CRÔNICAS

DONA ELISA EXISTE

Em: 23 de Março de 1987
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DONA ELISA EXISTE
(Crônica, com pequenas modificações, publicada em A CRÍTICA, em 23/03/1987)
 
Ela odeia bancos. Como evitá-los? Assinou procuração em nome de uma de suas filhas e se viu livre deles. No entanto, as fraudes no INSS agora exigem recadastramento de todos os pensionistas. Na segunda-feira passada, foi obrigada a ir pessoalmente à agência do Banco do Brasil, na Rua Guilherme Moreira, para provar que existe e, desta forma, garantir a pensão (mixuruca) do finado. Entrou na fila. Esperou. Chegou sua vez.
- Carteira de identidade, por favor!
A moça do caixa recebeu o documento e leu o nome em voz alta:
- Elisa Bessa Freire.
Aí, conferiu a foto e, admirada, exclamou:
- Ah, mas a senhora existe mesmo?!
Dona Elisa confirmou, arrrrranhando o "r", que é o que sempre faz quando quer fazer charme:
- Porrrrrrr que essa dúvida? Claro que eu existo. Não sou nenhum fantasma.
- Não, não é isso não, meu bem. Fique tranquila. É outra coisa. Eu leio toda semana aquele jornalista que escreve n'A CRÏTICA. Ele fala sempre numa dona Elisa, mas pra mim era personagem de ficção. Pensava que dona Elisa era uma invenção. Agora descubro que existe com o mesmo sobrenome dele.
Quando ela fica orgulhosa ou com raiva, seus olhos mudam de azul para verde. Com os olhos já esverdeados - e não era de raiva - dona Elisa retrucou, enchendo a boca com o pronome no lugar certo:
- Não, não foi ele que me criou, não. Foi o contrário: eu o criei. Ele é meu filho.
A moça puxou papo. Discutiram sobre literatura, arte (culinária), economia (doméstica), política nacional e local, custo de vida, salários, inflação, situação dos aposentados, educação de filhos, a telenovela Roda de Fogo. Trocaram receitas e figurinhas (e a fila esperando...). Dona Elisa falou sobre o gosto que o jerimum caboco ("parece pupunha, menina") dava ao seu feijão. A moça do caixa anotou, mudou de conversa e falou que não gostou das últimas crônicas sobre a história de Manaus: "estão muito sérias". Aconselhou:
- Diga a seu filho prá voltar a escrever como antes. E acrescentou simpática: "como quando fala da senhora". Dona Elisa deu-lhe todas as garantias do caso:
- Deixa comigo. Vou falar com ele. Pode ler na próxima semana.
Despediu-se e saiu, toda empinadinha, consciente de que havia provado sua existência.
Pensa, logo existe
Dona Elisa, portanto, existe mesmo, leitor. De carne e osso. Ela é, com o perdão da má palavra, a genitora desse que batuca essas mal traçadas linhas.
Essa coluna não é privada, para tratar de assuntos particulares. É pública. Acontece que dona Elisa também tornou-se um personagem público, na medida em que, de mansinho, quase sem querer, foi se intrometendo na coluna semanal, metendo o seu bedelho, fazendo comentários mordazes e maliciosos sobre a situação política, os problemas da cidade e os grandes temas nacionais.
Quase todas as frases de dona Elisa, lidas nesta coluna pela moça do banco, foram realmente ditas pela autora, em petit-comité, como diria aquele cronista social. Neste caso, só faço transcrevê-las. Algumas, no entanto, são imaginadas, têm algo de "licença poética". Dona Elisa já tomou alguns sustos, quando leu no jornal palavras que nunca pronunciou. Aí, ela finge ficar zangada:
- Menino, você tá ficando doido, é? Não me mete em confusão. Eu não disse nada daquilo sobre o Gilberto Mestrinho.
- É. Não disse, mas pensou. Pensou ou não pensou?
- Bom, pensar eu até que pensei, mas falar não falei.
Mais uma prova, cartesiana, de sua existência. Dona Elisa pensa, logo existe.
Na bunda, não!
Sua existência foi enriquecida por muitas lutas, três das quais vou te contar hoje, leitor, se tiveres paciência para me escutar. São três cenários diferentes: o bairro, a igreja e o sindicato.
No início da década de 50, o Diarinho - o Diário da Tarde, da Empresa Archer Pinto - era vendido no bairro de Aparecida por um jornaleiro de nome Raimundo. Um dia ele não resistiu e, sem pedir licença, passou a mão na, com o perdão da palavra, bunda de uma das filhas de dona Elisa. Uma alisadinha besta, boba, quase respeitosa. No entanto, nenhuma das duas entendeu o gesto como uma homenagem calipígia. A filha ficou humilhada. Dona Elisa, indignada.
Na tarde seguinte, lá vem ele adentrando o Beco da Bosta, gritando: "Diário! Olha o Diário!". Dona Elisa é discreta, não gosta de chamar atenção, detesta escândalos. Mas, leitores, eu vi, suas narinas expeliam fumaça e os seus olhos disparavam chispas verdes e não era de orgulho. Chamou de cima da calçada, com voz mansinha, quase bondosa:
- Vem cá, meu filho. Me dá o Diário.
O Raimundo, um cabocão atarracado, que meses depois se alistaria no Exército, de nada desconfiou. Chegou perto, desprevenido. Colocou o pacote na calçada e se abaixou para pegar um exemplar. Estava sem camisa. Aquela mulher magrinha e miudinha virou uma onça. Deu um bote e pendurou-se no pescoço dele, aplicando-lhe uma "gravata", energicamente, com o braço esquerdo. Um pedaço de pau na mão direita golpeou uma, duas, trinta, cinqüenta vezes o quase-soldado, que pulava e berrava que nem cabrito. Juntou gente pacas. O jornaleiro virou notícia. Saiu chorando, o corpo todo lanhado.
(Com todo respeito mas a, com o perdão da palavra, bunda da minha irmã, não merecia tanto. Talvez esse tenha sido o mais caro alisamento da história da humanidade).
Dona Elisa, então, deu uma ciscadinha, olhou para a pequena multidão e, com fins pedagógicos, cacarejou:
- Não me meto na vida de nenhum vizinho. Não gosto de briga. Mas quero respeito. Estou avisando pro bairro todo: quem tocar num filho meu, leva pau.
Aí né, fechou o bico, botou todos os filhos debaixo das asas, entrou, trancou a porta, enquanto a turma do dominó da taberna da dona Baty aplaudia. A, com o perdão da palavra, bunda de sua filha estava vingada. A honra fora lavada com sangue. Quanto ao Diarinho, nunca mais entrou no Beco da Bosta.
Nesse ambiente, dona Elisa criou 13 filhos. Botou os quatro homens para brincarem no "Coringa", o boi do Lauro Chibé, acreditando que "menino que dança em boi, não é nem nunca foi". Nenhum deles foi acusado de maconheiro ou ladrão. E as nove mulheres, todas Filhas de Maria, casaram direitinho com namoro na porta em hora pré-determinada, o que pode ser atestado pela dona Alvina, a tacacazeira que tinha banca na Xavier de Mendonça com a Alexandre Amorim.
(Ah, leitora, a dona Alvina Tacacazeira! Um jornal vivo! Uma verdadeira instituição! Fofoqueira com consciência profissional e credibilidade na praça; checava pessoalmente todas as informações que divulgava. Não se faz mais jornalistas como as antigas tacacazeiras. Um atestado verbal de virgindade da dona Alvina valia muito mais do que papel assinado por ginecologista. A dona Alvina merece uma crônica só prá ela).
"Aquilo" sim
Melhor do que banca de tacacazeira, só mesmo porta de igreja, local estratégico para o intercâmbio de informações. A teoria da comunicação denomina isso de "funcionamento dos vasos comunicantes", mas dona Alvina prefere chamar mesmo de "troca de fofoca".
Pois bem, um dia, na saída da missa, uma senhora do Apostolado da Oração, se aproxima, faz três sinais da cruz com água benta e dispara um comentário fulminante:
- Dona Elisa, a senhora sabe que eu não sou baú para guardar segredo. Tá todo mundo por ai dizendo que o seu filho é "aquilo".
Dona Elisa empalideceu. A acusação era extremamente grave. Para o código linguístico de porta de igreja pré-conciliar, "aquilo" era pior do que fiu-fiu ou maconheiro. Negou com veemência:
- Não senhora. Ele não é, não foi e nunca será "aquilo". Meu filho foi da Cruzada Infantil, foi acólito, seminarista. É um bom cristão, temente a Deus.
- Então, me diga, por que ele foi preso? Os militares só estão prendendo quem é "aquilo".
- Ele foi preso porque tem fome e sede de Justiça. A senhora não conhece o Evangelho? "Bem-aventurado os que sofrem perseguição por amorrrr à Justiça, porrrrrque deles é o Reino dos Céus. Passarrrrrrr bem".
Na rua, defendeu sua cria, mas chegando em casa, esculhambou com o "bem-aventurado": "meu filho, você não é a palmatória do mundo. Cuidado! Já estão chamando você de "aquilo". (Ela também, para não sujar a boca, para não se contaminar, preferia usar "aquilo" no lugar da palavra comunista).
Quem TV
Estamos em novembro de 1983. O então governador, "professor" Gilberto Mestrinho, manda reprimir com violência os seus "colegas" da APPAM que lutavam para melhorar o salário. Demite 80 líderes do movimento, entre os quais, dois filhos e dois sobrinhos de dona Elisa. A Bessarada fica em polvorosa, parecia um formigueiro depois de uma descarga de formicida. Os professores ocupam, então, a Igreja de São José e fazem uma greve de fome.
No segundo dia, numa assembleia realizada na própria igreja de São José, foi criado o CMPD - Comitê de Mães dos Professores Demitidos. Dele faziam parte dona Elisa e sua irmã, Helena. As mães percorreram jornais, rádios e televisão. Num desses programas de TV, com grande audiência na periferia, elas entraram no ar depois da distribuição de dez dentaduras para moradores da Compensa e de uma cadeira de rodas para um paraplégico do Coroado. A câmera focalizou seus rostos angustiados, enquanto tocava música fúnebre, numa perfeita integração da imagem com a sonoplastia. O animador do programa, um lupércio desses qualquer, pergunta:
- Quantos filhos a senhora teve, dona Elisa?
A câmera dá um "close" no rosto dela, mostrando os olhos verdes indignados:
- Treze, todos eles professores, pobres mas honrados. Dois demitidos.
- Por que foram demitidos? Insiste o apresentador.
- Porrrrrrque foram educados por mim. Sempre ensinei a eles que não deviam ser individualistas e egoístas, que deviam se preocupar com o próximo, que deviam combater a injustiça e a fome, que deviam lutar para melhorar o mundo.
Nós assistimos a entrevista num televisor na sede da Associação de Professores do Amazonas (APPAM), ali na Praça XIV. Os professores, apinhados numa salinha, gritavam entusiasmados:
- Bote no tôco, dona Elisa!
E ela botou mesmo, com um discurso inflamado. O governador acabou recuando e readmitiu todos os demitidos. Aí, a chegada dela no bairro foi triunfal. A Leonor foi recepcioná-la na entrada do beco:
- É isso aí, dona Elisa. A senhora falou bonito. Parecia até a deputada Beth Azize.
Ela gostou, porque sempre votou na Beth.
Com o tempo, dona Elisa foi sabiamente mudando o seu discurso. Antes, ela dizia: "Meu filho, você não pode mudar o mundo. Vai cuidar da tua vida. Tira o FGTS. Compra uma casa do BNH. Cria juízo, meu filho. Não te mete em confusão. Você é muito encrenqueiro, José".
Na prática, no entanto, em vez de cuidar de sua própria vida, ela também vive fazendo AQUILO. Aquilo que ela acha que pode ajudar a mudar o mundo - o seu mundo - e diminuir o sofrimento dos outros. Milita na Pastoral da Saúde, fabrica remédios - umas senhoras garrafadas - expede receita por conta própria, visita os doentes do bairro, confortando-os, aplica injeções, ensina catecismo, distribui conselhos, paga o dízimo, faz o ranchinho semanal dos carentes, cuida dos netos, perdoa a Preta por esvaziar diariamente sua garrafa térmica de café, dirige novena e hora-santa e reza prá cacete.
Você tem mãe?
Desculpa o mau jeito, mas você tem mãe, leitor? Então vai compreender o meu drama. Acontece que dona Elisa completa hoje 70 anos de idade. O que fazer? Um daqueles artigos lacrimosos, homenageando a "rainha do lar com o avental todo sujo de ovo"?
Não posso, porque a literatura, como disse o poeta, corrompeu os melhores momentos da minha vida. Em troca, te ofereço essa colcha de retalhos que estás terminando de ler. Elas falam de uma pessoa adorável e autoritária, briguenta e afável, delicada e enérgica, dotada de inteligência e muito humorrrr, que educou seus filhos, mas soube deixar-se educar por eles. Dona Elisa, mãe, como a tua, leitorrrr, como tantas, como milhões de heroínas anônimas que cotidianamente, miraculosamente, constroem esse Brasil.
Vocês se importam, leitoras e leitores, se a gente dedicar essa crônica aos 70 anos de existência da dona Elisa? Afinal, está provado: dona Elisa existe mesmo.

 

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2 Comentário(s)

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Ilton Jornada comentou:
24/10/2010
Acabo de receber um magnífico presente. Caso tivesse acontcido há dois anos não teria tido uma bruta depressão que quase me fez bater as botas. Aguardo com ansiedade a abertura dos demais links. Não tive a felicidade de JRBF: minha dona Angêla viajou antes do combinado quando eu tinha 6 anos. Gracias, amigo Bessa. Ilton Jornada
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André Ricardo comentou:
04/03/2010
Li mais essa E faça o favor de agilizar a abertura dos links das demais crónicas. A Sefaz tá em greve e não tenho nada pra fazer.
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