CRÔNICAS

Meu amigo toca tambor

Em: 08 de Abril de 1992 Visualizações: 1630
Meu amigo toca tambor

.Charapa é o nome que no Peru e no Equador se dá a um tipo de tartaruga que vive nos rios, lagos e florestas da Amazônia. Essa espécie de cágado, de casco negro com manchas amarelas, corresponde ao que no nosso português regional chamamos de tracajá. Nada mais amazônico. Por isso, é com essa palavra que os peruanos denominam todos aqueles que nascem na região da selva.

Nascido em Iquitos, em 1943, o poeta Manuel Morales é um ‘charapa’, um ‘tracajá’ autêntico, da gema, do tipo que nós, na Amazônia brasileira, chamamos de 'caboco suburucu'.  Ele ganhou vários prêmios de poesia, entre os quais o primeiro lugar nos Juegos Florales Universitários de 1967, organizado pela Universidade Nacional de Educação, conhecida como La Cantuta.

Nessa época, publicou dois livros: Peicen Bool (1968) e Poemas de entrecasa (1969). Enquanto viveu no Peru, esse caboco suburucu integrou o Movimento Hora Zero, que congregava poetas rebeldes de sua geração. Mas logo depois, nos anos 1970, viajou para o Brasil, vivendo por mais de trinta anos em Porto Alegre (RS), onde morreu em 2 de outubro de 2007, aos 64 anos, longe dos amigos peruanos e de qualquer uma das amazônias,  mas cercado pelo afeto de "tocadores de tambor, flauta, violão e cavaquinho".

Continuo intrigado sem saber bem por que nós, da Amazônia brasileira, desconhecemos os nossos vizinhos da Pan-Amazônia, de cujo convívio salutar estamos privados, apesar da proximidade geográfica e cultural. Lendo o poema de Manuel Morales intitulado ‘Si tienes um amigo que toca tambor´, pensei que os brasileiros gostariam de conhecê-lo. Por isso, publiquei há vinte anos uma tradução desse poema, quando seu autor ainda vivia. Agora, depois de sua morte, quero uma vez mais compartilhá-lo com os leitores para tentar, dessa forma, derrubar alguns tijolos do muro que nos separa.

SE TENS UM AMIGO QUE TOCA TAMBOR

Se tens um amigo que toca tambor

Cuida bem dele! É mais que um conselho: cuida bem dele!

Porque hoje em dia ninguém mais toca tambor.

Pior ainda: ninguém mais tem um amigo.

Então, cuida bem dele,

Que esse amigo guardará tua casa.

Mas não o deixes sozinho com tua mulher, lembra-te

Que ela é tua mulher e não de teu amigo.

Se segues este conselho, viverás

Muito tempo. E conservarás a tua mulher

E um amigo que toca tambor.

Uma carta de Manuel Morales enviada do Brasil ao seu amigo (que toca tambor) Túlio Mora, que também é poeta, foi publicada recentemente num periódico de Lima. Nela, declarava-se ainda vinculado, mesmo de longe, ao movimento Hora Zero e definia sua visão de poesia:

Te digo que escrever é viver. A poesia é, portanto, um estado de reconstrução e nominação dos elementos do mundo. Vocês dirão: Manuel Morales viveu longe e nos esqueceu. Não é verdade. Tenho orgulho de ser um militante de Hora Zero, o movimento que ajudamos a construir para que a poesia não seja uma farsa”.

Outro poema de Manuel Morales, publicado na Antologia da poesia peruana, organizada por Alberto Escobar, se intitula ‘Usos son de la guerra’, algo assim como ‘São os costumes da guerra". A inspiração vem de uma frase atribuída ao Inca Atahualpa, assassinado pelos espanhóis em 1533, que teria declarado em quechua a Pizarro:  "Maqanakuypa chayninmi maqay utaq maqachikuy", cuja tradução corresponde a um refrão que circula também na poesia hispânica: "usos son de la guerra vencer o ser vencido". Com seu humor refinado, Morales poetou:

USOS SON DE LA GUERRA

No amor e na cama,

Napoleão foi um fracasso.

Não digo o mesmo

na guerra. Seu êxito

consistia em envolver o inimigo.

E a França o teve

como seu filho mais dileto;

e lhe deu fama

e suas mais formosas mulheres.

Tão grande na estratégia

e com um pênis tão pequeno, na cama

mandavam suas mulheres. (A vitória

se deveu a seus generais).

Outro poema do autor peruano que merece ser aqui apresentado:

NÃO BUSQUEM UMA PÁTRIA

Não busquem uma pátria

Que contenha rosas. Hoje

As rosas não existem mais. Só existe

Uma pátria na palma do peito

E outra no centro do olho.

Continuem buscando rosas. Encontrarão

Um balaço no peito

E outro

No centro do olho.

(*) A expressão "caboco suburucu, popa de lancha e bandeira azul" é muito usada no Amazonas para designar um amazonense da gema. Quem gosta dela é o nosso poeta maior, de Barrerinha (AM), Thiago de Mello e sua prima Marilza Foucher. CABOCLO ou CABOCO, como regionalmente se prefere, aparece em vários dicionários, entre os quais o Glossário Paraense(1905), de Vicente Chermont de Miranda e o mais recente Dicionário de Amazonês (2004), de Sérgio Freire de Souza da Universidade Federal do Amazonas. Refere-se ao mestiço, mas é também a uma forma de tratamento carinhosa, de cumplicidade identitária, que corresponde ao cholito peruano ou ao cunhado caribenho. Já o termo SUBURUCU, embora de amplo uso, não está dicionarizado, nem sequer no clássico Vocabulário de Língua Geral Português-Nheengatu, de Stradelli (1929). No entanto, a partir dele, podemos fazer algumas considerações. Em Nheengatu, SU é um marcador de perfectividade que marca uma ação como acabada (ido, andado, conforme Stradelli). URUCU é  fruto do urucuzeiro (Bixa Orellana) - planta nativa da América Tropical - cujas pequenas sementes são usadas como condimento e como corante na comida e na pintura corporal indígena. SUBURUCU pode ser, portanto, aquele caboco legítimo, porque pintado de urucu, ainda que simbolicamente, que navega em canoa, cuja popa, em dias de festa, ostenta uma bandeira azul.

 

EL TAMBOR DEL CABOCO SUBURUCU

Charapa es como se llama en el Perú y en el Ecuador a un tipo de tortuga que vive en los ríos, en los lagos y en la floresta de la Amazonía. Esta especie de casco negro con manchas amarillas, corresponde a lo que se llama en portugués regional tracajá. Nada más amazónico. Por eso, con esa palabra los peruanos denominan todos aquellos que nacen en la región de la selva.

Nacido en Iquitos, en 1943, el poeta Manuel Morales es un ‘charapa’, un ‘tracajá’ auténtico, de esos que nosotros en la Amazonía brasileña llamamos ‘caboco suburucu’ (*). Ganó varios premios de poesía, entre los cuales el primer lugar en los Juegos Florales Universitarios de 1967, organizado por la Universidad Nacional de Educación, conocida como La Cantuta.

En esa época, publicó dos libros: Peicen Bool (1968) y Poemas de entrecasa (1969). Mientras vivió en el Perú, ese caboco suburucu integró el Movimiento Hora Zero que congregaba los poetas rebeldes de su generación. Pero después, en los años 1970 viajó al Brasil, vivió más de treinta años en Porto Alegre (RS), donde murió el 2 de octubre de 2007, a los 64 años, lejos de los amigos peruanos y de cualquier Amazonía, pero rodeado del afecto de ‘tocadores de tambor, flauta, guitarra y cavaquinho’.

Continúo intrigado sin saber bien porque en la Amazonía brasileña, desconocemos nuestros vecinos de la Pan-Amazonía, de cuyo convivio saludable estamos privados, a pesar de la proximidad geográfica y cultural. Al leer el poema de Manuel Morales ‘Si tienes un amigo que toca tambor’, imaginé que a los brasileños les hubiera gustado conocerlo. Por eso hace veinte años, cuando el autor aún vivía, publiqué una traducción de ese poema, que quiero, después de su muerte, compartir una vez más con los lectores para intentar, de esa forma, derribar algunos ladrillos del muro que nos separa.

 

SI TIENES UN AMIGO QUE TOCA TAMBOR
Si tienes un amigo que toca tambor
Cuídalo, es más que un consejo, cuídalo.
Porque ahora ya nadie toca tambor,
Más aún, ya nadie tiene un amigo.

 

Cuídalo, entonces,
Que ese amigo guardará tu casa.
Pero no lo dejes con tu mujer, recuerda
Que es tu mujer y no la de tu amigo.

Si sigues este consejo, vivirás
Mucho tiempo. Y tendrás tu mujer
Y un amigo que toca tambor.

Una carta de Manuel Morales enviada de Brasil a su amigo (que toca tambor) Tulio Mora, que también es poeta, fue publicada recientemente en un periódico de Lima. En ella, se declaraba todavía vinculado, aunque de lejos, al movimiento Hora Zero, y definía su visión sobre la poesía:

 “Quiero decirles que escribir es vivir y la poesía es, por tanto, un estado de reconstrucción y nominación de los elementos del mundo. Ustedes dirán Manuel Morales vivió lejos y nos olvidó. No es verdad. Tengo orgullo de ser un militante de Hora Zero, el movimiento que ayudamos a erguir para que la poesía no sea una farsa”.

Otro poema de Manuel Morales publicado en la Antología de la poesía peruana organizada por Alberto Escobar se titula ‘Usos son de la guerra’. La inspiración viene de una frase atribuida al Inca Atahualpa, asesinado por los españoles en 1533, que habría declarado a Pizarro en quechua: "Maqanakuypa chayninmi maqay utaq maqachikuy", cuya traducción corresponde a un refrán que circula también en la poesía hispánica: "usos son de la guerra vencer o ser vencido". Con su humor refinado, Morales poetizó:

USOS SON DE LA GUERRA

En el amor y en la cama

Napoleón fue un fracaso.

No digo lo mismo

en la guerra. Su éxito

consistía en envolver al enemigo.

Y Francia lo tuvo

como su hijo predilecto;

y le dio fama

y sus más hermosas mujeres.

Grande en estrategia

y corto en pene, en la cama

mandaban las mujeres. (La victoria

correspondió a sus generales).

 

NO BUSQUEN UNA PATRIA

No busquen una patria

Que contenga rosas. Hoy

ya no existen las rosas. Solo existe

una patria en la palma del pecho

y otra

en el centro del ojo.

Sigan buscando rosas. Encontrarán

un balazo en el pecho

y otro

en el centro del ojo.

 (*) La expresión "caboco suburucu, popa de lancha e bandeira azul" se usa mucho en el Amazonas para designar un amazonense de pura cepa. A nuestro poeta mayor, Thiago de Mello, de Barrerinha (AM) y a su prima Marilza Foucher, les gusta mucho usarla. CABOCLO o CABOCO, como regionalmente se prefiere, aparece en varios diccionarios, entre los cuales el Glossário Paraense (1905), de Vicente Chermont de Miranda y el más reciente Dicionário de Amazonês (2004), de Sérgio Freire de Souza, de la Universidad Federal de Amazonas. No solo se refiere al mestizo, sino también a una forma de tratamiento cariñosa, de complicidad identitaria, que corresponde a cholito peruano o cuñado caribeño. Ya el término SUBURUCU, a pesar de su amplio uso, no está diccionarizado, ni siquiera en el clásico Vocabulário de Língua Geral Português-Nheengatu, de Stradelli (1929). Sin embargo, podemos hacer algunas conjeturas. En Nheengatu, ‘SU’ es una partícula de perfectividad que marca una acción como acabada (ido, andado, según Stradelli). URUCU es el  fruto del urucuzero (Bixa Orellana) - el achiote, planta nativa de América Tropical - cuyas pequeñas semillas se usan como condimento y colorante rojo en la comida y en la pintura corporal indígena. Asi SUBURUCU puede simbolizar el caboclo amazonense legitimo pintado de achiote que navega en una barco, cuya popa, en dias de fiesta, ostenta una bandera azul.

P.S. CRONICA ATUALIZADA E REPUBLICADA EM 28 DE AGOSTO DE 2011, DEPOIS DA MORTE DO POETA - http://www.taquiprati.com.br/cronica/932-o-tambor-do-caboco-suburucu-version-en-espa

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