CRÔNICAS

A Rua dos Lesos na Nova Veneza

Em: 12 de Agosto de 1996 Visualizações: 711
A Rua dos Lesos na Nova Veneza

O cenário para o espetáculo que vou te contar, leitor (a), tinha de ter este nome: rua Santa Etelvina, na Betânia, fronteira com o Morro da Liberdade, em Manaus. O candidato a prefeito Alfredo Nascimento – o Cabo Pereira – fazia uma caminhada para pedir votos na zona sul da cidade, em companhia do recruta Omar Abdel Aziz. Tapinhas nas costas, apertos de mão, crianças no colo, beijos aqui, ali, acolá e muita promessa. Muita. Era o tal do corpo a corpo fisiológico, uma alternativa ao corredor psicológico.

Eis que, de repente, aconteceu o protesto espontâneo de moradores da rua São Pedro, no Aterro do Igarapé 40. Eles estavam revoltados porque qualquer chuvinha transforma essa área num mar de lama, num rio caudaloso, com o cocô boiando, invadindo casas, estragando móveis, trazendo doenças. Cobraram uma ação efetiva do governo ao qual os candidatos pertencem.

Como a coligação do PPB (vixe, vixe!) com o PFL (vixíssimo!) não tem um projeto social para Manaus, o Cabo Pereira, acuado, improvisou. Inventou na hora, quentinho, saído do forno, um mirabolante e confuso “Projeto para Nova Veneza”, prometendo “equacionar as inundações e viabilizar o transporte coletivo”:

- Na virada do século, ninguém vai morar em palafitas às margens dos igarapés. O Projeto Nova Veneza vai distribuir 20 mil lotes de terras a 103 famílias pobres, em área totalmente urbanizada, com água, luz, esgoto, ruas asfaltadas, posto médico e escola – delirou o Cabo Pereira, jurando também que construirá o metrô de superfície. Seu nariz ficou maior ainda do que o do recruta Aziz.

Um morador queria saber porque o metrô é chamado de superfície. O Cabo foi didático: é que o metrô em vez de trem seria servido pelas tradicionais catraias, doravante denominadas de gôndolas, deslizando sopre a superfície das águas. Desconfiados, os moradores do Igarapé do 40 se calaram. “O papo colou” – comentou o Cabo  com seu recruta ressarcido. Tanto colou que cinco dias depois no anfiteatro do Parque do Mindu, o governador Amazonino Mendes – o grande chefe – “aperfeiçoou” o projeto, lançando-o oficialmente como o nome maquiado de “Direito à Vida”.

Quando blefa, Amazonino não consegue manter sua cabeça fixa sobre seus ombros. Quem joga dominó com ele sabe disso. Ao “passar um gato” sua cabeça balança como se seu pescoço fosse de mola. Foi assim que neste 31 de julho, no Mindu, quando falava, a impressão era a de que sua cabeça ia cair. Confirmou a construção de 20 mil casas”, anunciou  outro “projeto” igualmente tresvariado intitulado “Cheque Vida” e aumentou o número de beneficiados: 608.812 pessoas pertencendo a 104.851 famílias carentes.

O mistério intrigante é a precisão de relógio suíço. Por que 608.612 e não 608.813 ou 608.811 pessoas? Quem descobriu que existem apenas 104.851 famílias carentes? Quem contou cada uma delas? De onde o Amazonino tirou esses números tão precisos? Por que não arredonda-los? Estão incluídas nesse total famílias que, embora nem tão carentes, sempre se beneficiaram com qualquer projeto público, como os Lins, os Braga, os Bonfim?

Os números talvez tenham sido tirados do bolso do Amazonino. Não arredondou porque queria dar a impressão de que se trato de algo planejado e estudado. Parece que inventou também, a sangue frio, na hora, o tal “Cheque Vida”, anunciando que cada uma das 104.851 famílias receberá mensalmente um cheque de R$ 30,00 para comprar alimentos, desde que mantenha seus filhos na escola. Desta forma, todo mês, o governo distribuirá verbas públicas num valor total de mais de R$ 3 milhões. Tudo pelo eleitoral.

Trinta paus por mês para alimentar uma família é merreca. Uma esmola. Mas pode significar alguma coisa para famílias humildes. Os Lins, por exemplo, têm a humildade de não desprezar qualquer centavo, desde que venha do bolso do contribuinte e seja obtido sem qualquer esforço. Eles têm filhos na escola. Quem garante, então, que as famílias do Tribulins não se inscreverão para abocanhar essa esmola eleitoral? E os vereadores ressarcidos que se amarram numa boquinha pública?

Engana-se quem pensa que haverá fraude. O Amazonino já pensou em tudo. Por isso, está contratando cerca de mil funcionários da recém-criada Cooperativa de Trabalhadores para realizarem o preenchimento das fichas cadastrais sobre a situação de cada família carente. É evidente que, como estão comendo a mandioca que o diabo ralou, os funcionários admitidos por Amazonino começarão por cadastrar as duas próprias famílias. Primeiro os “mins”, depois os Lins.

E se esse dinheiro for desviado para outras finalidades?

Ahá! Amazonino, escolado em mutretas, já pensou nisso. Os jornais de 1º de agosto registram uma frase do governador que é uma pérola:

- “Se o pai de família vier a ser flagrado desviando este dinheiro para bebida alcoólica, por exemplo, perderá o direito ao benefício que será repassado imediatamente à outra família”

Pai d’égua! Isso confirma nossas suspeitas: existe mais gente carente do que as 104.851 famílias do tal projeto. Caso contrário, não haveria a quem repassar.

Fica uma questão: como exercer esse controle? Será que a polícia do Klinger ocupará os bares com seus espiões para interrogar cada bêbado se está tomando o porre com dinheiro do “cheque vida”. O secretário da SEJEL, Lupércio Ramos, mobilizará o esquadrão que caçava menores nas ruas? Pode-se também contratar 104.851 fiscais abstêmios pertencentes a aquelas famílias que tomaram o estado de assalto, para um acompanhamento personalizado de cada família. Ou então montar um grande circuito interno de câmeras em todas as bibocas da cidade, monitoradas por uma central da SECOM.

Francamente. Vamos e venhamos! Depois de tantos anos no poder, somente agora, em pleno período eleitoral, é que “eles, os vixe, vixe”, lembram das famílias carentes? Em vez de esmolas eleitorais, por que não investir na área de saúde, saneamento básico, educação? Por que não ativar uma política para gerar empregos, permitindo que cada chefe de família encontre um trabalho digno e razoavelmente bem remunerado?

Quem é que acredita em tais promessas? A construção das casas exige um investimento de 1 bilhão e meio de dólares, de acordo com os cálculos feitos pelo candidato de oposição Serafim Corrêa (PSB) que entende do riscado? De onde o Cabo Pereira vai retirar essa grana?

A casa prometida da “Nova Veneza”está mais para a construção musical do Vinicius e Toquinho, que tanto deliciava as crianças na década de 1970:

Era um casa muito engraçada

Não tinha teto, não tinha nada.

Ninguém podia entrar nela não,

Porque a casa não tinha chão.

Ninguém podia dormir na rede,

Porque a casa não tinha parede.

Ninguém podia fazer xixi,

Porque penico não tinha ali.

Mas era feita com muito esmero

Na Rua dos Lesos, número zero.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário