CRÔNICAS

A UFAM, os desdentados e os pulmões novos

Em: 18 de Janeiro de 2009 Visualizações: 7279
A UFAM, os desdentados e os pulmões novos

Quer ter dentes sadios? Os anúncios nos jornais de Manaus ofereciam, em 1917, “o melhor preparado para a hygiene da bocca: Aseptodol Calmont. Cura pyorrheias e gengivas, aromatiza a boca e paralisa a cárie”. Mas para quem já era banguela, só mesmo usando “Dentadura New-Heolite, de resina synthetica, inquebrável, de explendida apparencia. Um modelo para cada rosto, uma cor para cada tonalidade”. Havia outros anúncios: “Pulmões novos? Doreina. Xarope peitoral infalível no tratamento rápido da tosse, catarro, asma e bronquite”.

As dentaduras e os remédios não teriam melhorado a qualidade de vida dos amazonenses, no início do século XX, se em 17 de janeiro de 1909 não tivesse sido criada uma universidade, com o nome de Escola Universitária Livre de Manáos. Ela mantinha cursos de Odontologia, Farmácia, Obstetrícia, Ciências Jurídicas e Sociais, Letras, Agronomia e Agrimensura, formando profissionais que atuaram na cidade.

As dentaduras, por exemplo, eram trabalhadas pelo cirurgião-dentista Flávio de Castro, professor de Próthese Dentária e por seus ex-alunos contratados como docentes pela Universidade de Manaus, depois de lá se formarem: o piauiense João Antônio da Silva, professor de Technica Odontológica, e o cearense João Freitas, professor de Clínica Odontológica. Antes da instalação dos laboratórios, o estudo prático era feito nos gabinetes dentários dos próprios professores e na Santa Casa de Misericórdia. 

Já os remédios, como o Aseptodol Calmont, eram produzidos por Aristides Calmont de Andrade, farmacêutico amazonense, professor de Bromatologia e de Toxicologia no Curso de Pharmácia, onde estudaram mulheres de tradicional família do Amazonas e Pará, entre as quais Luiza Tibúrcio, Clotilde de Araújo Pinheiro, Raymunda Frota Leite, Antônia Carmen Velloso, Rachel Castro e Costa, Raymunda Chevalier, Dorothéa Pires, Joanna Silva, Evangelina Correia, Maria José Viana, Selvita Palhano e Laura Ferreira. 

Viúva Porcina

O Amazonas reivindica o fato de ter sido o primeiro estado do Brasil a ter uma universidade, seguida pelo Paraná (1912) e pelo Rio de Janeiro (1920), exibindo-se até um certificado do Guinness Book, como se isso legitimasse qualquer coisa. Por outro lado, os opositores alegam que a Universidade de Manáos é uma espécie de viúva Porcina: foi, sem nunca ter sido, porque iniciou seus cursos em 1910, mas desapareceu anos depois, em 1926, sem que houvesse continuidade no patrimônio acadêmico ou material da instituição.

Formulada assim, essa é uma discussão provinciana. Manaus foi, efetivamente, a primeira capital brasileira a ter iluminação elétrica, com 600 postes espalhados pelo centro a partir de 1896. E daí? A exportação da borracha garantiu-lhe, é verdade, a primazia na instalação de uma série de serviços urbanos: água encanada, linha telegráfica subfluvial, porto flutuante, bonde, teatro, biblioteca e penitenciária. O que mais lhe faltava para continuar na vanguarda? Uma universidade.

A universidade nasceu num momento de euforia econômica e, como outras instituições locais, morreu com a crise na produção e comercialização da borracha. No entanto, ressuscitou na década de 1960. Além dos profissionais que formou e dos serviços que prestou à população local, deixou outros vestígios: o curso de Direito, que se desmembrou dela ainda em 1921, mas que sobreviveu e resistiu até ser incorporado pela Universidade do Amazonas, instituída em 1962, por projeto elaborado pelo então deputado federal Arthur Virgilio Filho.

É por isso que a atual Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que se considera a herdeira da primeira universidade criada no Brasil, comemorou ontem, sábado, 17 de janeiro de 2009, o seu centenário, com uma solenidade, discursos, distribuição de medalhas de mérito universitário e de títulos honoríficos, além da apresentação da Escola de Samba Mocidade Independente do Coroado, com seu enredo: “Coroado canta floresta e educação, exaltando a UFAM, cem anos de tradição”.

Cem anos de solidão

Cem anos de tradição ou de solidão? Quando a UFAM, hoje, se declara como herdeira da Universidade Livre de Manaus, qual é a herança que ela reivindica? Isso depende de quem está reivindicando. Os que se apóiam no Guiness querem o adorno, o verniz, a retórica vazia e o brado retumbante. No entanto, o atual reitor Hidembergue Frota não tem dúvidas. Ele acha que a herança mais importante é o compromisso da instituição com a população amazonense. O resto é conversa fiada.

Para Hindembergue Frota, a UFAM deve ser capaz de reafirmar esse compromisso, contribuindo em todos os setores da educação, da ciência e da tecnologia, formando recursos humanos qualificados e desenvolvendo novos conhecimentos científicos e tecnológicos, vinculados à nossa região e ao saber universal. São essas as lições que aprendemos com a Universidade Livre de Manaus que interessam a Universidade Federal do Amazonas.

Uma universidade despreocupada com a boca desdentada do povo que a mantém não merece sobreviver. Fica condenada a cem anos de solidão, como a família Buendía de Garcia Márquez. Nesse sentido, nos últimos oito anos tem havido um notável avanço, com o processo de interiorização, quando a UFAM criou as unidades permanentes de Itacoatiara, Parintins, Coari, Benjamin Constant, Humaitá, com estrutura própria, inclusive quadro de docentes e técnico-administrativos.

Os cursos oferecidos foram definidos pela vocação de cada município, de comum acordo com a população local, com a construção de uma estrutura física respeitável. Conheci o campus de Benjamin Constant, no Alto Solimões, coordenado pela profa. Valdete Carneiro. Lá, o curso de graduação em Antropologia trouxe professores qualificados de fora, mas incorporou também seus ex-alunos como docentes, da mesma forma que a Universidade Livre de Manaus.

A área física da UFAM cresceu tanto que a “intriga da oposição” apelidou de “reitor do concreto” ao seu atual dirigente. No entanto, o concreto esteve a serviço do abstrato, porque houve uma preocupação constante com o conhecimento. Hoje a UFAM oferece 95 cursos de graduação em Manaus e no interior, aumentando o número de vagas em cursos noturnos de graduação, cuja qualidade tem sido avaliada como uma das melhores da região Norte pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE). Mantém ainda 31 cursos de Mestrado e 8 de Doutorado.

Esse conhecimento tem ultrapassado os muros da Universidade. Essa talvez seja a grande marca dos últimos oito anos da história da UFAM, que autoriza a instituição a reivindicar a herança da Universidade Livre de Manaus: a extensão dos conhecimentos e dos serviços para amplos setores da população. Hoje, a Pró-Reitoria de Extensão e Interiorização da UFAM conta com 17 grandes programas e quase 600 projetos, que atingem aproximadamente um milhão de amazonenses. Nos espaços e eventos nacionais em que se discute a extensão, a UFAM passou a ser a uma referência. Esse trabalho merece ser continuado, para reafirmar a herança recebida nesse um século de existência.

O princípio de compartilhar os conhecimentos gerados pela tecnologia social, rompendo com a sua apropriação privada, é defendido pela atual Pró-reitora de Extensão e Interiorização da (UFAM), Márcia Perales. Ela considera que a gestão compartilhada do conhecimento é uma forma de se contrapor ao modelo sócio-econômico vigente no Brasil. É isso aí.

Dentes sadios? Pulmões novos? O xarope peitoral infalível são os cem anos da UFAM. Nesse século de existência, a coluna homenageia Frederico Arruda, farmacêutico e pesquisador da UFAM, que simboliza mais do que ninguém esse casamento entre os diferentes tipos de conhecimento e os interesses dos povos amazônicos. Esse sim merece uma medalha, embora nem ligue para esses títulos honoríficos.

P.S. – Informo aos leitores que ficaram aliviados com a prisão, na sexta-feira, da Flora Intestinal, em A Favorita, que ela será posta em liberdade hoje, domingo, por força de um habeas-corpus concedido pelo presidente do STF, Gilmar Mendes. Ela não merece a liberdade, porque decepcionou o grande público com sua péssima pontaria, que não despachou para o outro mundo o Zé Bob Mala.

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