CRÔNICAS

MOÇO, QUAL É O PÓ?

Em: 22 de Agosto de 1991
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Eu nunca vi homem de renda e de filó. Daí a surpresa, quando ele entrou vestido com aquela camisa bordada. O tecido era o mesmo da roupa das cinco meninas que o seguiam em fila pelo corredor, acompanhadas da mãe. Mas os óculos escuros, mas o gingado de cauboi, mas a cara fechada não deixavam dúvidas para nenhum passageiro quem era o chefe daquela família uniformizada que ocupou os últimos assentos do ônibus. Macho pacas!

O ônibus, da Viação Colibri, todo desconjuntado e sujo, saía naquela manhã de agosto de Porto Velho a Cuiabá, sacolejando pela rota do pó, a trans-coca, tantas vezes trilhada pelos narcotraficantes. O "cata-corno" da Colibri ia pescando, nos terminais rodoviários de cada cidadezinha, os desgarrados da vida: garimpeiros, colonos, peões, bóias-frias e migrantes que, carregavam suas tralhas, zanzando como formiguinhas pra lá e pra cá. Gente descia, gente subia. Ele continuava. De óculos raibán, comandava sua família. Antes de Ariquemes, descobri o seu nome, porque a cada instante a senhora lhe dizia:

Magnum, vigia o "borná". Magnum, passa o "borná".

O "borná" era uma sacola de pano com farinha e rapadura, distribuída parcimoniosamente às meninas, cujos nomes fiquei sabendo entre Ariquemes e Jaru: Rosenda, Rosicler, Rosali, Rosilda e Rosilene.

Uma das flores do roseiral, barrigudinha e catarrenta - acho que era a Rosilene - se empanzinou com farinha e bebeu mais água do que bêbado de ressaca. Numa das voltas do ônibus pela buraqueira, levantando um poeiral vermelho, ela vomitou uma pasta amarela e três lombrigas, uma das quais deslizou para baixo do meu assento, no outro lado do corredor. Magnum, carinhoso, segurava a cabecinha dela e, sabido, consolava:

Eu avisei que não era pra beber água, que ia "chocaiá" na barriga.

Protestei com o motorista contra aqueles três novos incômodos passageiros que não pagaram bilhete. Apesar disso, as lombrigas viajaram ainda por duas cidades, até Ji-Paraná, onde a Viação Colibri tem garagem. Uma hora e meia de espera na Rodoviária para regular os freios e dar uma sepultura cristã aos ascarídeos.

- Magnum, olha o "borná". Magnum, segura a mão da Rosenda. Magnum, a Rosicler está chorando.

Magnum, a consciência da responsabilidade de chefe. Magum, solicitado, querido e requerido. Magnum amparando, socorrendo e defendendo todo o roseiral. Magnum, galo de crista levantada, protegendo os pintinhos do galinheiro. Magnum, pavoneando-se com os óculos raiban: cocoricó. Magnum, forte e viril. Magnum, a autoridade. Magnum.

Na saída de Ji-Paraná, toda aquela fortaleza se desmorona. Magnum esquecera os óculos escuros na Rodoviária. Parece que sem óculos, perdia sua energia vital, não passava de um Sansão careca. Surpreendentemente, começou a chorar, com soluços desgarradores. Cadê aquela força e determinação? As lágrimas exibiam sua fragilidade, mostrando o que realmente era: apenas uma criança de dez anos, o primeiro filho, obrigado a amadurecer precocemente, o braço direito da mãe sem marido, que agora tentava inutilmente consolar o seu menininho, o seu homem. Rosilene, a catarrenta, solidária, alisava com seu dedinho o braço do irmão.

Na Rodoviária de Presidente Médici, o roseiral desceu, uniformizado, e da janela do ônibus ainda vi o Magnum, envelhecido, com seu gingado de cauboi e sua camisa bordada, diminuindo, diminuindo, até desaparecer no poeiral, carregando, sem saber, o seu heroísmo anônimo e cotidiano.

Novos baianos
O ônibus da história não podia parar. Os assentos do roseiral foram ocupados por uma família de baianos: avó, dois filhos casados - Waldeci e Ubaldino - e uma porrada de meninos. A baianada inundou o ônibus de alegria. Falavam alto, davam gargalhadas, escancaravam, contavam histórias. A avó, de vez em quando, sem nenhum pudor, pipocava umas flatulências sonoras e fétidas, que eram comemoradas no banco de trás pelos netos debochados com gritos de "Gooooool do Brasil-il-il".

Tapei o nariz, tirei caneta e papel e fui anotando discretamente: eles tinham vindo do Nordeste nos anos setenta. Waldeci veio na frente, caiu na mineração, faiscou nos igarapés e bateu nas catas, lavando cascalho, passando pelos rios Machado, Machadinho, Jamari e Candeias. No garimpo, aprendeu a tratar piolho com mercúrio. Santo remédio! Quando chegou Ubaldino, anos depois, eles se instalaram em vinte alqueires de terra, casaram, se reproduziram, mandaram buscar a mãe: a velha com alegria gástrica. Plantaram feijão, milho e arroz e se ferraram com os preços, pegaram cada um umas quinze malárias, faliram. Agora, estavam fazendo o caminho de volta. Um deles, grave, me cutucou com o cotovelo e filosofou:

- Professor, Rondônia já foi. Hoje não é mais.

Depois de uma rajada de metralhadora, a vovó decidiu fazer o que devia ter feito desde o início: ir ao banheiro. Já próximo de Cacoal, uma freiada brusca, a porta mal fechada do banheiro se abre e a vovó desliza pelo corredor até quase os pés do motorista, com a calcinha no meio das pernas. A baianada explodiu em gargalhada, enquanto a vovó se queixava que o banheiro estava entupido.

Escurecia. De Cacoal até Vilhena, passando por Pimenta Bueno, um dos baianos, com uma banana na mão servindo de microfone, imitava a voz cavernosa do locutor Gil Gomes, do programa "Aqui e Agora". Entrevistava passageiros, querendo saber a opinião de cada um sobre as causas do entupimento do banheiro.

- A Po-lí-cia já des-co-briu quem dei-xou lá den-tro aquele to-le-tão.

A minha descida em Vilhena, às duas da madrugada, foi triunfal, filmada pelas câmaras do SBT e narrada pelo Gil Gomes:

- Nes-te mo-men-tô, eu digô e repitô, nes-te mo-men-tô está des-cen-do ô ho-mem que en-tu-piu ô ban-hei-rô: ô professor de Ciências Ocultas.

Ri. Rimos. Me despedi da baianada. Fui a Vilhena para dar um curso de História do Amazonas para os agentes de pastoral da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e acabei recebendo muitas lições num curso intensivo de 16 horas no ônibus da Viação Colibri: migração, verminose, malária, subnutrição, garimpo, cassiterita, crédito agrícola, preços, estrutura fundiária, relações familiares, exploração e solidariedade.

O Brasil continuou rodando, desenraizado, pela rota do pó, em direção a Cuiabá, levando os esquecidos, os deserdados e os sobreviventes da BR-364. E eu fiquei, diminuindo, diminuindo, como o Magnum, sem compreender como é que a gente não consegue construir um país decente, tendo um povo capaz de enfrentar tanto trabalho, sofrimento e dor com inteligência, alegria, criatividade e bom humor. Cadê os meus óculos? Roubaram os meus óculos.

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