CRÔNICAS

Terapias de vidas passadas dos candidatos a prefeito de Manaus

Em: 05 de Agosto de 1996 Visualizações: 1018
Terapias de vidas passadas dos candidatos a prefeito de Manaus

.O eleitor quase sempre é cegueta. Ou vota no escuro. Não conhece bem as pessoas que escolhe para representa-lo. Uma cartilha feita pela CNBB está chamando a atenção para a necessidade de se saber um pouco sobre a história de vida de cada candidato. O que eles fizeram no passado pode nos instruir sobre como atuarão, se eleitos.

O brasileiro – coitado! – está desinformado. É capaz de escalar toda a seleção do Brasil na Copa do Chile, em 1962, incluindo quem ficou no banco de reserva e até dizer quem foi o autor do segundo gol contra a Tchecoslováquia. Nas não lembra mais dos nomes dos anões do orçamento ou dos vereadores ressarcidos de Manaus, que mamaram nos cofres públicos em 1992. Não tem memória política. Por isso, na hora do voto, contraria seus próprios interesses.

Essa capacidade de armazenar dados do passado, usada para o futebol, precisa ser usada no campo político. Necessitamos com urgência de um “Baú Velho” como o do amigo Zamith, mas com temas políticos, para reavivar permanentemente a nossa memória sobre a conduta de certos pilantróides.

Não podemos confiar na propaganda eleitoral, porque ela oculta a vida real dos candidatos, apresentando-os como se fossem uma marca de sabão em pó, aparecem na TV ao eleitor como se fossem os maiores anjos da paróquia, capazes de lavar pé de mendigo na sexta-feira santa. Precisamos explorar outras fontes de informação. Não basta conhecer apenas o passado recente. É preciso ir mais longe e saber o que aconteceu em tempos mais distantes.

Passado por passado, decidimos recorrer à Terapia de Vidas Passadas (TVP), uma técnica que é pá, casca! Ela faz com que o indivíduo tenha regressões, induzindo-o a lembranças de um tempo remoto. Numa contribuição aos eleitores amazonenses, a coluna Taquiprati contratou a Association for Past-Life Research and Therapy (APRT) com sede na Califórnia, para investigar o que os oito candidatos a prefeito de Manaus fizeram em outras vidas. Eles foram levados ao Recanto da Meditação no Bosque da Ciência do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. O resultado foi impressionante. Confira.

O Cabo Pereira em discurso na formatura de diplomados da Escola Superior de Guerra, no ano passado, confessou-se amigo íntimo do patrono da Turma Pedro Teixeira, governador do Grão-Pará morto no séc. XVII.  Foi criticado por haver confundido o Pedro com o coronel Jorge Teixeira, prefeito biônico de Manaus nomeado em 1973 na ditadura militar.

No entanto, esse não foi o engano. A regressão do Cabo Pereira à sua vida passada comprova que ele, efetivamente, viveu em Belém do Pará de 1630 a 1663, com o apelido de Ximbica. O engano foi em se auto intitular amigo do governador. O Cabo Pereira era apenas o palafreneiro de Pedro Teixeira o que, convenhamos, não é uma relação de amizade.

Palafreneiro – como poucas pessoas sabem, inclusive este locutor que vos fala que teve de olhar no dicionário – era um criado, um moço de libré, um plebeu cavalariço que tratava dos cavalos dos nobres. Como Pedro Teixeira não tinha amigos, Ximbica, o palafreneiro, cuidava da canoa do governador. Quando entrava água, era ele que a retirava com uma cuia. Quando atracava, era ele que pulava na lama para amarrar a embarcação e armar a prancha.

Ximbica, que descascava os tucumãs para Pedro Teixeira comer, era um cumpridor de ordens. Quando o governador gritava:

- Boca de forno!

Ximbica respondia: - Forno!

O governador insistia: - Tirando o bolo!

O lacaio ecoava: - Bolo!

O governador arrematava: - Fazei tudo o que o mestre mandar?

Ximbica e os demais áulicos gritavam a uma só voz:

- Faremos todos.

Está até hoje fazendo tudo o que o mestre manda.

O maninho Evandro Carreira, como tem boca grande, foi à Roma. Regrediu tanto, mas tanto, que acabou bebendo o mesmo leite da loba que amamentou Rômulo e Remo, os fundadores daquela cidade. No ano 63 a.C. Maninho elegeu-se senador romano. Vestido com aquela túnica modelito light como a de Ben-Hur, ele debateu com Cícero, Catilina e Fabius Lux Sena, em latim e em nheengatu. Confundiu um dos seus contendores com a figura do boi, quando num discurso memorável tascou em puro latinorum: O tempora! O Mores! Quosque tandem, Catirina, abutere patientia nostra? Entre patrícios e plebeus, o senador Maninho nunca soube muito bem a quem representava. Brigou com o general Públio Cipião, deixando a esposa do militar tiririca da vida. Andou com um pau caçando catitas gulosas pelos esgotos de Roma. Não matou nenhuma. Era inofensivo. Só tinha garganta. Tornou-se folclórico. Continua folclórico.

Gilberto Mestrinho em seu processo regressivo foi parar na China, na época da dinastia Han, ano 214 a.C., com o apelido de Baiji – um golfinho lacustre chinês. Seu nome de batismo era Liu-Be-Tho, trabalhou como operário na construção da Grande Muralha, mas não conseguiu construir sua própria casa. Os papiros da época registraram nos Anais de Bambu que Liu-Beto participou da luta pelo poder ao lado de Pryn-ho contra o mandarim Ka-Bih-Lera, saindo-se vitorioso. Dirigiu a batalha do Hi-Gha-La-Pe Yang-Tsé-Kiang. Fundou uma dinastia. Seu maior pecado foi haver inventado o boneco Kha-Bo-Kão Hama-Zo-Nino. Parte da população estava até disposta a perdoá-lo, se ele fosse capaz de desinventá-lo. O Shu-Ching, livro de documentos, não registra o desenlace final.

Nonato Oliveira - quem diria? – no finalzinho do séc. XVIII era um agricultor francês batizado com o nome de Jacques Chirac Chèque-sans- provision. Viveu numa das regiões mais pobres da França: La Corrèze, onde conseguiu eleger-se conselheiro municipal. Seu único projeto foi conceder o título de cidadã da Corrèze à Josephine Rosane Malta, mulher de Napoleão, quando este governava a França, antes de abolir a Constituição com o golpe colorido do 18 de Brumário.

Serafim Corrêa,  no século passado chamava-se Engelhaft Riemn, morava em um bairro popular de Berlim, no beco Kuh-fladen Strass. Lá, era vizinho do primo do avô de Rosa Luxemburgo com quem aprendeu o be-a-bá do socialismo. Teve 18 filhos com uma alemã gorda da Baviera, filha de um padeiro. Alguns deles faleceram porque Engelhaft Riemen, auxiliar de serviços gerais da municipalidade, não quis ressarcimento médico da Rathaus por considerar tal procedimento imoral. Por isso, foi chamado de “otário” por alguns conselheiros corruptos e aplaudido por outros.

Como o orçamento da coluna Taquiprati estourou, a Association for Past-Life Research Therapy se recusou a pesquisar a vida passada dos três candidatos restantes. Consultado um terreiro de macumba, o que vem a dar no mesmo, descobrimos que Cândido Honório ganhou medalha de chumbo e de ferro nas primeiras Olimpíadas da Grécia, nas modalidades de canoagem, remo, arco e flecha, O coronel Danízio Valente, após pedir licença de seu superior, que é o mesmo patrão do Cabo Pereira, conseguiu namorar em 1550 uma tataravó da Luana Berdinazzi, em Nápoles. Quanto à Irineia Vieira, a autorização para sua regressão está ainda sendo discutida pelas bases do PSTU. De quebra, descobrimos a vida pregressa também de quem não é candidato: Ronaldo Tiradentes foi médico das canetas em Manaus nos anos 1940, respaldado por aquela propaganda no rádio: “Tem diploma e sabe o que fez”

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1 Comentário(s)

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Nelson Peixoto comentou:
20/02/2020
Criativamente maravilhosa e certeira! Adorei!
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