CRÔNICAS

TU ÉS PEDRO

Em: 26 de Junho de 2011 Visualizações: 11189
TU ÉS PEDRO

A gente se apaixona por algumas palavras e expressões como se elas fossem gente ou animal de estimação. Foi o que aconteceu com meu amigo Armindo Barroso, professor da UFF. Ele namora, firme, as palavras ‘interface’, ‘sinergia’ e ‘episteme’, delas não se desgruda nem quando está descontraído num bar. Mantém caso rumoroso com o verbo ‘perpassar’, de quem usa e abusa. Promíscuo e bígamo, casou-se com a expressão ‘esgarçamento do tecido social’, sem se divorciar da ‘capilaridade social’, embora saiba que as duas, oferecidas, se entregam ao primeiro que aparece. Às vezes, exibicionista, junta todas elas e promove surubas lexicais que escandalizam a vizinhança pudibunda.

 ‘Pudibunda’ é, aliás, uma palavra que não pode ser apresentada ao estudante amazonense Pedro (Kokay) de Souza, aluno da Escola Concórdia, da ULBRA, em Manaus. Ele acaba de completar 6 anos de idade e descobriu aquilo que os índios guarani sabem há dois mil anos: as palavras têm alma. Nheen, em guarani, quer dizer ‘alma’ e, ao mesmo tempo, ‘palavra’. Pedro se apaixonou perdidamente por uma palavra-alma, logo que foi alfabetizado. A professora ensinou-o a escrever com letra cursiva. E a palavra foi justamente essa, que o neoleitor, recém-alfabetizado, pronuncia enchendo a boca e lambendo os beiços:

 - Pai, deixa eu te dar um beijo cursivo? 

Ele está encantado com a palavra. Não se separa mais dela, é um grude só. Nada mais diz, só diz cursivo. Seu quarto é cursivo, o primo Palmito é cursivo, a vida e o mundo são cursivos. Tudo pra ele é cursivo. Viu o gol do Neymar no Peñarol e fez um comentário, muito apropriado, que deixaria o Galvão Bueno de queixo caído:

 - “Esse foi um gol cursivo”.

 E foi mesmo. Quem viu o chute do Neymar, sabe disso.

Outro dia, no banheiro, antes de puxar a descarga, Pedro chamou:

 - Pai, vem ver, meu cocô hoje está cursivo.   

Deixou no chinelo a ‘episteme’, a ‘sinergia’ e a ‘capilaridade social’ do Armindo. Como disse Hamlet a Polônio, num quarto do castelo de Kronborg, na Dinamarca: “words, words, words’.

 Outro dia, Pedro, sob os cuidados da avó, declarou:

 - "Vovó, o buraco CUrsivo do meu bumbum tá coçando".

 O palavrão

Pedro descobriu que a palavra, que tem alma, pode ser dita, mas se ela crescer e virar palavrão, a alma se transforma em assombração e tem que ser silenciada.  

 Outro dia, diante da TV, assistia o ‘Fantástico’, uma matéria sobre a gordura dos peixes e comentou:

 - Pirarucu, pacu, tucunaré, aracu curimatã... Pai, por que todo peixe tem cu, mas a gente nunca vê o cu do peixe?  

 O pai explicou que nem toda palavra podia ser dita em qualquer lugar. Intrigado, mostrando que compreendeu bem, Pedro lamentou, então, que não podia nunca mais chamar o amiguinho dele, na escola, que era um palavrão: Pinto. Orlando Pinto. O pai explicou que “pinto”, se fosse nome de pessoa, podia falar. Ele aprendeu rapidamente a lição.

 Pedro: - Porra!!!

 Pai: - Que é isso, meu filho. Que palavrão feio!!

 Pedro: (com uma cara safada) - Pai, não é palavrão. Porra é o nome que eu dei pro meu robô de Lego. Legal, né? Nome de pessoa pode falar.

 Na última quinta-feira santa, Pedro, cuja bisavó foi professora de catecismo na paróquia de Aparecida, resolveu não negar o DNA. Deu uma aula de religião:

 - "Vovó,’amanhã’ Jesus morreu e domingo ele ‘Jesussitou...’”

 No noticiário, Pedro viu a cavalice do deputado Bolsonaro, o coice que ele deu na senadora Marinor. O pai aproveitou para fazer um discurso sobre o respeito à diversidade, ao outro, à diferença. Foi ai que Pedro decidiu sair do armário, confessando:

 - Pai, eu sou bi...

 Se fosse o Bolsonaro, sairia logo cobrindo de porrada para ‘educá-lo’. Mas o pai achou que era precocidade demais:

- O que isso, meu filho?

 - Sou bi-atleta, treino judô e futsal.

 Eliza, a irmã de Pedro, pegou uma conjuntivite e foi advertida pela mãe, que é médica, que não podia ficar coçando o olho. No dia seguinte, Pedro falou:

 -“Mãe, tô com conjuntivite...só que é no braço. Pode coçar?"

 Pedro Malasartes

Quando seu pai sai pra tocar música na noite manauara, dorme até tarde. Numa dessas, Pedro, que acorda com os galos, cochichou, amoroso, no sonolento ouvido paterno:

 - “Pai, a Eliza tá querendo te acordar, porque ela quer brincar com você... eu também quero, mas vamos deixar você dormir mais um pouco, tá? Mas se tu acordar logo, eu vou te dar cascudos de beijos”.

 No outro fim de semana, o mesmo cenário.

 Pedro – “Pai, quando a gente vai acordar?

 Pai (virando na cama) – “A gente vai acordar daqui a pouco”.

Pedro – (susurra no ouvido do pai, aproveitando o embalo) - "A gente tem de acordar logo porque a gente tem de pegar o toddynho, porque a gente tá com fome..."

Num programa de TV, ao lado do pai, assistia uma propaganda sobre o Teste do Pezinho. Pergunta pra que serve, o pai explica que é pra ver se o bebê tem alguma doença.

 Pedro – Ahhh, tá. Eu não preciso fazer nada, porque não tenho nada no pé.

 Pai – Não é pra ver se tem doença no pé, mas no corpo.

Pedro – Isso me confunde. Devia chamar Teste do Corpinho e não do pezinho.

No carro, indo pra escola:

  - Pedro, você me ama?

- Claro, né, você é meu pai.

- E o que é amar?

- Não sei.

- Se você não sabe, como é que me ama?

- Não precisa saber, basta amar...

 Puxando conversa, o pai diz: - Pedro, você ficou famoso. Todo mundo no facebook se diverte contigo, te acham engraçado, inteligente.

 Pedro dá um suspiro profundo e depois de um longo silêncio comenta:

- É...celebridade é assim mesmo”.

 Depois, ele convoca o pai, chamando insistentemente:

-  "Pai pai pai pai pai pai pai pai pai..."

- "Tou ocupado. Pára de falar “pai, pai, pai”.

 Dois segundos de reflexão, e Pedro, obediente, contra-ataca:

- "Paulinho Kokay, Paulinho Kokay, Paulinho Kokay, Paulinho Kokay..."

 Sei dessas histórias porque com o Pedro tenho um laço atávico. Ele é filho da doutora Zuleica com o cantor e professor universitário Paulinho Kokay, que vem a ser filho do Bibi, meu cunhado, e primo do Pão Molhado, meu sobrinho, ou seja, neto da mãe da Nakamura, se bem me explico, além de pai, até o momento, da Érika, Mariah, Eliza, Gabriel e Bebel. Da mesma forma que em toda família há uma tia Nenen, sempre se pode encontrar também um Pedro.

 Ver pkokay@terra.com.br

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24 Comentário(s)

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Gabriela Moura comentou:
01/07/2011
Que texto incrível! Fiquei emocionada! Muitas risadas com olhos marejados! Uma delícia!
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Joana Moroni comentou:
29/06/2011
Chorei gargalhando enquanto lia...
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Eneida comentou:
28/06/2011
Adorei ver a criança tão punica que cursivamente habita o Pedro. Maravilha!
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ilton Jornada comentou:
27/06/2011
No RS desde os anos 60 uma música faz sucesso: Pára, Pedro. O refrão é "esse Pedro é uma parada!". Também tenho um sobrinho Pedro, com 5 anos, que escreve o nome "em letra cursiva". Figuraça tal qual o Pedro Kokay. Ilton Jornada
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Felipem de Paula comentou:
27/06/2011
"palavras, palavras, palavras cravas em nós um sentido sinto que as palavras são quase como um ser vivo por exemplo gosto da palavra boto quase mais que ao animal é como se sentisse o gosto do sentido que lhe é normal" fiz agora!
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Jotapeve comentou:
27/06/2011
Eu não conheço nenhum Pedro calminho...a começar pelo Pedro Malasartes( é assim mesmo que se escreve? é a primeira vez que vejo este nome escrito, só conhecia por histórias que meu pai contava).
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moema comentou:
27/06/2011
que texto delicioso....
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Cris Amaral comentou:
27/06/2011
" Pedro dá um suspiro profundo e depois de um longo silêncio comenta: - É...celebridade é assim mesmo”. " De fato Pedro é uma linda celebridade, adorei conhecê-lo nesse retrato em crônica. Ameii! Carinhos
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Bessa (acionado por Eleonora) comentou:
26/06/2011
Eleonora, não posso responder ao seu email, porque vc esqueceu de registrá-lo. De qq forma, postei seu comentário e agradeço. O que morreu no Taquiprati? Na pré-era PT, não havia espaço nos jornais para as questões que vc menciona. As redes sociais também inexistiam. Então, a coluna buscava brechas. Agora, o leitor é bombardeado de todos os lados por informações. A sua pergunta é pertinente, mas deve ser ampliada: o que morreu na mídia? É bom perguntar tb: o que nasceu? O que existe de novo?
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Paulo Bezerra comentou:
26/06/2011
A propósito, suruba lexical quem promoveu mesmo foi FHC, em seu Opus Magno "Dependência e Desenvolvimento da América Latina", que segundo análise de Millôr Fernandes, esse gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infra-estrutura casuística" não passa de um Sarney barroco-rococó. Leia mais em: esquerdopata.blogspot.com/2010/04/o-pensamento-de-fhc-analisado-por.html
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Eleonora (1) comentou:
26/06/2011
Olá! Seus textos são sempre estimulantes, escritos com inteligência, graça e sensibilidade. Esse do Pedro é gostoso de ler. Mas, aproveitando a oportunidade, gostaria de dizer que sinto falta daquele espírito jornalístico “pré-era PT”, quando o nobre jornalista, sempre atento, não deixava passar um indício de corrupção, atentado à democracia, ao conhecimento e à livre expressão.
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Eleonora (2) comentou:
26/06/2011
Não sei se é impressão, mas, hoje, quando tratas de “temas políticos” ou é para tentar (indiretamente) ser “pró-governo” (afastando-se, claro, do indefensável, Palocci, sigilo eterno de documentos, obras da copa e cia), mesmo quando bates no Sarney (Vixe, Vixe!) – da base aliada, não dá para fugir desse fato -, ou para chover no molhado, como criticar o fácil de bater Bolsonaro, um político-caricatura, vamos combinar! O que morreu em ti, “Taquiprati”?
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Alessandra Marques comentou:
26/06/2011
Adorei, sobretudo porque fiz sua leitura no final do domingo, dia chatinho que até se tornou delicioso cm essa crônica!
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Eleonora comentou:
26/06/2011
Olá! Seus textos são sempre estimulantes, escritos com inteligência, graça e sensibilidade. Esse do Pedro é gostoso de ler. Mas, aproveitando a oportunidade, gostaria de dizer que sinto falta daquele espírito jornalístico “pré-era PT”, quando o nobre jornalista, sempre atento, não deixava passar um indício de corrupção, atentado à democracia, ao conhecimento e à livre expressão. Não sei se é impressão, mas, hoje, quando tratas de “temas políticos” ou é para tentar (indiretamente) ser “pró-govern
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Andrea Sales comentou:
26/06/2011
A "capilaridade social" da axiologia gramatical,inconfundível,inexorável e paradigmática não nos deixa esquecer de Armindo Barroso. E agora, a curiosidade cursiva nos faz conhecer o menino Pedro. As pessoas também deixam suas marcas pelas palavras que proferem. Iporã ete Bessa por sempre nos brindar aos domingos pela manhã com suas belas palavras.
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Cyrino 3 comentou:
25/06/2011
Paulinho Kokay, recomendo os livros “Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo”, “Livro Sobre Nada”, “O Livro das Ignoranças”. Tenho certeza que o Pedro não apenas vai compreender a linguagem de Manoel de Barros como vai transgredir no sentido de seus versos, recriando ainda mais, afinal, como disse o Babá, Ele é Pedro!
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Cyrino 2 comentou:
25/06/2011
Não é à toa que ele diz: “As coisas que não tem nome são mais pronunciadas por crianças”. E também: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber usar palavras que ainda não possuem idioma”. “Ontem choveu no futuro”. “Poesia é voar fora da asa”. “Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim: De noite o silêncio estica os lírios”. Quem entende bem isso senão as crianças?
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Cyrino 1 comentou:
25/06/2011
Adorei a crônica, bem como as histórias. Babá esse menino tem que ser apresentado à obra do poeta cuiabano Manoel de Barros, urgentemente, antes que a escola o (de) forme com sua gramática normativa e suas leituras dirigidas. Ninguém subverte sentidos das palavras como o poeta Manoel de Barros, resignificando o mundo e a alma não só das palavras, mas de quem a degusta. E ninguém compreende melhor as suas obras do que as crianças.
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Márcia Bessa comentou:
25/06/2011
Sou de poucas palavras... Muito bom!
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Ana Silva comentou:
25/06/2011
Bonita homenagem ao "Armindo". Ainda bem que vc não falou nas 'bolsistas'! rsrsrsrs
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Cláudio Nogueira comentou:
25/06/2011
Tem "jornalistas" que quando estou dirigindo pela manhã, atento às notícias, tenho que ouvi-los. Chamados de vários pontos da cidade, são apaixonados por algumas palavras. O problema é que não mantiveram relacionamento muito profundo com outras. E acham que enriquecem o texto repetindo "Justamente, exatamente, na realidade, na verdade, aqui, nesse momento". Meu irmão, não podia perder a oportunidade, há muito queria falar desses "jornalistas" que repetem palavras. Repeti, né !? Né que é chato?
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Cláudio Nogueira comentou:
25/06/2011
Babá, tem uns "jornalistas" que quando estou dirigindo pela manhã, atentos as notícias, tenho que ouvi-los. Eles são chamados de vários pontos da cidade, e também são apaixonados por algumas palavras. O problema é que eles não mantiveram um relacionamento muito profundo com outras, devido, creio eu, abaixa leitura. E eles acham que estão enriquecendo o texto ou a reportagem repetindo as seguintes palavras ( os quais são apaixonados): "Justamente, exatamente, na realidade, na verdade, aqui, nesse
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Regina Nakamura comentou:
25/06/2011
Esse Pedro é um numero. Adorei a cronica, até pq, eu mesma, etava me sentindo inspirada pelo Pedro. E tu falaste por mim
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Rosilene Bessa comentou:
25/06/2011
Que gostosura a crônica sobre o Pedrão. Amei!!!!!
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