CRÔNICAS

AS AVENTURAS DE JEAN FRÉBOURG (SEGUIDA DE VERSIÓN EN ESPAÑOL)

Em: 19 de Outubro de 2008
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(De Paris) – Sem qualquer pena ou remorso, corte o coelho em pedaços, pincelando-os discretamente com mostarda de Dijon. Deixe-os em uma porção de óleo. Enquanto isso, ferva uma garrafa de vinho branco com alho cortado, louro, tomilho, cenoura e um pouco de açúcar. Derrame sobre os pedaços de coelho, já dourados, o vinho branco quente. Bote sal, pimenta e deixe cozinhar em fogo brando durante uma hora. Numa tigela, misture creme, salsinha e uma colher de sopa de mostarda. Cubra o coelho com o creme de mostarda. Sirva quente aos amigos de seu filho.
Foi mais ou menos assim – mais ou menos porque a receita tem seus segredos – que em 1971, em Paris, o casal Jean e Ninette Frébourg preparou um coelho, convidando para jantar alguns amigos do filho Jean-Claude. Nessa época, em plena ditadura militar, mais de dois mil brasileiros viviam exilados na França. Um deles era esse que digita essas mal traçadas linhas, em cuja memória gustativa permanece até hoje o coelho, num lugar de honra, ao lado dos sabores de tambaquis, pirarucus, jaraquis e ceviches.
Naquele então, muitos franceses compartilharam, generosamente, com os brasileiros, o pão, o queijo, o vinho e o dom da amizade, que eles sabem tão bem cultivar com sofisticadas receitas. A família Frébourg manteve a casa sempre aberta, a mesa farta e o carinho constante. Embora esses encontros fossem temperados por tantas histórias, só agora, quase 40 anos depois do coelho na mostarda, é que tomei conhecimento de detalhes da vida de Jean Frébourg, lendo seu livro recém publicado: ‘Aventures d’un jeune fécampois’.
Guerra e Paz
Jean se documentou bem para escrever o livro. Recolheu depoimentos orais de familiares e registros escritos nos arquivos de Ruão desde o século XVIII. Conta que os Frébourg eram pescadores em Fécamp, um povoado na região marítima. Ensinavam a profissão de pai pra filho. Em várias gerações, muitos homens, como nas canções de Dorival Caymi, partiram para o mar e nunca mais voltaram, deixando suas mulheres fiando e tecendo em silêncio. Por isso, para evitar naufrágios e afogamentos, Jean seguiu outra profissão. Foi ser professor.
O livro é, na verdade, um diário que começa em janeiro de 1940, quando Jean, estudante na Escola Normal de Ruão, foi convocado para a 2ª Guerra Mundial, alguns meses depois da invasão da Polônia pelas tropas de Hitler. Ele deu adeus à família – a despedida é discreta, mas comovente – e se incorporou ao Exército, onde raspou a cabeça, vestiu farda, aprendeu a marchar e a dar continência. Devido aos estudos que tinha, foi servir como oficial de reserva na Escola de Artilharia.
A partir daí começam suas aventuras, relatadas sem grandes gestos heróicos, com comentários sóbrios, discretos, bem-humorados e, freqüentemente, com fina ironia e até mesmo com certa qualidade literária. “O livro não foi escrito para impressionar o leitor”- comenta o filho Jean-Claude – mas “para satisfazer a curiosidade dos meus filhos e netos, sem qualquer pretensão literária”- acrescenta o autor.
Em maio de 1940, Jean participa de treinamento em Fontainebleau. Em junho, quando fazia exercícios em Bordeaux, o exército alemão invade Ruão e Paris. Ele, então, aspirante a piloto, parte para a Argélia. Lá, caminha pelas ruas sinuosas e empinadas da capital, observa com um olhar etnográfico os costumes, as relações sociais, o mercado, a culinária, o outro, o diferente. Organiza cursos para jovens recrutas. No dia 1º de outubro, comenta, com fina ironia: “No momento, eu sou um aviador sem avião”.
História de amor
Duas vezes Jean passa, clandestinamente, a linha de demarcação, saindo da Argélia para entrar na França. Depois, bloqueado no sul da França, retorna à Tunísia, passando pela Espanha. É na capital da Tunísia que ele conhece “uma moça charmosa, Marie Antoinette, mais conhecida como Ninette. Nós começamos a namorar, encontrei, enfim, o grande amor”.
A família de Ninette, como muitos franceses, havia vindo da Córsega para trabalhar no Norte da África.  A relação amorosa que se estabelece entre os dois é tão intensa que a guerra fica em segundo plano. No dia 1º de setembro de 1942, Jean registra em seu diário: “A vida agradável, o sol, o céu azul, e o amor – tudo isso nos leva a crer que a guerra está quase acabando e a gente já fala até em casamento”.  Ele não sabia, mas a guerra estava longe de terminar.
Depois disso, Jean atravessa a fronteira com a Espanha, deixa com uns primos uma carta de amor escrita para Ninette, era quase um testamento que só devia ser entregue se ele morresse. Na Espanha, é preso em Pamplona e, depois, num campo de refugiados em Miranda del Ebro, imortalizada por tantos poetas. Ali, durante seis meses, come a baguete que o diabo amassou. Sem manteiga. Tem sanitário coletivo para 4.000 refugiados: “Cada privada é separada da outra por uma mureta de 20 cms. As pessoas se aliviam em grupo, sem pudor, conversando com o vizinho”.
Ele consegue voltar a Tunísia, encontra Ninette, com quem se casa, e parte numa viagem de lua de mel para Casablanca, para onde foi transferido, em um vagão de trem que transportava animais. O livro contém, entre outras, fotos do casamento Em dezembro de 1943, quando Jean freqüenta a escola de formação de pilotos da Royal Air Force, na Inglaterra, sofre uma grande decepção, não amorosa, mas culinária, com uma sopa insípida de coelho, preparada na pensão onde estava hospedado. Imagina! Aquilo lá era uma maneira de preparar coelho?  Ah, esses ingleses!
A guerra já terminando, Jean pilota um avião em direção a Paris, transportando material. Força a barra e sobrevoa, então, sua cidadezinha – Fécamp, onde estava sua doce Ninette. Num gesto mirabolante, dá um vôo rasante sobre a praça principal e atira – não bombas – mas uma carta com declaração de amor à mulher amada. Jean foi um homem comum, que soube equilibrar seus deveres de cidadão e de soldado com atitudes ternas e amorosas.
Au revoir, Jean
Segunda-feira, 13 de outubro de 2008, eu estava de passagem por Paris. Em companhia da amazonense Marilza e do franco-caboco Pascal Foucher, assisti a missa de corpo presente de Jean Frébourg. Durante a cerimônia, seus filhos, netos e sua nora, Beatriz, deram depoimentos comoventes. “Meu pai foi um homem honrado e íntegro, sempre presente em nossa educação”, disse Jean Claude que - agora eu sei - herdou o lado ‘mãe’ de seu pai, tão amoroso com os filhos.
Lembrei que o jornalista Jefferson Coronel me sugeriu recentemente escrever uma crônica sobre o que pensam os filhos dos políticos amazonenses sobre seus pais. Quantos deles poderão dizer com sinceridade essas mesmas palavras: “Meu pai foi um homem honrado”? A integridade de um homem reside não em ações épicas grandiloqüentes, mas justamente nos pequenos gestos cotidianos. Ou – quem sabe? - o épico pós-moderno talvez seja justamente isso.
Jean plantou árvores, teve filhos, escreveu um livro e, na guerra, pilotou aviões sempre em missão de paz, mantendo sua integridade. Através dele, fica aqui uma homenagem a todos os franceses que foram solidários com os exilados brasileiros. Au revoir, Jean. Descansa em paz. Ah, não posso esquecer: uma vez mais, obrigado pelo emblemático lapin à la moutarde, preparado pelas mãos da formosa Ninette e temperado à solidariedade. É “inoubliable” como todos aqueles pequenos gestos de ternura.
 
Taquiprati – Publicado en el Diário do Amazonas - Manaus
 José Ribamar   Bessa Freire – 19/10/2008
 
LAS AVENTURAS DE JEAN FRÉBOURG
 
(De Paris) – Sin pena ni dolor, corte el conejo en pedazos, untándolos discretamente con mostaza de Dijon. Póngalos en un poco de aceite caliente. Mientras tanto, ponga a hervir una botella de vinho blanco con ajo picado, laurel, tomillo, zanahoria y un poco de azúcar. Vierta sobre los pedazos de conejo, ya dorados, el vino blanco caliente. Coloque sal, pimienta y deje cocinar en fuego bajo durante una hora. En una fuente, mezcle crema, cilantro y una cuchara de sopa de mostaza. Cubra el conejo con la crema de mostaza. Sirva caliente a los amigos de su hijo.
Fue más o menos así – más o menos porque la receta tiene sus secretos – que en 1971, en Paris, la pareja Jean y Ninette Frébourg preparó un conejo, invitando a comer algunos amigos del hijo Jean-Claude. En esa época, en plena dictadura militar, más de dos mil brasileños vivían exilados en Francia. Uno de ellos era este humilde servidor, en cuya memoria gustativa permanece hasta hoy ese conejo, en un lugar de honra, al lado de sabores de tambaquis, paiches, palometas y ceviches.
En aquel entonces, muchos franceses compartían generosamente con los brasileños, el pan, el queso, el vino y el don de la amistad, que saben cultivar tan bien con sofisticadas recetas. La familia Frébourg mantuvo la casa siempre abierta, la mesa abundante y el cariño constante. Aunque esos encuentros fueron condimentados por tantas historias, solamente ahora, casi 40 años después del conejo a la mostaza, me enteré de detalles de la vida de Jean Frébourg, leyendo su libro recién publicado: ‘Aventures d’un jeune fécampois’.
Guerra y Paz
Jean se documentó bien para escribir el libro. Recogió relatos orales de familiares y registros escritos en los archivos de Rouan desde el siglo XVIII. Cuenta que los Frébourg eran pescadores en Fécamp, un pueblo de la región marítima. Enseñaban la profesión de padre a hijo. En varias generaciones, muchos hombres, como en las canciones del bahiano Dorival Caymmi, partieron al mar y nunca más volvieron, dejando a sus mujeres hilando y tejiendo en silencio. Por eso, para evitar naufragios y ahogamientos, Jean siguió otra profesión. Escogió ser profesor.
El libro es en verdad, un diario que comienza en enero de 1940, cuando Jean, estudiante de la Escuela Normal de Rouan, fue convocado para la 2ª Guerra Mundial, algunos meses después de la invasión de Polonia por las tropas de Hitler. Dijo adios a la família – la despedida es discreta, pero conmovente – y se incorporó al Ejército, donde le cortaron el pelo, vistió uniforme, aprendió a marchar y a cuadrarse. Debido a sus estudios, sirvió como oficial de reserva en la Escuela de Artillería.
A partir de ahí comienzan sus aventuras, relatadas sin grandes gestos heróicos, con comentarios sobrios, discretos, bien humorados y frecuentemente, con ironía y con cierta cualidad literaria. “El libro no fue escrito para impresionar al lector”- comenta el hijo Jean-Claude – sino “para satisfacer la curiosidad de mis hijos y nietos, sin cualquier pretensión literaria” - añade el autor.
En mayo de 1940, Jean participa del entrenamiento en Fontainebleau. En junio, cuando hacía ejercicios en Bordeaux, el ejército alemán invade Rouan y Paris. Entonces, aspirante a piloto, parte hacia Argélia. Allí, camina por las calles sinuosas y empinadas de la capital, observa con una mirada etnográfica las costumbres, las relaciones sociales, el mercado, la culinaria, el otro, lo diferente. Organiza cursos para jóvenes reclutas. El dia 1º de octubre, comenta con fina ironía: “Por el momento, soy un aviador sin avión”.
Historia de amor
Dos veces Jean pasa clandestinamente la línea de demarcación, saliendo de Argelia para entrar a Francia. Después, bloqueado en el sur de Francia, retorna a Túnes, pasando por España. Es justamente en la capital de Túnes que conoce “una joven encantadora, Marie Antoinette, más conocida como Ninette. Comenzamos a enamorar, encontré, en fín, un gran amor”.
La familia de Ninette, como muchos franceses, había venido de Córcega para trabajar en el Norte de África. La relación amorosa que se establece entre los dos es tan intensa que la guerra queda en segundo plano. El dia 1º de setiembre de 1942, Jean registra en su diario: “La vida agradable, el sol, el cielo azul y el amor – todo eso nos lleva a pensar que la guerra está casi acabando y ya estamos pensando en matrimonio”.  Él no sabía, pero la guerra estaba lejos de terminar.
Después de esto, Jean atraviesa la frontera con España, deja con unos primos una carta de amor escrita para Ninette, era casi un testamento que sólo debía entregarse en caso de muerte. En España, cae preso en Pamplona y después, en un campo de refugiados en Miranda del Ebro, imortalizada por tantos poetas. Allí, durante seis meses, come la baguete que el diablo amasó. Sin manteca. Hay un sanitario colectivo para 4.000 refugiados: “Cada retrete está separado del otro por una mureta de 20 cms. Las personas se alivian en grupo, sin pudor, conversando con el vecino”.
Por fin consigue volver a Túnes, encuentra a Ninette, con quien se casa, y parte en un viaje de luna de miel a Casablanca, para donde fue transferido, en un vagón de tren que transportaba animales. El libro contiene, entre otros, fotos de las bodas. En diciembre de 1943, quando Jean va a la escuela de formación de pilotos de la Royal Air Force, en Inglaterra, sufre una gran decepción, no amorosa  sino culinaria, con una sopa insípida de conejo, preparada en la pensión en que estaba hospedado. Imagínate! Esa era una manera de preparar conejo?  Ah, esos ingleses!
La guerra ya terminando, Jean pilota un avión en dirección a Paris, transportando material. Exagera en la dosis y sobrevuela entonces sua ciudad – Fécamp, donde estaba su dulce Ninette. En un gesto mirabolante, da un vuelo rasante sobre la plaza principal y tira – no bombas – sino una carta con una declaración de amor a la mujer amada. Jean fue un hombre común, que supo equilibrar sus deberes de ciudadano y de soldado con actitudes tiernas y amorosas.
Au revoir, Jean
Lunes, 13 de octubre de 2008, yo estaba de pasaje por Paris. Acompañado por la  amazonense Marilza y por el franco-brasileño Pascal Foucher, asistí a la misa de cuerpo presente de Jean Frébourg. Durante la ceremonia, sus hijos, nietos y su nuera, Beatriz, dieron declaraciones conmoventes. “Mi padre fue un hombre honrado e íntegro, siempre presente en nuestra educación”, dijo Jean Claude que - ahora entiendo - heredó el lado ‘materno’ de su padre, tan amoroso con los hijos.
Me acordé que el periodista Jefferson Coronel me sugerió recientemente escribir una crónica sobre lo que piensan los hijos de los políticos de Amazonas sobre sus padres. ¿Cuántos podrán decir con sinceridad esas mismas palabras: “Mi padre fue un hombre honrado”? La integridad de un hombre reside no en acciones épicas grandilocuentes, sino justamente en los pequeños gestos cotidianos. O –¿quién sabe? - lo épico post-moderno tal vez sea justamente eso.
Jean plantó árboles, tuvo hijos, escribió un libro y en la guerra, dirigió aviones,  siempre en misión de paz, manteniendo su integridad. A través de él, dejo aqui un homenaje a todos los franceses que fueron solidarios con los exilados brasileños. Au revoir, Jean. Descansa en paz. Ah, no me puedo olvidar: una vez más, gracias por el emblemático lapin à la moutarde, preparado por las manos de la hermosa Ninette y aderezado con solidariedad. Es “inoubliable” como todos aquellos pequeños gestos de ternura.

 

 

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3 Comentário(s)

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