CRÔNICAS

O COELHO DO IPASEA

Em: 31 de Outubro de 1995
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A dona Rosicler, moradora da rua Maués, na Cachoeirinha, é auxiliar de serviços gerais na Escola Felipe Smaldone. O seu suor, seus braços e suas mãos contribuem, cotidianamente, para suavizar a vida dos deficientes auditivos. Ela trabalha como um trator. Nunca falta. Prestativa, jamais reclama do pesado. Todo mês, religiosamente, seu salário mixuruca é esburacado pelo desconto para a Previdência do Estado. Tem um pouco mais de 40 anos de idade, mas há séculos o Ipasea, como uma vampiro sedento, vem bebendo o seu sangue.
Recentemente, dona Rosicler caiu doente. O diagnóstico foi conclusivo: "tem de operar". Vai daí, ela tirou férias para cuidar da cirurgia. Enfrentou filas, lutou com a burocracia, foi empurrada daqui pra li e de lá pra acolá pelos corredores do Ipasea, subiu e desceu escadas, angustiou-se, até que um mês e meio depois, conseguiu - ufa! - conversar com o cirurgião.
- "No pilão que eu piso milho, pinto não come xerém", disse-lhe o médico, enigmático.
Ela fixou os olhos nele:
- "O quê? Me desculpe, mas não entendi".
Com sutileza, ele continuou falando em código secreto:
- "Quem a paca cara compra, cara a paca pagará".
Ainda sem compreender, ela disse:
- "Não tenho nada que ver com essa história de pinto, pilão e paca. Eu quero apenas me operar".
Então, o médico foi taxativo, literalmente taxativo, taxativo mesmo:
- "Eu só opero, se pagar por fora".
Mais claro não canta o galo.
CARA-DE-PAU
Dona Rosicler sentiu-se humilhada e impotente. Para quem ela vai se queixar? Para o bispo? Para o diretor presidente do Ipasea? Ela contou a história no Felipe Smaldone. Como é muito querida, professores, funcionários e até pais de alunos decidiram fazer uma "vaquinha", uma rifa, qualquer coisa, com o objetivo de levantar a grana para pagar o médico por fora.
- "Eu não quero! Nunca! Não é justo! Passei a minha vida descontando para o Ipasea e, agora, que preciso, tenho direito à assistência. Não vou pagar outra vez por um serviço que já paguei durante toda a minha vida", disse dona Rosicler, agradecendo a atenção dos colegas, mas recusando, com muita consciência, participar de um ato que considera corrupto.
Quando a Teca me contou por telefone essa história, eu pensei: "neste mato tem coelho". Tinha. Coelho e Braga. Como é que dona Rosicler pode se queixar ao diretor-presidente do Ipasea, João Coelho Braga Junior, se ele é adepto da filosofia do "Mateus primeiro os meus" e "Farinha pouca, meu pirão primeiro"? 
Os jornais informam que João Coelho, que tem nome de rua, acrescido de Braga, nome de vereador ressarcido, liberou cerca de 42 mil reais para sua esposa, a procuradora Iolanda Oliveira Braga, diz-que para custear despesas com viagem e tratamento médico do filho do casal. Meu Deus do céu! Pra onde a gente se vira, só encontra espertinho sem escrúpulo.
Quer dizer, a dona Rosicler e milhares de pequenos funcionários anônimos não conseguem ter acesso a um serviço básico para o qual já pagaram, porque os coelhos e os bragas da vida usam em benefício próprio os recursos, públicos, da entidade.
Samuel Soares, diretor cultural do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde denuncia que o João Coelho Braga Junior, com o dinheiro da dona Rosicler, "está construindo uma garagem para o seu carro, enquanto os elevadores estão com defeito, o que obriga os pacientes com fraturas e mulheres grávidas a subir escada".
Se o João Coelho raspar o bigode, vai cair serragem em vez de cabelo. É muita cara-de-pau. - "isso dá bolo até em desembargador! Isso comeu a vergonha com farinha!, diria a velha Maria Elisa, se viva fosse.
NOSSO FILHO
Enquanto o coelho do Ipasea mama nas tetas do Estado, o Lulu - o Herodes Manauara - apronta mais uma. O secretário de Trabalho e Ação Social (Setras), Lupércio Ramos, comandou pessoalmente as seis equipes de 150 agentes, que fizeram um arrastão no centro da cidade na semana passada. Prenderam 50 menores, meninos-de-rua, e os levaram para o quilômetro 15 da BR-174, onde funciona, diz-que, uma Escola Fazenda. As crianças resistiam, gritando, denunciando anteriores espancamentos.
Segundo a notícia publicada nos jornais, alguns populares - que horror! - aplaudiam em sinal de aprovação, quando os policiais conseguiam agarrar uma criança. Parecia até que estavam caçando ratos, com um pedaço de pau. O Lupércio e o governo do terceiro ciclo denominam cinicamente esta ativida nazistóide e facistóide de "Projeto Nosso Filho". "Nosso" de quem, cara pálida?
Confesso envergonhado que há anos o Lupércio foi meu aluno no Curso de Comunicação Social, mas não foi isso que nós, professores, ensinamos para ele. O Lupércio, antes de entrar na Universidade do Amazonas, para ser sincero, já era um projeto de cretino. Devia haver uma prova de "ética" no vestibular. Ainda bem que houve indignação contra essa monstruosidade, por parte da irmã Giustina Zanatto, que protestou em nome da Pastoral do Menor.
CALMA, PESSOAL
Coelho e Lupércio - os dois auxiliares do governador - têm a quem puxar. Nesta semana, Amazonino Mendes foi ver de perto as obras de asfaltamento da Br-174, orçadas em 43 milhões de reais. É muita grana, que poderia estar sendo empregada em benefício real da população e não para favorecer empreiteiras. Diante da questão, o governador declarou, na ocasião, à imprensa, abre aspas:
"As pessoas não podem querer saúde, educação, geração de empregos, tudo ao mesmo tempo, porque senão vocês irão fazer uma igreja e me colocar no altar pedindo milagres. Eu sou um ser humano como outro qualquer. Esses setores fazem parte de um grande projeto, mas que exige calma", fecha aspas.

Ouviu, dona Rosicler? Tenha calma. Calma. Muita calma. O Amazonino, dona Rosicler, é um ser humano, como o cachorro do Magri. Eu sempre disse isso, mas o governador negava. Agora, é ele quem diz. Não pode haver milagres, dona Rosicler, apesar do candidato Amazonino haver prometido mundos e fundos durante a campanha eleitoral. Os fundos, ficaram com ele. Os mundos, dividiu com o Coelho e o Lupércio. Enquanto isso, querido leitor (a), coma asfalto..

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