CRÔNICAS

NATAL SEM PERU E PIRÃO

Em: 24 de Dezembro de 1986
Tags:
Visualizações: 1920
O que é que você vai comer nesta ceia de natal, leitora? Einh? Einh? Peru tender? Presunto desossado? Pernil? Bacalhau? Filé ao molho de champignon? Nozes? Castanhas-do-Pará? Passas e figos secos?
Para obter a resposta, precisamos saber quem é você, leitor (a) anônimo (a): seu grau de escolaridade, sexo, idade, gostos, tendência política e, sobretudo, quanto você ganha por mês e quanto deixa de ganhar,
Por isso, decidimos contratar os serviços do IBOPE-TV Globo para que realizassem uma pesquisa de opinião destinada a definir o perfil do leitor desta coluna presente há mais de um ano neste espaço, todas as quartas-feiras. Desta forma, com o perfil traçado, saberemos o que vai comer ou deixar de comer nestas festas de fim de ano.
Jaraqui
A pesquisa do IBOPE concluiu que 82,63% dos leitores desta coluna são alfabetizados, o que nos orgulha enormemente, pois esse é o maior índice de leitores alfabetizados da imprensa baré (Algumas colunas em Manaus são lidas por 99.67% de analfabetos e apenas por 0.33% de alfabetizados). No entanto, existe o perigo de crescer a porcentagem de nossos leitores analfabetos, se iniciarmos a publicação de nossa primeira epístola aos corintianos.
Cerca de 62.61% dos nossos leitores pertencem ao sexo feminino, daí porque nos dirigimos preferencialmente a elas e só secundariamente aos homens, que representam 34.20% do nosso leitorado. E os 3.29% restantes? Bom, esses pertencem à minoria discriminada.
A idade dos nossos leitores cobre a faixa etária dos 7 aos 75 anos, mas a maior concentração, por incrível que pareça - o IBOPE não erra - está entre os 50 a 60 anos, talvez pelas constantes referência que fazemos aqui a Manaus antiga.
Finalmente, a renda média mensal do nosso leitor oscila entre um a sete salários mínimos.  Diante da pergunta: entre comprar um bifão acebolado e uma camisa nova, o que você escolhe? Cerca de 92.53% dos entrevistados respondeu sem pestanejar: um bifão. Esta porcentagem aumentou para 98.65%  quando na pergunta se substituiu bifão por jaraqui frito com baião- de-dois. Entre um carro do ano e uma viagem de férias com a família, 2.35% optou pela viagem se o destino for Urucurituba, 53.42% se for para Fortaleza, 86.54% para o Rio de Janeiro e 99.99% se for para Paris.
Um mutum
Portanto, leitor (a) enquanto neste momento em que você me lê estou em tuas mãos, você também agora está nas minhas. Já tenho o teu perfil: você é alfabetizado e gozador, maduro sem ser velho, gosta dos prazeres da carne (e do peixe também), ganha pouco, mas adora comer bem valorizando o produto da cozinha regional. Politicamente você se situa mais à esquerda do que à direita (na Pesquisa do IBOPE diante da pergunta: por que o senador De Carli está na berlinda? a resposta unânime de 100% dos entrevistas foi um palavrão).
Agora vai ser relativamente fácil definir qual a comida que estará presente em tua ceia natalina.
Carne bovina, peru ou galinha? Nenhum dos três.
Em primeiro lugar, porque com os preços exorbitantes, a escassez, o ágio e o gatilho que não dispara, você - que está na maior pindaíba - não tem cacife para comer peru, galinha ou carne.
A carne você não pode comer porque o espírito é forte.
A galinha, porque a dupla Funaro-Sarney não deixa. Como naquela brincadeira de criança, o povão está todo na fila gritando:
- Quero comer galinha assada.
O Sarney e o Funaro, representando os gaviões, pulam de um lado para o outro gritando:
- Não há de comer, não há de comer.
Além disso, a carne de boi, a galinha e o peru não são produtos regionais. O boi foi trazido do Cabo Verde para a ilha do Marajó no séc. XVII. Desconhecido pelos povos amazônicos, o pintinho foi introduzido no Alto Solimões pelo espanhol Francisco Orellana durante sua viagem pelo Amazonas em 1541. Daí em diante, os índios Omagua passar a criar galinha. Agora, elas sumiram (os Omagua também). Só com ágio.
E o peru? Bom, ele também não é daqui, marinheiro só, embora o primeiro cronista Gaspar de Carvajal tenha jurado que viu perus no séc. XVI desfilando na várzea do rio Amazonas. Na verdade, hoje nós sabemos que o que ele viu não foi o peru, mas o mutum porque - ainda que ambos sejam aves galináceas - o primeiro gorgoleja ou grugruleja, enquanto o segundo, bem amazonense, apenas geme e assobia. Desta forma, quem introduziu o peru na Amazônia foram os portugueses e até hoje nós ainda estamos sofrendo por causa disso.
Claro, estamos sofrendo com a introdução do peru,  porque por causa dele ninguém mais pensou em criar mutunsm que procriam em semi-cativeiro. Sem peru e sem galinha, sem mutum - sequer um mutuzinho de várzea ou um mutum-pinima - você não pode comer neste natal galináceo, leitor (a). Não vai poder brincar com o "ossinho da sorte". A não ser que não seja preconceituoso e encare um urubu.
Pirarucu
Se nós fomos colonizados pelos portugueses, por que não bacalhau? Em Portugal, a ceia de natal é na base do bacalhau. Há cinco anos, o escritor Márcio Souza passou as festas natalinas em Lisboa e testemunhou uma tragédia registrada pelos jornais lusos do dia 20 de dezembro de 1981. Ele e uma brasileira que o acompanhava, Maria José, leram a manchete:
"ROUBO DO SÉCULO: 10 TONELADAS DE BACALHAU SURRUPIADAS PELOS AMIGOS DO ALHEIO" (Não, leitor (a), pelo amor de Deus, não exagera: o De Carli nem sequer estava lá. Ele tem um álibi: nessa época estava dirigindo a massa falida das Fazendas Unidas).
Enquanto  a imprensa portuguesa lamentava o natal arruinado pelos ladrões de bacalhau que assaltaram um comboio de caminhões carregados do produto, Maria José sintetizou toda a dor do povo luso usando uma expressão muito em moda no Brasil: "Natal sem bacalhau? Nem morta, filha!". Como a portuguesada não entendeu bulhufas, Márcio traduziu: "Nem falecida, cachopa!" (pronuncia-se "nem flecida").
Portanto, agora te pergunto: vai ter bacalhau à tua mesa neste ano? Resposta: Nem falecida, cachopa! Ele está de fora pelas mesmas razões do peru, da galinha e da carne: o Plano Cruzado, o salário baixo, o ágio, a dupla Funaro-Sarney e o demagogo do Pazianotto - aquele que tem um sinalzinho debaixo do buraco do nariz.
Quem não tem bacalhau come pirarucu? A leitora que faz compras sabe que o pirarucu desapareceu do mercado. O delegado da SUNAB, o equilibrista Oyama Ituassu, confirmou que o Amazonas vai importar pirarucu do Peru, de uma safra pescada nos rios Marañon e Ucayali. Mas o pirarucu importado está chegando aqui por um preço exorbitante que você, leitor (a), não pode pagar. Assim, não tem pirarucu de peruano que aguente.
Só tem mesmo uma saída: partir para a farinha de mandioca, planta domesticada aqui na Amazônia pelos índios, há mais de 5.000 anos. Para o teu consolo, para você que gosta de comer bem e variado, informamos que a pesquisadora do INPA Janete Chernella registrou 137 variedades de mandioca em apenas quatro aldeias do Alto Rio Negro, o que foi confirmado por um banco de germoplasma situado em Brasília.
Isso significa que você tem pelo menos 137 opções e pode ainda combiná-las fazendo uma pasta grossa com água fervida, sal, cebola e pimenta do reino: o pirão. Coma pirão neste natal e acumule raiva contra a "Nova República"  que não dispara o diabo do gatilho salarial.
Na impossibilidade de te desejar votos de um feliz natal, porque todos os nossos votos foram roubados e, além disso, consciente de que você não encontrará nada deixando seus sapatinhos na janela à espera de um presente que não virá, a coluna te aconselha a não gastar tuas economiazinhas e tua poupança pagando ágio por produtos europeus. O que fazer, então?
"Neste Dia de natal
Bote a poupança na janela
Papai Noel vai passar
E vai meter picica nela!"
RECADO - Acusado de corrupção por Mário Frota, Carlos Alberto De Carli se defendeu em artigo publicado ontem em A CRÍTICA e citou o nosso último artigo "Procura-se um senador" dizendo que estamos "em conluio" com outras pessoas, cujos nomes não diz. Ameaça nos processar. Neste dezembro, a nossa coluna semanal completa um aninho de vida. Durante esse tempo, nos esforçamos para arrancar um processinho contra nós, criticando quem está no poder. Nas ruas, leitores decepcionados, indagam:
- Como é que é? Quando é que você vai ser processado por alguém que se sinta injuriado?
Humilhado, eu baixava a cabeça, porque ninguém achava que eu merecia um ação judicial. Agora, estou orgulhoso e de cabeça erguida. Parece que agora o processo sai. Dona Elisa, soberbíssima, mais pavoneada que dondoca quando aparece em coluna social, deu um toque para sua vizinha Leonor, vendedora de bananas:
- Meu filho vai ser processado pelo De Carli.

O recadinho que envio para ele: estou morreeeeeeendo de medo, estou com rugas de preocupação. De qualquer forma, é melhor ser condenado com Felix Vallois, Arnaldo Carpinteiro Peres e Mário Frota do que ser "inocente" ao lado do De Carli. Quer saber de uma coisa, Carlos Alberto? Vai cheirar teu pé, vai..

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário