CRÔNICAS

Por que a pipoca pula na panela?

Em: 27 de Abril de 1993 Visualizações: 1099

Pula, pula pipoquinha / Pula pula sem parar / Pula, pula pipoquinha / Pra crescer e estourar

Duas palmeiras amazônicas. Por que uma delas, a pupunha, tem um coquinho pequeno e muita “carne” e a outra, o tucumã, tem um cocão avantajado, mas é descarnado, com uma polpa de pouca consistência?

Quem come abiu fica com os lábios grudados e emudece, que nem o Carlos Alberto De Carli no Senado. Por que o leite viscoso da casca do abiu cola e o De Carli, apesar de também viscoso, não cola nem descola? Quem deveria comer um abiuzinho não come, como minha tia Conceição, que fala mais do que a preta do leite.

A bacaba e o patauá são irmãos gêmeos como os deputados Átila Lins e o Ézio Ferreira (PFL vixe vixe), que puxaram o saco do Collor e do PC Farias até o último minuto. A cara de um é o focinho do outro. Quem me explica tais semelhanças?

Por que a pitomba parece ser uma fruta tão besta, sem conteúdo? Comê-la equivale a ouvir um discurso do Roubério Braga (PFL vixe vixe). Você dá uma lambida, faz uma careta e cospe fora o caroço. Nada fica de substancial.

Por que o vereador Jefferson Peres é generoso e polivalente como o taperebá, que serve para fazer sorvete, picolé, refresco, batida e doce, enquanto o vereador Omar Aziz (ex-PDC vixe, vixe) parece com a ingá xixica, a fruta preferida de Santa Etelvina? Você por acaso já saboreou sorvete ou picolé de ingá xixica? Levanta a mão aí quem já tomou refresco de ingá xixica. Ninguém. Eraste da fruta lesa!

E o açaí, gente: como é que se explica que uma única semente pode dar uma touceira de até 25 pés de açaizeiro, enquanto o deputado Ronaldo Tirandentes, mais conhecido em Miami como Tooth-Puller, não dá pé, não consegue ter uma única ideia – umazinha só – frutificante? O cérebro dele concorre com o do Clodovil: é zero quilômetro. Tiradentes declarou aos jornais que se o Maluf não for candidato a presidente da República, Amazonino – seu chefe – está no páreo. Ninguém riu, pelo menos publicamente. Pois é, existe piada sem graça.

Por que o milho da pipoca pula na panela e o César Bonfim, o ressarcidão, não pula pra fora da Câmara Municipal de Manaus?

São tantas as perguntas? Mas quem sou eu para respondê-las? Eu hein! Não quero encrenca com o Sá, a quem conheci na madrugada de um sábado, quando rodava de carro com um amigo à procura do UTI, o bar onde toca e canta o Paulinho Kokai. Foi aí que ouvi um grito:

- Taquiprati!

O fado do Sá

Era o Sá, que mora lá pras bandas do D. Pedro, numa casa com eucaliptos no jardim. Estava ele a tomar umas e outras com o Salgado. Não o conhecia. Paramos o carro. Aproximei-me, todo vaidoso, por ter sido reconhecido, me sentia o próprio Rubem Braga entrando em Cachoeiro de Itapemerim. Recebi um abraço, um copo de cerveja e uma crítica sincera, brutal e lúcida:

- Olha, tem dias que eu gosto de ler a coluna. Mas quando você escreve sobre aquilo que não entende, fica uma porcaria. Sim senhor, uma por-ca-ria! (Ele soletrava enchendo a boca com cada sílaba, cuspindo farofa por todos os lados).

Fui obrigado a concordar com o Sá. Por isso, leitor (a), não me sinto em condições de responder às peguntas sobre pupunha, tucumã, abiu, bacaba, patauá, ingá xixica e outras frutas regionais. Tais conhecimentos pertencem ao campo da genética, um ramo da biologia que estuda a hereditariedade e as causas das semelhanças e diferenças entre organismos aparentados biologicamente.

Para ser sincero, nunca consegui sequer pronunciar o nome do ácido desoxirribo-nucleico. Jamais observei o comportamento dos cromossomos em microscópio. Quando alguém me fala em gametas, alelos, homizogoses, genótipos e fenótipos, é como se estivesse falando grego. Por isso, concordo com o Sá: não posso dar picica sobre aquilo que não entendo, que representa aliás a maioria dos assuntos que abordo.

Mas o engenheiro agrônomo William José da Silva, pesquisador da Unicamp e mais seis pesquisadores, entre os quais o físico Antônio Carlos Pereira, entendem muito bem. Ele é especialista em genética vegetal. Aplica técnicas que visam alterar geneticamente os vegetais de interesse econômico para melhorar sua produtividade. Os autores publicaram um artigo recente (1993) na revista Nature, uma das mais sérias do mundo, explicando porque a pipoca pula na panela.

O milho pipoca, muito popular no Brasil, é pouco estudado, pouco se conhece sobre o seu processo de produção. Segundo o artigo, aquela pelezinha que envolve o milho da pipoca funciona como uma espécie de panela de pressão, só que sem válvula. Aí, o calor, transferido para o interior do grão, cozinha de dentro para fora, até explodir, quando a pressão chega ao limite.

Outro dia, uma crônica do Carlos Heitor Cony na Folha de SP fazia a maior gozação com a pesquisa, numa crônica deliciosa que certamente seria criticada pelo Sá, porque se trata – como diria o Amazonino – de uma “questão séria, muito séria”. O Instituto Agronômico de Campinas, fundado por D. Pedro II em 1887, vem produzindo, há algumas décadas, conhecimentos novos sobre o café, o milho, o trigo e outras plantas, contribuindo para aumentar a sua produtividade e diminuir a fome.

A engenharia genética cria tecnologia de manipulação dos genes para tornar os vegetais mais gostosos e nutritivos ou para torná-los mais resistentes ao clima e às pragas. Várias empresas nos Estados Unidos conseguiram altear a estrutura genética da batata, do tomate, do milho e da soja.

Gen + Ética

Deixemos, porém, aos especialistas do INPA e da Universidade do Amazonas a preocupação com a genética das frutas regionais. Ocupemo-nos com os políticos amazonenses, já que genética parece ser uma mistura de gen com ética.

O César Bonfim, por exemplo, e toda a cambada de vereadores ressarcidos que usaram dinheiro público com o pretexto de cuidar da própria saúde, só não pularam fora da Câmara Municipal por falta de pressão popular. O povo não tem aquela qualidade do milho da pipoca.

Se pudéssemos aplicar a engenharia genética na política, melhoraríamos a qualidade e a produtividade dos vereadores. Um par de genes do ex-vereador Praciano tornaria o César Bonfim honesto? O Omar Aziz deixaria de ser ingá xixica para se transformar num útil taperebá se fosse inoculado com os genes do Jefferson Peres? Com os cromossomos do Félix Valois, o De Carli deixaria de comer abiu? O Átila Bacaba e o Ézio Patauá, fecundados com os genes do Aloysio Nogueira e do João Pedro, nunca mais puxariam o saco do poder?

Há duas semanas, o sr. Ingá Xixica me aprontou uma na Câmara Municipal que me deixou envergonhado de ser amazonense. O ex-secretário municipal de Educação, Wilson Alecrim, estava prestando esclarecimentos, quando foi interrompido pelo Omar Xixica Aziz que presidia a casa e anunciou a chegada de 100 estudantes.

Era menores de 15 anos que, para o cúmulo da vergonha, vinham com os rostos pintados de verde a amarelo, em três ônibus alugados para transportá-los. O Omar Xixica foi recebê-los. Poderia muito bem ter cochichado para eles:

- Pôxa. Vocês atrasaram mais de meia hora. Não cumpriram o combinado com pontualidade.

Quem nasceu Ingá Xixica não morrerá Taperebá. Omar mandou abrir as portas do plenário, os devotinhos de Santa Etelvina ocuparam as galerias e começaram a gritar palavrões, com troca de socos e pontapés com pessoas que ali estavam para protestar contra os ressarcimentos. A Câmara se transformava neste momento numa escola de civismo. Estava formando os xixiquinhas, futuros vereadores. Era uma aula prática ministrada por mestre Aziz. As lideranças partidárias exigiam a evacuação das galerias para poder continuar o debate interrompido.

- Não posso. Isso é antidemocrático – gritava o pedagogo Omar Ingá Xixica Aziz, prometendo instalar uma placa de vidro à prova de bala e de som, separando a galeria do plenário. Belo espetáculo democrático.

Se o sonho do Ronaldo Tiradentes se realizar e o Amazonino for eleito presidente da República, Tiradentes será o Cláudio Humberto e Omar Xixica o Inocêncio de Oliveira ou quem sabe o P.C. Farias.

Olha, pela luz que me alumia, quero que Santa Luzia me cegue, quero ver minha mãe mortinha no inferno se não for verdade: eu votaria no Roubério Braga, se houvesse como houve, só dois candidatos para presidir a Câmara. Pelo menos escaparíamos do vexame da sessão do dia 14 de abril. Pitomba, ora, é um nome mais sonoro que Ingá Xixica. Que o Sá me perdoe a intromissão. Aliás, por onde anda o Sá? 

P.S. , Silva w.j. da; Vidal, b.c.; Martins, m.e.q.; Vargas, h.; Pereira, a.c.; Zerbetto, m.; Miranda, c,m. What makes popcorn popNature, v.362, p.417, 1993.  

 

Postado posteriormente: Folha de SP. Obituário 05/Agosto/2019:

Mortes: Físico, publicou trabalho sobre pipoca em revista

Júlia Zaremba

Antônio Carlos Pereira morreu em 24 de julho, aos 69 anos

SÃO PAULO

Antônio Carlos, conhecido como professor Tarzan, foi um dos autores de um trabalho publicado na revista Nature em 1993 intitulado "What Makes Popcorn Pop" (o que faz a pipoca estourar). O objetivo foi explicar o mecanismo de estouro do milho e otimizar a produção de pipoca —para ele e outros estudiosos, faltavam respostas. A publicação foi motivo de orgulho e comemoração na família.

Nascido em São Luís, foi aluno da primeira turma do curso de física da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), onde depois daria aulas. A ideia original era estudar medicina, mas, como não conseguiu pontuação suficiente no vestibular, decidiu dar uma chance à física. E se apaixonou. Fez mestrado, doutorado e PHD na área. 

Passar para a universidade representou uma grande conquista para o rapaz, que trabalhava desde os 14 anos para complementar a renda da família. Foi ajudante de ourives, consertou televisão e carregou malas. Dedicava-se aos estudos à noite. 

Ganhou o apelido após uma pessoa confundi-lo com um homem conhecido por Tarzan. Como era alto, cabeludo e tinha o semblante sério, pegou. 

A pontualidade era uma de suas marcas registradas. Também era muito apegado aos filhos. No Natal, no Dia das Crianças e em aniversários, sempre organizava com a esposa alguma surpresa para as crianças. Certa vez, criaram um mapa do tesouro que os levava até um presente. 

A comida preferida de Antônio era sushi. Tinha o hábito de comer todo fim de semana. Quando já estava no hospital, pedia, em tom de brincadeira, para que a filha subornasse a enfermeira para que pudesse levar até ele a comida. Mas não dispensava um churrasco e uma cervejinha.

Caseiro, adorava passar as tardes olhando o movimento da rua do muro de casa. E também costumava papeava com vizinhos e parentes sentado em uma cadeira. 

Morreu em decorrência de um câncer no pulmão, em 24 de julho, aos 69 anos. Deixa a esposa, cinco filhos e quatro netos.

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1 Comentário(s)

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Perminio Ferreira comentou:
06/08/2019
Essa pesquisa recebeu um prêmio ignobel, absurdamente, como pesquisa inútil
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