal. O livro e9 em formato de entrevista e os entrevistados ve3o falando o que este3o pensando, de uma forma ne3o-imposta, fazendo o leitor pensar tambe9m. Eles mesmo discordam entre si e0s vezes, e9 um die1logo. Talvez seja isso que me fez simpatizar tanto com ele. Gostar 100% de algo e9 difedcil, sempre tem um filtro para fazermos, ainda mais quando o assunto e9 te3o vasto, mas os trechos que eu trouxe para ce1 eu achei que valiam a discusse3o e pelo visto valeram Isso que importa, ne9? Discordar e9 viver! Hahaha. Saudades dos debates ao vivo entre os Agentes de Mudane7as 2.0. Bjs!
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mauro oliveira (Blog da amazonia) comentou:
12/09/2012
Talvez o general francês estivesse certo. Talvez, para enfrentar guerrilheiros comunistas torturadores e sanguinários, só agindo como eles. Talvez o general francês estivesse certo. Em Cuba, o ditador sanguinário Fidel matou 17.000 pessoas e torturou centenas de milhares e continua no poder e sendo adulado por grande parte da esquerda.
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mauro oliveira (Blog da amazonia) comentou:
12/09/2012
Talvez o general francês estivesse certo. Talvez, para enfrentar guerrilheiros comunistas torturadores e sanguinários, só agindo como eles. Talvez o general francês estivesse certo. Em Cuba, o ditador sanguinário Fidel matou 17.000 pessoas e torturou centenas de milhares e continua no poder e sendo adulado por grande parte da esquerda.
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Paulo Bento Bandarra(Blog da Amazonia) comentou:
12/09/2012
Mas e os da esquerda que fizeram o mesmo, ou pior, explodindo inocentes com bombas em trens e nas ruas, se arrependeram? Cesare Battisti se arrependeu alguma fez pelas mortes que praticou? Stalin alguma vez fez o mea culpa, ou Pol Pot assumiu a sua, antes de ser preso? Fidel alguma vez se arrependeu dos que mandou matar sem julgamento? E Hugo Chavez, pediu perdão pelos mortos na sua frustrada tentativa de tomar o poder pelas armas? Pior, por estes crimes, o Brasil ainda indenizou os assassinos e terroristas como se fossem vítimas. Dois pesos, duas medidas????
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Pierre Oscar Levy comentou:
11/09/2012
La technique de la torture améliorée pendant la guerre d'Algérie a été enseigné par des militaires Français. Le Général Paul Aussaresses qui avait été résistant contre le nazisme pendant la deuxième guerre mondiale, a été l'un de ses "pratiquants" et "professeurs" . Il l'a décrit dans un livre et a été e
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Rosil Velmont comentou:
11/09/2012
É pavoroso pensar que tem gente desse tipo andando disfarçada, por aí...
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André Ricardo Costa comentou:
11/09/2012
Isso mostra o quanto há de intervenção de potências em todos os países... José Dirceu e Genoino, por exemplo, tiveram aulas de guerrilha em Cuba e até hoje não tem problemas na consciência... Dirceu, aliás, está cada vez mais convicto da sua inocência... Se as aulas em Cuba tivessem sido melhor ministradas que as aulas do senil francês teríamos uma ditadura que teria matado não umas 6 centenas, mas umas dezenas de milhões de pessoas...
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Austregesilo Fernandes comentou:
11/09/2012
se, se, se, se o dirceu que treinou em cuba, se, se, se, se a porca tivesse uma carreira de peitos seria vaca, meu caro Andre. Voce é muito curto de ideias, meu amigo. Nós nao estamos falando do que poderia ter acontecido, mas do que aconteceu. A Tortura foi praticada pela ditadura militar brasileira, que tomou o poder à força, rasgou a constituicao e cometeu arbitrariedades, pisoteando os direitos humanos. Se o Dirceu ou qualquer outro FDP fizesse isso, todos nós cairiamos de pau em cima deles, mas eles nao fizeram, meu caro, quem fez foram eles, os militares, eu quase diria, Andre, quem fez foram voces. André, você é milico? Nao me leve a mal, mas voce "raciocina" como um milico.
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Paulo Bezerra comentou:
11/09/2012
Não é à-toa que este pulha fez uma “brilhante” carreira militar. Quantas condecorações com medalha de “honra ao mérito” não terá recebido?
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Ana Silva comentou:
10/09/2012
Depoimentos fortes que certamente nos causam repulsa!! ´Você descreveu muito bem esse general, "um grande fipilhopo daputapa". Excelente crônica.
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Vania Tadros comentou:
10/09/2012
VISTES DO QUE O MANOEL BESSA TE LIVROU, BABÁ? E A GENTE NEM SABIA QUE HAVIA AULA DE TORTURA REQUINTADA EM MANAUS. ESSE FRANCÊS É UM DEMENTE. CREDO!
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Marina Correia comentou:
10/09/2012
Tem que ter estômago pra ler o livro de uma figura dessas, professor. Tem que ter estômago!
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Claudia Vianna comentou:
11/09/2012
É... o estômago luta com a memória.
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Karla Godou comentou:
10/09/2012
E olha que tenho ouvido gente com um discurso muitíssimo semelhante...
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