CRÔNICAS

Belão, o gato bilingüe

Em: 01 de Fevereiro de 2009 Visualizações: 7129
Belão, o gato bilingüe

(Enviado do Alto Solimões) Escrevo de uma aldeia indígena Tikuna, em Benjamin Constant, no Alto Solimões (AM). Vim ministrar um curso de formação de professores indígenas bilingues. Aqui, seguindo obrigatoriamente o exemplo do presidente Lula, não leio jornais. Portanto, nada sei sobre as fofocas relacionadas à eleição para presidente do Senado, desconheço também se a sobrinha do Belão, presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, fez mais denúncias contra o tio. 

Ignoro, ainda, se o prefeito de Manaus já inaugurou o seu gabinete-ônibus, de onde iria governar a cidade - uma das milhares de promessas feitas. Onde estão as creches que prometeu construir? Pois é, rapaz! Como escrever nessas condições? Sequer posso comentar as fofocas das novelas, porque sem ver televisão não sei se o filho do Tony Ramos encontrou os caminhos da Índia, digo, do Rio de Janeiro, e se ele vai ou não peitar seu pai. Não vi mais a Juliana Paes dançando samba em Calcutá.    

Sem assunto da atualidade, só me resta de contar, leitor (a) uma história que os Tikuna e os Guarani adoram ouvir. É a história de um gato barrigudo, bigodudo e careca, que podemos chamar aqui, cinrcunstancialmente, de Belão, porque muito parece com certo deputado. 

Pois bem, estava o Belão, morto de fome, se espreguiçando ao sol, coçando a pança, quando passou diante dele um ratinho. Aí, o gato, que via tudo com o rabo do olho, deu um pulo para agarrá-lo. Mas o ratinho, magro e ágil, foi mais rápido. Fugiu, entrando no tronco de uma árvore por um pequeno buraco. O gato Belão, gordão demais para passar por aquela abertura, ficou lá fora, miando, ameaçador: - Miaaaau, miaaauuu!  O que ele queria dizer? Em língua gatês, o miado dizia:

- Uma hora você vai ter de sair. Aí, eu te pego.

O ratinho não falava gatês, mas tremia de medo, porque sabia que sua vida corria sério risco. Pensou:

- Só saio daqui depois que esse gato for embora. Prefiro morrer de fome nesse buraco do que ser estraçalhado por esse assassino.  

De lá de dentro, não dava pra ver nada. Depois de certo tempo, o rato não ouviu mais os miados:

- Será que o gato foi mesmo embora, ou parou de miar só pra me enganar?

Foi aí que elke ouviu latidos de cachorro:

- Au-au-au!

Então, feliz, o rato raciocinou: 

- Ôba!. Gato tem medo de cachorro, cachorro não come rato, agora, posso sair.

No que ele saiu, o gato Belão enfiou as unhas em suas carnes. Estraçalhou o ratinho. Depois de comê-lo, enquanto lambia os ossos, comentou em voz alta: 

- É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, morre de fome. Ainda bem que eu falo também o cachorrês.   

Xivi'i e Anguja'i 

Depois de ouvir, muitas vezes, essa história, os professores guarani decidiram contá-la, usando o teatro de bonecos. No entanto, apresentaram a versão deles, que tem um final diferente e revela muito bem a alma guarani.

Nessa versão, o gatinho - xivi'i em língua guarani - continua barrigudo, bigodudo, careca, com cara de deputado. Ele persegue o ratinho - anguja'i - que se esconde no buraco da árvore. Acontece quye esse ratinho guarani era bilingue, entendia o cachorrês. Por isso, ao ouvir os latidos, percebeu que havia algo estranho, um som diferente, carregado, cheio de erres, não era au-au-au, mas aur-aur-aur. Parecia até um turista francês falando português ou o técnico Joel Santana falando inglês. 

Quando ouviu aquele sotaque arretado, o rato bilíngüe pensou:

- Esse latido é de alguém que não sabe pronunciar direito. O cachorrês não é sua língua materna. É sua segunda língua. Não é o cachorro. É o gato, que está tentando falar cachorrês pra me enganar.

Dessa forma, o ratinho descobriu o truque do gato e não caiu na armadilha. Ele se salvou, dizendo lá dentro do buraco:

- “É impressionante! Hoje, quem não for bilíngüe, é devorado pelo inimigo”.   

Quando perguntamos por que haviam mudado o final da história, um professor guarani respondeu: 

Ah, o ratinho é o mais fraco, e numa história guarani a gente não pode deixar o mais fraco sofrer.

Mitchi e Tchicüre

Os Tikuna ouviram e recontaram a história. Cachorro, em língua tikuna, é 'airu'. Gato é 'mitchi'. Existem vários nomes para rato na língua deles. O rato de peito branco é chamado de 'uca'. O rato comum, essa ratazana de esgoto, é conhecido como 'thicüre'

Pensei em contar aqui, na aldeia Tikuna, a versão meio pornô dessa mesma história inventada pelos guarani. Nela, o rato não é rato, é rata. Não contei, porque havia senhoras no recinto. Por isso, não posso contá-la aqui também, porque algumas crianças freqüentam essa página do Diário do Amazonas. Fica pra próxima vez.

 

 

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