CRÔNICAS

O vestibular e o arsenal de artilharia do Rio Negro

Em: 18 de Março de 1985 Visualizações: 2750
O vestibular e o arsenal de artilharia do Rio Negro

A Comissão Permanente do Vestibular da Universidade do Amazonas – a finada COPEVE – conseguiu dar uma contribuição espetacular para o conhecimento da História do Amazonas, sem precedentes na historiografia regional.

Na prova de português do Vestibular 1985, a COPEVE apresentou um texto escrito no final do século XIX, publicado recentemente pela Editora da Universidade de Brasília, cujo autor é o cientista Emilio Goeldi. Trata-se de um extrato da biografia do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que viajou pelo rio Negro em 1785 e registrou dados demográficos e estatísticos sobre o total de habitantes, de fogos e de cabeças de gado das povoações do Rio Negro há 200 anos.

Chumbo grosso

A COPEVE elaborou, então, seis questões para avaliar se o vestibulando, coitado, havia feito uma leitura correta do texto e havia entendido o que Alexandre Rodrigues queria mesmo dizer na parte citada por Goeldi.  Na segunda questão, a prova indaga sobre o significado da palavra FOGOS, apresentando duas alternativas diferentes quanto ao significado, acrescentada de mais duas quanto à forma de pronunciar. A questão foi elaborada assim:

 “Da palavra FOGOS podemos dizer que significa:

  1. Lares e se pronuncia com a vogal tônica fechada.
  2. Lares e se pronuncia com a vogal tônica aberta.
  3. Peças de artilharia se pronuncia com a vogal tônica fechada.
  4. Peças de artilharia e se pronuncia com a vogal tônica aberta”.

O vestibulando, coitado, ficou colocado assim entre dois fogos. Tinha que decidir o que o naturalista, que visitou 28 povoações do rio Negro, queria dizer quando registrou que havia encontrado um total de 777 fogos e uma população de 6.642 almas. Eram 777 peças de artilharia ou 777 casas?

Até janeiro de 1985, esse texto tinha, em qualquer lugar do mundo latino, um significado preciso nesse contexto. Fogo era um termo usado antigamente para designar casa, lar, família (fuego em castelhano, feu em francês). No seu Diccionário Etimológico, Juan Corominas nos ensina que fuego e fogo derivam do latim focus, isto é, hogar, lar, em função da lareira lá existente. Por volta dos anos 1220-50, o termo hogar, derivado do adjetivo focaris, em latim hispânico substituiu focus.

Nos documentos históricos encontramos referência também a fogal, que não significa um grande incêndio, um fogaréu, mas o imposto que cada casa ou fogo pagava de imposto, uma espécie de IPTU da época.

Portanto, o Censo de A. R. Ferreira queria afirmar que em 1785 existiam 777 casas no Rio Negro. Desta forma entenderam alguns alunos de História, que voltaram a fazer o vestibular, coitados, inscritos para outros cursos. No entanto, aqueles que responderam corretamente, erraram. E quem errou, acertou, referendado pela COPEVE.

O gabarito, que só foi entregue um dia após a prova e reproduzido amplamente pelos cursinhos – e bote “inhos” nisso – é contundente, definitivo, inapelável: FOGOS SÃO PEÇAS DE ARTILHARIA (resposta certa a “d”).

Tal resposta da COPEVE vai revolucionar, se comprovada a sua justeza, toda a História da Amazônia e mais especificamente da região do Rio Negro. Além disso, vai trazer uma contribuição decisiva para todo o mundo latino, uma vez que espanhóis e franceses até então acreditavam, ingenuamente, que textos usando esse termo se referiam à casa, lar. Agora, serão objeto de nova leitura para dar conta do enorme arsenal de artilharia.

Crocoió

No entanto, a COPEVE não deve manter segredo sobre a sensacional descoberta, como o fez de janeiro até hoje, mas deve revelá-la amplamente, divulgando-a no meio científico. O debate no meio acadêmico deve ser feito urgentemente pelas gravíssimas implicações que pode ter sobre o estudo da Amazônia e do mundo. É pena que nossa amada Universidade do Amazonas, ao contrário de outras instituições de ensino, não possua uma só revista para fazer circular os conhecimentos científicos por ela produzidos.

Claro, se fogos são peças de artilharia, como quer a COPEVE, o Rio Negro, em 1785, detinha o maior arsenal de toda América naquele momento: 777 canhões, quase todos escondidos na floresta, ninguém os via. Era chumbo que não acabava mais. Guardadas as proporções e a diferença de 200 anos, que vai do canhão ao míssil, Reagan e a OTAN gostariam de usar o modelo rionegrino para a Europa de hoje.

Felizmente, para os vestibulandos, coitados, a COPEVE não indagou sobre o significado de almas, porque seguindo a mesma lógica dos gênios copevianos, as 6.642 almas vistas por A. R. Ferreira podiam ser:

  1. Fantasma, assombração
  2. Alma penada e errante
  3. Alma-de-gato, crocoió ou rabilonga
  4. Pessoa, indivíduo

Democracia

O que dá pra rir, dá pra chorar. Temos de fingir que rimos de nossa desgraça para não chorarmos a tragédia de ver a incompetência premiada, a burrice institucionalizada no poder dentro de uma instituição de ensino superior que devia combate-la, o autoritarismo dominando as relações professor-aluno, a derrota da inteligência.

Como admitir que nenhum professor de História da Universidade do Amazonas tenha sido chamado para revisar as cagadas da COPEVE? Isto só pode se explicar pela estrutura autoritária de poder da Universidade do Amazonas que marginaliza professores e alunos competentes e acaba premiando a burrice através do apadrinhamento e do clientelismo, uma vez que os responsáveis por formular as questões são pagos, além do salário.

A única forma de começar a mudar, de criar uma Universidade competente a serviço dos povos amazônicos, é democratizar a instituição, permitindo uma participação ampla e crítica de todos os segmentos na sua administração e gestão. Nesse sentido, as eleições para reitor constituem um primeiro passo importante. Nomes como o de Marcus Barros e Ernesto Renan Freitas Pinto constituem uma garantia de podermos criar outra universidade.

P.S. – Publicado em 18 de março de 1985 no jornal A CRITICA sob o título “Democracia e Alma Penada”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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