CRÔNICAS

DONA ELISA CONTA MOSCOU

Em: 23 de Março de 1993
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- Isto é um assunto sério, muito sério!
Esta é a frase preferida do Amazonino Mendes, quando interrogado por jornalistas a respeito de temas sobre os quais ele não entende necas de pitibiribas. E não são poucas as questões sobre as quais ele boia como rolha na água.
Reconheço, no entanto, que esta frase, evasiva, é a mais apropriada, quando se trata de mãe. Mãe de quem? Mãe da gente, leitor. Minha, tua, nossa mãe. Pode ser até dona Leda, a mãe do Fernando e Pedro Collor ou a dona Quinu, que paparicava seu filho rechonchudo, o PC Farias. Isso para não mencionar mães de políticos locais. Em qualquer caso, é a única situação em que se aplica, de verdade, a frase de Amazonino: mãe é, realmente, um assunto muito sério, muito sério.
Tão sério que, pela mãe, a gente é até capaz de perder o pudor, contrariar princípios e quebrar regras. Veja você! Sempre achei que uma coluna num jornal é um espaço público para discutir questões de interesse coletivo e provocar polêmica. A dor de cotovelo de quem escreve não interessa. Pudibundo, morro de vergonha quando alguém confunde o espaço e se dana a escrever sobre si mesmo, sobre seu próprio umbigo ou sobre suas relações familiares. Não é se expor demais? Dá uma sensação de estar desfilando nuzinho - ou nuzão - pela avenida Eduardo Ribeiro, às 10:00 horas da manhã.
Pois bem, hoje, eis-me aqui, diante de ti, leitor (a), peladão, escrevendo sobre a genitora deste que batuca essas mal traçadas. Ela costuma aparecer de vez em quando como personagem das crônicas semanais, dando alfinetadas em algum político. Mas hoje, dona Elisa, 13 filhos, 49 netos, 28 bisnetos, é o nosso tema central, porque está completando 76 aninhos.  
 - E daí? - pergunta o leitor intolerante.    
Calma, bicho! Abre um espaço, pô! Lembra, cretino, que tu também tens mãe, que tua mãe faz aniversário e, portanto, sabes que esse negócio de mãe é um assunto sério, muito sério. Te coloca na minha pele. Toda terça-feira, a Preta vai filar o café de manhãzinha, com A CRÍTICA debaixo do braço.
- Mamãe, saiu o Taqui Pra ti.
- Ele fala no meu nome, minha filha?
Se a resposta for positiva, ela se senta na cadeira de "macarrão" e ouve atenta a leitura. "Repete, repete essa parte", ela diz, quando citada. Mas caso a resposta seja negativa, ela é contundente:
- Minha filha, nem precisa ler agora que estou muito ocupada.
Um colunista que não é lido pela própria mãe está liquidado. Pode ser o Shakespeare, está li-qui-da-do. As mães dos quatro evangelistas liam diariamente as parábolas escritas pelos respectivos filhos. Daí o sucesso da Bíblia. Então, me dá licença, leitor, te enche de paciência, que hoje quero ser lido por ela. E por isso falo dela.
Não tem aquele livro do Ibrahim Sued, "000 contra Moscou", cujo título dado em gozação pelo Stanislaw Ponte Preta acabou sendo adotado pelo seu autor? Tem. Não tem aquela peça de teatro "Arena conta Zumbi"? Tem. Por que, então não pode ter: "Dona Elisa conta Moscou"?
O caso é que em 1981 dona Elisa saiu do Beco da Bosta diretamente para Paris para visitar um filho seu que lá residia. Seu grande sonho era fazer uma peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Lourdes. Lá fomos nós, num carro alugado. Chovia prá dedeu. Enchemos umas trinta garrafinhas com a água da fonte de Lourdes, encomendada pelos doentes da Paróquia de Aparecida, atendidos pela Pastoral da Saúde. (Ela voltou a Manaus mais carregada de medalhinhas do que peito de general. Antes visitou o Vaticano. Tudo isso foi fotografado, leitor, tintim-por-tintim, para evitar que a Leonor, a vizinha que vende bananas, colocasse em dúvida aspectos da viagem).
Terminado o turismo religioso, comandado por dona Elisa, chegou a vez do turismo político. Numa "cana" em 1977, a Polícia Federal me encheu o saco, querendo saber quanto tempo eu havia ficado em Moscou, um lugar onde nunca havia colocado os pés. Naquele momento, me fiz uma promessa: se escapo desse sufoco, um dia ainda hei de ir a Moscou.
Fui. Cinco anos depois. Com dona Elisa. Mãe é coisa séria, leitor, muito séria. Tinha um pacote turístico saindo de Paris, em promoção, mais barato do que a passagem Manaus-Rio, passando por Moscou, Leningrado, Vladimir e Susdal na Rússia, Kiev na Ucrânia e Varsóvia. Lá embarcamos nós. Dona Elisa meio assustada ainda com o fantasma do comunismo.
- Meu filho, será que ELES deixam a gente sair de lá? Olha a Miriam, a filha do Belarmino Marreiro, o barbeiro lá de Aparecida. Foi prá lá estudar e dizem que não deixaram mais ela sair.
A Miriam Malina já estava trabalhando como jornalista no Rio. Mas a questão, num determinado meio onde não circulava a informação, não era assim tão improcedente. Afinal, em 1981 o muro de Berlim ainda não havia sido derrubado.
O primeiro domingo passamos em Leningrado. Tive que me virar, sair do roteiro turístico e encontrar, num bairro perdido da periferia, a única igreja católica, onde dona Elisa pôde assistir a sua missa. Em latim. Com o padre de costas para os fiéis. Não tinha a alegria de uma missa celebrada pelo padre Marcos, em Aparecida, mas quebrava o galho, porque recuperava a memória do sacrifício: "Fazei isso em memória de mim". Fizemos.
Visitamos, em Moscou, a Igreja de Nossa Senhora de Kazan - a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro deles - que havia sido transformada em Museu da Religião e do Ateísmo. Um dos objetos exposto numa vitrine era um rosário. O terço, dedilhado diariamente por dona Elisa, aparecia ali, na ficha museográfica, como um objeto de superstição. Era uma afronta. Ela não gostou. Um gol contra o comunismo.    
Foi aí que dona Elisa teve uma crise braba de sinusite. Avisamos o guia, que chamou a médica, uma "caipirovska" simpática, gorda e bochechuda, jeitão de camponesa, que só falava russo. Inaugurou-se uma cadeia surrealista com vários elos. A médica perguntava em russo para uma intérprete, que falava russo e francês e eu traduzia ao português. Dona Elisa respondia em português, o que logo era traduzido ao francês e do francês ao russo.
A médica "caipirovska" receitou - anota aí, leitor, pode te ser útil: cozinhar dois ovos, retirá-los bem quente, envolvê-los em um guardanapo de papel para não queimar a pele e colocar um em cada lado do nariz até esfriar. Foi pá, casca! Tiro e queda! Santo remédio! Aliviou a sinusite. Continua sendo usado até hoje em casa.
Durante a consulta, a "caipirovska" perguntou:
- Quantos filhos a senhora teve?
- Treze, contando com a Glória.    
A "caipirovska" informou então que as russas com muitos filhos tinham uma pensão mensal de não-sei-quantos rublos por cada filho criado, um carro e uma casa grande. Dona Elisa pediu que convertesse os rublos em cruzeiros, o que foi feito. Era uma grana firme, uma nota preta, comparada com a pensão mixuruca deixada pelo finado Barbosa. Dava 38 vezes mais do que ela ganhava do INPS.
No final, indagada sobre quanto custava a consulta, a médica caiu na gargalhada:
- Nós somos funcionárias do Estado. Aqui é um crime alguém ganhar dinheiro à custa da doença alheia. Gol do comunismo. Empate: 1 x 1.
- Se não fosse pelas igrejas transformadas em museus, eu estaria muito melhor aqui - concluiu dona Elisa, com os pés no chão. E acrescentou, pensando em sua neta: "Aqui, a Sandrinha podia fazer a operação dos rins, de graça".
Na volta, o avião Tupolev, vinha como uma folha seca ao vento. Parecia até que o piloto havia desligado o motor para economizar gasolina. Vendo meu estado de pânico, ela ralhou, já no solo:
 - Meu filho, você viajou tanto, estudou tanto e tem medo de avião? Isso é incompreensível. Eu que não estou habituada, não tenho medo.
- É que se esse bicho cair, a senhora vai direto pro céu. E eu, eu acho que vou virar pó.
Foi aí que ela fez um grande pacto com Deus, que achei muito interessante:
- Só morro depois de te ver completamente convertido, José. Vou rezar todo dia pela tua conversão.
E tome reza. As rezas, parece, estão dando resultado, lento e gradual. Mas escuta aqui, leitor, olha ali praquela câmera, que é a câmera da verdade e me diz se eu não tenho razões de sobra para segurar as pontas e ir empurrando essa conversão com a barriga? Se ela só morre quando eu me converter, prometo acertar minhas contas com Deus no ano de 2.017, quando ela completa 100 anos.
Domingo passado, o maior poeta dessa terra, Luis Bacellar, encontrou dona Elisa no restaurante Panorama, em Educandos e confirmou:
- A senhora está muito bonita.
Faceira, ela passou as mãos pelos cabelos.
- E muito vaidosa - acrescentou Bacellar.
Acertou na mosca. Feliz aniversário, dona Elisa, assim mesmo, com sobriedade e pudor. Mãe é um assunto sério, muito sério, leitor.

 

 

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1 Comentário(s)

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André Ricardo Costa comentou:
04/03/2010
Olhaí, falei que eu leio suas crônicas antigas... muito bonita essa quer dizer que no comunismo médico não ganha(va) às custas da doença alheia é... Posso dizer também que ele não ganha pra fazer a cura alheia?? E que portanto há um incentivo a menos para curar cada vez mais e trabalhar cada vez mais?? E que portanto um médico que se esforce menos ganha o mesmo daquele que se esforça mais?? E que portanto fica mais difícil alguém escolher o melhor médico? E como está sua mãe hoje?
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