CRÔNICAS

A RAPOSA, O TUCANO E OUTROS BICHOS

Em: 06 de Maio de 2001
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O Raposão do Acarajé vestiu o terno escuro, escolheu a gravata com listras brancas, azuis e vermelhas - as cores da Bahia - e passou-a em volta do seu pescoço curto e roliço. Ajeitou o nó e, pela última vez, diante do espelho, ensaiou uma cara de honesto, de humilde, seguindo recomendações dos seus assessores. Depois, acendeu uma vela azul para a Irmã Dulce, chamou os gorilas responsáveis por sua segurança e, protegido por eles, saiu de carro em direção ao Congresso dos Bichos. No trajeto, ia recapitulando a cena que iria representar. 
Naquele mesmo instante, o Tucano Sem Plumas preparava-se para sair da casa de um amigo, no Lago Sul, onde havia almoçado frango grelhado, arroz e salada. Vestia um terno cinza claro, combinando com uma gravata discreta. Consultou o rolex de ouro: 13:30h. "Vamos", ele ordenou à capivara, que tinha carteira de motorista. Vinte minutos depois, entrava na praça do Congresso, onde muitos bichos realizavam uma manifestação de protesto. Entre eles, um jabuti, artista plástico, com sua obra 'O que vi pela TV'- um bloco de 2.5 m. de altura revestido de fezes e excrementos.
A mesma cena havia sido contemplada um pouco antes pela Coruja Informatizada. Ela chegara, de óculos, vestindo um blazer azul claro e uma blusa branca, ligeiramente folgados, acusando os quatro quilos perdidos numa semana de tensão. Trazia no pescoço um pingente de ouro em forma de coração. Entrou no auditório do Conselho de Ética do Congresso dos Bichos, repleto de periquitos e periquitas que faziam a cobertura jornalística. As câmeras de televisão entraram em ação. Começava mais um capítulo da novela: 'Os cascateiros da floresta'.
O Tucano e a Coruja
A trama não era complicada. Nos capítulos anteriores, o Raposão, o Tucano e a Coruja haviam cometido dois graves delitos: o crime de prevaricação e o de violação do sigilo funcional, previstos nos artigos 319 e 325 do Código Penal. Durante alguns capítulos, esconderam o que fizeram. Mas a bicharada descobriu e, escandalizada, exigia a punição dos criminosos. Aí, cada um deles tirou o loló da seringa, colocando a culpa no outro. Agora, o capítulo que ia ser filmado era uma acareação entre os três para avaliar o grau de envolvimento de cada um.
Na medida em que tudo havia sido descoberto, o papel da Coruja Informatizada, na novela, era confessar a autoria do crime. Confessou, com muita serenidade, mas empurrou a culpa lá pra cima:
- Fiz porque o Tucano me jurou que eram ordens do Raposão. Sou uma funcionária subalterna. Obedeci ordens superiores.
Pobre Coruja! Nas escolas da floresta, os professores não ensinavam que a desobediência era uma grande virtude, quando as ordens dadas fossem criminosas ou idiotas.
O Tucano Sem Plumas, por seu lado, desprezou a inteligência do telespectador. Entrou em cena várias vezes, abrindo o bico para repetir a mesma ladainha:
- Não dei ordem para cometer um crime. Apenas fiz uma consulta para saber se era possível cometê-lo. E esta consulta foi realizada por incumbência do Raposão, a quem perguntei: 'Posso consultar a Coruja em seu nome?' Ele respondeu: 'Claro, pode'. Foi o que fiz.
O Raposão negou tudo:
- Lamento dizer que não dei autorização para o Tucano tratar assunto de qualquer espécie com a Coruja.
Como um disco furado, a ladainha começou a se repetir. Os personagens reproduziam as mesmas frases, num jogo cênico que não convencia ninguém: ora pro nobis, ora pro nobis. O público, que seguia cada lance da novela, fascinado com a possibilidade desmascarar os vilões, ficou cansado e decepcionado. Só uma cena salvou o capítulo: quando Raposão mostrou suas garras.
As garras do Raposão
O principal vilão da novela era ele, o Raposão do Acarajé, que tinha dois assessores muito espertos: um macaco inscrito na OAB e um papagaio especialista em publicidade e propaganda.
- Não ataque a coruja; por ser a mais fraca dos três, ela ganhou a simpatia de todos os bichos - recomendou o papagaio, que havia feito uma pesquisa de opinião. "Data venia, ex ungue leonem", falou o macaco, em latim, aconselhando que as garras de seu cliente ficassem escondidas. O Raposão passou o feriado de primeiro de maio, ensaiando, em sessão simulada, os mínimos detalhes: o timbre de voz, o ritmo da fala, a entoação das frases, os gestos, a expressão facial. Tudo estudado.
No dia da filmagem, o Raposão, humilde, falava calmamente, erguendo os cantos internos das sobrancelhas, abaixando as pálpebras superiores e arrulhando como uma pombinha, conforme havia sido combinado. No entanto, diante das perguntas do esquelético mas astuto Tigre do Amazonas
- Vossa Excelência, quando soube do crime, repreendeu ou não repreendeu a Coruja, como era seu dever? - se atrapalhou todo e ficou claro que estava mentindo. Caiu a máscara e começou a mostrar suas garras.
Cada vez que algum bicho fazia uma pergunta que lhe desagradava, o Raposão - esquecendo os conselhos dos assessores - se exaltava, seus dentes se projetavam, fixava o olhar no interlocutor com ares de quem está disposto a esbofeteá-lo e colocava as unhas de fora. "Teve uma hora que eu pensei que ele ia pular da telinha pra me dar uma porrada", disse a Anta, lesona, que acompanhava tudo pela televisão. Nesta hora, o macaco advogado, que só falava latim, reclamou:
- Vulpes pilum mutat, non mores.
O tracajá, que havia sido aluno do Agenorum Ferreira Lima no Colégio Estadual do Amazonas, na década de 60, traduziu rapidamente:
- A raposa muda de pelo, mas não de costumes.
O capítulo termina, com todos os personagens caminhando em direção a uma pizzaria, acompanhados do Jacaré do Pará e da sua mulher, a Jacaroa, criadora de rãs, sapos e pererecas. Se a pizza vai ser ou não servida, isso depende de ti, bicho! A novela ainda não terminou. Podemos interferir no último capítulo, escrevendo para http://www.foraacm.com.br
P.S - Recebi do deputado Artur Virgílio Neto uma carta comentando crônica publicada há duas semanas, cujos principais trechos reproduzo aqui para conhecimento e reflexão do leitor.
"Prezado amigo. Minha semana foi infernal. Talvez este e-mail já pegue sua coluna fechada. Jogo, então, com a sorte. Li seu recado - e os recados dos dois Sérgios - fazendo questão de abordar o tema dentro do Taqui Pra Ti. É um prazer e uma honra".
"Começo pelo Serginho, que você julgou corrosivo e eu nem tanto. Ele tem, isto sim, o direito de se desencantar comigo à vontade, sem ter o direito de me impedir de pensar, agir, atuar politicamente com a mesma liberdade que reconheço nele".
"Incondicional a Fernando Henrique? Jamais. É só ele começar a dizer tolices do tipo desfazer as privatizações, rejeitar investimentos estrangeiros ou se despreocupar da estabilidade econômica e do controle das contas públicas, que ele me perderá".
Candidatura a Presidente: Ora, Serginho, você anda tão pessimista, que pensou que a ideia fosse "sacanagem" do Amazonino contra mim. Mas não é, não. É aspiração legítima, da qual você poderá discordar, mas que não está no seu arbítrio permitir ou não. E "sacanagem" mesmo seria o Amazonino se candidatar e não espalhar que eu pretendo fazer isso".
"Quanto a não votar em mim, Serginho, lamento se você se mantiver nessa posição. Lamento, aceito e respeito".
"Passo, então, ao outro Sérgio: "leal a FHC como um pitbull raivoso, chegando, às vezes, às raias da humilhação pessoal para defendê-lo" etc e tal. Ora, meu caro Sérgio, quer dizer que você não gosta de Fernando Henrique e me insulta porque minha consciência me manda defendê-lo? E raivoso onde, meu amigo, se dialogo o dia inteiro com as oposições, negocio com eles, sem deixar de enfrentá-los, com a dureza necessária nos momentos certos?"
O segundo Sérgio é contra o Governo Federal e até aí tudo bem. Pensa economicamente longe de mim e isso não é nada demais. Estranho é ele não compreender o papel de um verdadeiro líder de governo. Não concordo é com sua visão personalíssima de lealdade e, sinceramente, considero sua visão de país envelhecida e a merecer retoques".
"Chego a você, meu amigo: aqui entre nós dois, os queridos Sérgios não desconstruíram meu discurso coisa nenhuma. Não pense que vou negar minha trajetória presente. Ela é o desdobramento que minha realidade intelectual encontrou para os tempos que já vivi. Gosto da ideia de despertar esperanças e sou aberto a colisões, a começar pelo Amazonas, contra a oligarquia, deixando claro, porém, que não me renderia ideologicamente a quem quer que fosse.
"Não cobro rendições e nem me rendo. Você me conheceu assim e assim serei até morrer. Quando você concorda comigo, maravilha! Quando não o faz, quero que saiba que, ainda assim o combustível que me move é o da crença. Ou eu não deixaria os dois Sérgios tão dispostos à polêmica. Rogo, penhoradamente, que eles não se esqueçam, aturdidos com os meus milhões de defeitos, de criticar o nosso inefável Amazonino".

"Encerro as "mal traçadas", reafirmando a admiração e a amizade que, de minha parte, independem de você concordar comigo ou não".Do Artur Virgílio Neto (Correspondência para a coluna Taquiprati: http://www.taquiprati.com.br)..

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