CRÔNICAS

AS CANDIDATAS E OS ÁLBUNS DE RECORDAÇÕES

Em: 23 de Julho de 1986
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Duas candidatas, dois partidos, duas histórias de vida, mas um só nome. Se as duas candidatas viram a cabeça para trás quando alguém chama o mesmo nome, como fazer para distinguir aquela que é guerreira, briguenta, inteligente, implicante e devota de Nossa Senhora dos Remédios, daquela outra que é acomodada, bajuladora, comedora de caroço de tucumã e devota de Santa Etelvina? Como distinguir a encrenqueira beduína, da louvaminheira com sorriso de aeromoça da TABA (se a TABA tivesse aeromoça).

Não é fácil saber quem é quem, quando a primeira quem tem o mesmo nome da segunda quem. Como distinguir a bestalhona, da belicosa? A bolacha, do biscoito? O joio, do trigo? O quibe, do cuscuz? A lágrima de Deus caindo sobre o rio, da gota de água lamacenta pingando da torneira da Cosama? 
Durante várias semanas, a nossa equipe de reportagem vem trabalhando sigilosamente para tentar responder a estas perguntas. Sigilosamente, para evitar que a imprensa - essa maldita senhora - envolva políticos nesta história.

Um dos nossos repórteres encontrou em Manacapuru um "Álbum de Recordações" antigo, do final dos anos 1950, que pertenceu a uma das candidatas. Em Manaus, outro álbum, da mesma época, de propriedade da outra candidata, foi também localizado. Se compararmos um com o outro, eles podem nos ajudar a resolver a questão. Vamos bisbilhotar juntos?

Já estou vendo você lamber os beiços, leitora, você que, como eu, adora uma fofoquinha, adora abelhudar álbuns de recordações. Todos nós temos um pouquinho de voyeur, como diriam os franceses, ou de brechador, como diria o João Bitoito, que praticava a "barara" lá de cima do Grupo Escolar Cônego Azevedo, olhando a Mariona mudar de roupa. 

Nos dois álbuns, os coleguinhas das respectivas meninas - que na época não eram ainda candidatas nem sequer a miss de quermesse ou rainha de arraial - deixaram gravadas as suas impressões. Na capa do primeiro álbum está desenhado um coração, e na do segundo uma flor, ambos - coração e flor - coloridos com pó de lápis de cor, pó raspado com gilete e espalhado com algodão, dando um toque mágico à figura.

Vamos reproduzir aqui, para o leitor, e sobretudo para a leitora - que é mais sensível - trechos do que foi escrito nos dois álbuns. Como no jogo dos erros, onde de duas paisagens parecidas, você tem de identificar um certo número de diferenças, a leitora pode se divertir tentando estabelecer as diferenças entre uma e outra candidata e tentando adivinhar de qual álbum provem o texto aqui reproduzido.

Estamos divulgando o que cada uma das candidatas escreveu na abertura dos seus respectivos álbuns e os depoimentos escritos de seus colegas de aula, dos vizinhos e dos parentes, para finalizar com uma poesia dos respectivos namoradinhos ou paqueras de cada uma.

A ABERTURA

Cada um dos dois álbuns tem 50 folhas e um igual número de amiguinhos - um por folha - cada um com sua fotografia 3 x 4 colada no alto da página. 

Em um dos álbuns - chamemos de Álbum nº 1 - o texto de abertura diz o seguinte: 

"Meus amigos, deixem algo escrito aqui que lembre a nossa amizade, e guardarei no Relicário das Minhas Recordações; mas cuidado com o que escrevem para não dar pobrema (sic) para a posteridade. Se um dia o destino nos separar, quero abrir este tesouro e lembrar de todos vocês, porque a amizade, como diz Corin Tellado, é um fogo que não acaba nunca". Segue uma assinatura ilegível e uma observação: "Exijo fotografias" 

A abertura do outro álbum, o de nº 2, com uma assinatura também ilegível, registra: 

"Meus amigos, escolhi vocês porque são meus amigos de verdade e não foi na base do tu-turubim-tetê-tique-taque-tambarola. Este álbum é um canto de amizade, porque como diz Jorge Amado, amigo é pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do peito. Podem escrever o que quiserem, usem esse álbum como uma tribuna livre. O importante é que escrevam o que sentem, sem nenhuma censura".

]NA ESCOLA

Do Álbum 1, extraímos o seguinte texto, cuja colocação dos pronomes deve ter, seguramente, recebido a assessoria do meu prefeito, que tem raiva dos indigentes: 

"Querida colega! É com imenso prazer que escrevo neste Precioso Relicário. Para quando mais tarde, abrires este, encontrarás gravado o tempo mais feliz que passamos juntos na nossa mocidade. Nunca vou esquecer de você, minha amiga, tão boazinha, todos os dias trazendo um presentinho para nossa professora. Nunca vou esquecer de você, tão generosa, trazendo sempre para a escola uma merendinha - pão com ovo frito - para a filha da diretora. Recebe todo meu afeto (Assinado) Katya Cylene".

O texto do Álbum, nº 2 começa poético e termina agressivo: "Querida colega, se em cada momento que eu em ti pensasse, uma estrela do céu se apagasse, não haveria no firmamento uma estrela que brilhasse. Da tua amiga que não esquece da luta que tivemos contra aquela professora mandona, em Manacapuru, aquela que te deu uma vez um cascudo, porque tu puxaste a trança da filha dela na hora de cantar o Hino Nacional. Espero que continuemos unidas para tomarmos a merenda da filha da diretora. (Assinado) Farid"

NA RUA

Os amiguinhos da rua também deixaram o seu pensamento. No Álbum nº 1, o depoimento mais comovente foi esse:

"Querida vizinha, quero apenas escrever-te isto. Se o mar é interminável, assim será a nossa amizade. Se o diamante tem um brilho ofuscante, eu quero que a nossa amizade jamais deixe de brilhar, como um diamante, em nossos corações. Devemos fazer qualquer coisa para vencer na vida, mesmo se tivermos de andar por caminhos tortuosos e sendas da ilegalidade. (Assinado) Guidinho".

No Álbum n° 2, selecionamos entre tantos outros o seguinte escrito: 

"Querida vizinha, agradeço, com todo o meu coração, a tua gentileza. Obrigado por me escolheres, entre tantos amigos, para escrever algo em teu precioso relicário, que possa lembrar a tua mocidade em flor, quando esta já estiver distante. Eu te admiro muito, porque tu, que adoras picolé de buriti, não aceitaste o que te ofereceram para que enganasses a Farid. Com o teu gesto, tu nos ensinaste que não devemos nos vender. (Assinado) Salim Adib. 

NA FAMÍLIA

Muitas primas, primos, irmãos, e até tios escreveram nos dois álbuns. Tivemos também que selecionar do Álbum nº 1 o que segue: 

"Querida prima, é com o coração transbordando de alegria que escrevo neste pequeno relicário, que representa tudo para você. Prima, leia com atenção o seguinte: Não devemos esquecer que a mulher deverá ter um sorriso para todas as alegrias, uma lágrima para todas as dores, um consolo para todos os infortúnios, uma desculpa para todas as faltas, uma súplica para todas as misérias, uma esperança para todos os corações e uma justificativa para todas as burrices. Um dia, como profissional, compreenderás tudo o que escrevo" . (No final do texto, a data vinha toda rocambólica, toda cheia de bossa. O ano de 1957 é assim apresentado em colunas uma embaixo da outra): 

1000 alegrias

900 brotos

50 saúdes

7 votos

_____________

1957 felicidades.

 

Do Álbum nº 2, tiramos um texto curto e grosso, premonitório: 

"Mana querida, o sol prometeu à lua, um laço de cetim, e eu prometo a você, uma amizade sem fim, um dia você estará, com Arthur e Serafim". (Assinado) Soraya, a irmã que muito te quer.

ACRÓSTICO
Os dois álbuns terminam, cada um, com um acróstico diferente. No primeiro está escrito: 

Se a vida é

U m sonho, sonha! 

E se a vida é uma saudade com cheiro de manga

L embra-te de mim no Cine

Y piranga" 

(Assinado) Bebeto Capanga

 

No segundo acróstico, o poeta canta em um verso muito parecido: 

A h, se a vida é um zonho,

Z onha, Batrícia! 

I magina, se a vida é um zorisso, 

Z orri, Batrícia! 

E lembra-te de mim, aqui e no Cine Guarany!

 

(Assinado) Tufic

P.S. Cartas para a redação, dando os nomes das duas candidatas e dizendo a quem pertence cada álbum. Entre os vencedores será sorteado um prêmio: ser fotografado ao lado daquele delegado da PF, que está investigando o crime do colarinho verde, cujo nome, mesmo em sigilo, rima com "Bota no Toquinho".

 

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1 Comentário(s)

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Yara comentou:
10/08/2010
Navegando e procurando uma crônica ou artigo que dissesse sobre Formalidades - serventias e bobagens, mas ainda não encontrei. Aproveito para elogiar e dizer que lembrei-me dos albuns famosos embora em 1950 tivesse quatro anos, mas os albuns viveram por muito tempo e parabanizo-o pelas cronicas. Uma pergunta: Porque só as grifadas de azul podem ser lidas? Yara, da Bahia, do Brasil.
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