CRÔNICAS

TOM E O CHEIRO DA MORTE

Em: 21 de Janeiro de 1997
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Rose abriu a porta do banheiro. Viu, lá dentro, uma cena espantosa e desgarradora, similar aquela do filme “Psicose”, de Hitchcock. Chocada, deixou a escova de dentes cair no chão e saiu correndo, de beibedol, pelo bairro, com uma cara de pavor. Seu grito, escandalosamente histérico, atravessou as ruas Maceió e Recife e ecoou por todo o Parque Dez e adjacências:
- Nããããããão!!!
Depois, ainda sob estado de choque, telefonou, pedindo uma ambulância. Entre um soluço e outro, choramingava:
- O que foi que fizeram com o Tom? Foi bem o Gugu. Ele vai me pagar!
Desorientado, o leitor se faz uma série de perguntas:  Quem são essas pessoas? Quem é Rose, Tom e Gugu no jogo do bicho? Que diabo está acontecendo? Houve algum crime? O esquadrão do Klinger apagou alguém? Por que chamar a ambulância? Mataram o senador Caxias? Afinal, o que foi que a Rose viu de tão horripilante? Onde está o deputado Hélio Bicudo? Por que os ressarcidos até hoje não foram punidos?
Vamos por partes.
Primeiro, o cenário dos acontecimentos. Sabe o Conjunto Ica-Magistral, no final da rua Maceió? Pois é. Lá tem uma fileira de casas de dois andares. Na parte de cima de uma delas, vive uma coroa bonita, dona Maria Edina, que hospeda sua filha Rose, atualmente de férias em Manaus, mas solicitada urgentemente por seus netos no Rio, onde reside.
A parte de baixo da mesma casa é ocupada por Gugu, apelido de José Augusto, um funcionário da Universidade do Amazonas, trabalhador como só, que ali mora com a esposa e filhos. Os dois vizinhos se respeitam. Compartilham o mesmo quintal, separado apenas por uma pequena divisória. Gugu, sempre que pode, capina o quintal da sua vizinha.  
Acontece que Gugu gosta de comer peixe. De preferência, na brasa. Não dispensa o ritual da preparação. Ele mesmo faz o fogo. Corta o cavaco e separa o carvão. Usa um ventilador como abano, quando é preciso.  Seu tambaqui na brasa é, na realidade, um tambaqui defumado. Não entra em contato direto com a chama.  Só com a fumaça e o calor conduzido por ela. Há que ter paciência. Demora, mas é delicioso.
Todo fim de semana, o cheiro de peixe na brasa atravessa a divisória do quintal, sobe o segundo andar e vai provocar um de seus moradores: Antônio Cabral, mais conhecido por Tom pelas galeras das ruas Maceió, Recife e cercanias.
- O Tom é como se fosse meu neto, diz a mãe de Rose.
Mimado. O Tom sempre foi mimado. Um observador isento - se existisse observador isento - diria que ele é um tanto quanto vagabundo. Não trabalha, não estuda. Passa metade da sua vida dormindo, a outra metade paquerando gatinhas. Pilantroide, adora a noite. Há quem diga que tem as costas quentes porque foi adotado como sobrinho por tios importantes: um diretor da Eletronorte, um dono de colégio, um professor universitário aposentado e até mesmo um ex-secretário municipal de Fazenda.
Apresentado os personagens, vamos aos fatos. Domingo passado, Tom - que havia vadiado a noite toda do sábado - acordou ao meio-dia, com aquele cheiro de tambaqui inundando o seu quarto, penetrando suas narinas. Ficou arrepiadinho. Levantou-se. Deslizou como um felino em direção ao quintal e ficou escondido, esperando um descuido do Gugu para roubar-lhe o peixe. Não era a primeira vez.
Cansado de ter de compartilhar seu almoço dominical com o vagabundo, Gugu preparou-lhe uma armadilha. A grelha da churrasqueira, normalmente sustentada por colunas de tijolos, ficou apoiada num pedaço de pau, atado a um arame. Quando o Tom pulou para se apoderar do peixe, deslocou o arame, a grelha cedeu, Tom perdeu o equilíbrio e caiu dentro do fogo, queimando suas  patas na brasa.
Já tinha te dito, leitor (a), que o Tom é um gato? Não. Pois é. Digo agora. Tom é um gato. Gato. Gato mesmo. De quatro patas.  Animal que faz miau. Quando Rose abriu a porta do banheiro, Tom - na verdade - já havia sido medicado com picrato de butecim. O grito de Rose foi um escândalo inútil. A cena que ela viu era muito mais patética que trágica: o gato deitado de costas sobre a tampa da privada, as quatro patas para o ar, lambuzadas com a pomada amarela e enfaixadas com gaze, e um ventilador ligado na maior velocidade, refrescando suas queimaduras.
As patas de Tom estão inutilizadas. Provavelmente terá de andar de muletas. Nunca mais roubará peixe. Mas o seu faro fino saiu do episódio altamente valorizado A família tomou a decisão de vender o passe do felino para a Itália, estimulada por uma notícia publicada no sábado pelo Jornal do Brasil intitulada “Morte libera odor próprio”.
Segundo o JB, cientistas italianos acreditam que as pessoas que estão para morrer liberam um odor quase imperceptível. “O cheiro da morte existe e nós estamos tentando identificá-lo” contou o fisiologista Giovanni Cristalli. Ele explicou que “quando o corpo morre, uma parte emocional ainda vive por poucos segundos. É nesse momento que as moléculas liberam um cheiro especial”.
Onde é que entra o Tom nessa história? Justamente aqui. Os cientistas acham que alguns animais, especialmente cachorros e gatos, podem detectar o cheiro da morte, o que é muito mais difícil para o nariz humano. Por isso, os gatos fogem de casa quando alguém vai morrer. O nariz de Tom, treinado durante anos a captar a morte dos peixes do Gugu, poderá ser muito útil aos laboratórios de pesquisa da Itália.
O que mais interessa, no entanto, é que Tom pode sentir o cheiro da morte de pessoas, de peixes, de outros animais, mas, sobretudo, de instituições. Quando o prefeito Alfredo Nascimento pediu penico e submeteu-se às exigências dos donos das empresas de ônibus, aumentando o preço da passagem para R$0,70, o olfato de Tom captou o cheiro de morte. A administração do Cabo Pereira é um aborto, já nasceu morta. O faro do Tom não falha.
P.S.1 - O Vicente Limongi não escreveu mais. Os irmãos Tiradentes não deram notícia. Na semana que passou, o único acontecimento digno de nota foi a viuvez de Chiquita e da mocreia Maria Rosa, motivada pela morte do senador Caxias. Desta forma, tive de cantar em tom maior.                  

P.S.2 - Esta coluna já estava redigida, quando soubemos do falecimento de Leopoldino Marques, um português paidégua do bairro de Aparecida. Era viúvo de dona Generosa Lopes da Conceição Marques, falecida em agosto de 1995. Com eles, desaparece um cantinho querido de Portugal, encravado em Manaus. Os nossos sinceros pêsames aos filhos Joaquim, Fernando, Zequinha, Dilce, Herbert, Leopoldino Jr. Leogene e Shirlei..

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