CRÔNICAS

O CACIMBÃO DO MAMUDINHO

Em: 14 de Março de 2004
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- Coitado, ele ficou lelé - comentou dona Ninoca, na saída da novena. O sacristão Nonato, catraieiro nas horas vagas, concordou:
 - É. Ele está com um parafuso frouxo.
- Um não, vários - corrigiu a irmã Pautila, que tocava órgão na igreja Nossa Senhora do Rosário. Os três haviam presenciado uma cena, que se repetia diariamente, na boca da noite. O padre Joaquim Pereira - cego, velho e alquebrado - percorria as ruas da cidade com seus quatro cães de raça, declamando com sotaque lusitano frases incompreensíveis, em tom profético: 
- Ai de ti, Itacoatiara! Três vezes apunhalada  /  por três crimes abalada, / o povo se libertará, /  quando o Ventura secar,/  a cacimba do Mamude, / será o seu ataúde.
Doido ou profeta? Só a história pode dizer. Como o nome denuncia, Joaquim era português, nascido em Leiria, um ninho de monarquistas. Quando Portugal proclamou a República, em 1910, perseguindo padres fiéis ao rei, ele fugiu para o Brasil, escondendo-se em Itacoatiara por quase cinquenta anos. Durante as desobrigas, visitava vilas, povoados e sítios, pilotando um motor de centro, movido a querosene. Nessas viagens, o reflexo do sol na água acabou queimando seus olhos. Ficou cego. Morreu aos 80 anos, solitário, com os quatro amigos, ao pé de sua cama, gemendo e ganindo de saudades.
As visões do vigário começaram em 1953, depois que ele recebeu o título de ´monsenhor´. Nessa época, a imagem de Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal e atravessou o Brasil de ponta a ponta. Em Itacoatiara, milhares de fiéis foram ao porto recebê-la. Monsenhor Joaquim pediu para ficar sozinho com a ´Virgem Peregrina´, com quem conversou durante uma hora. Saiu de lá, murmurando: "Ai de ti, Itacoatiara"...Dizem que ela lhe teria feito confidências sobre os destinos da Velha Serpa. Dizem, dizem, não sei. 
A profecia do padre
Monsenhor Joaquim não ficou maluco, como acreditavam alguns paroquianos. Seu discurso era ininteligível, porque falava em linguagem cifrada. No entanto, um bom especialista em criptografia pode decifrá-la. Depois de muitos anos de pesquisa, foi possível entender as suas profecias e identificar os crimes que anunciou. É o que em seguida demonstraremos com provas irrefutáveis, mostrando que ele ficou cego, é verdade, mas como todo cego passou a enxergar aquilo que ninguém via: o passado e o futuro.
Na visão do padre, o primeiro escândalo que abalou Itacoatiara ocorreu em dezembro de 1936 e ficou conhecido como "o crime do Emídio". Durante uma partida de futebol no campo do Botafogo, houve um bate-boca, Emídio Pinheiro pegou um revólver taurus calibre 38, e disparou seis tiros na cabeça e no coração de Antônio Teixeira, matando-o na hora. O Tribunal do Júri, presidido por Marcílio Dias de Vasconcellos, condenou o assassino a trinta anos de prisão. Itacoatiara sofreu com a tragédia.
A segunda visão se refere ao "crime do Estácio", cometido em 1956. O coletor federal Estácio Alencar, por motivo banal, descarregou seu revólver sobre o tratorista da Secretaria de Obras Públicas, chamado Jaime Dantas. Playboy oficial de Itacoatiara, Jaiminho vivia passeando de jipe, atropelando galinha, porco e cachorro, para se exibir pro mulherio. Morreu sangrando no meio da rua, causando enorme escândalo. Quem atuou como promotor no caso foi o doutor Geraldo Pinheiro. O criminoso pegou trinta anos de cadeia.
O crime do Mamudinho
Mas o pior escândalo está contido na terceira profecia do monsenhor Joaquim, que só se realizaria muitos anos depois de sua morte. O vigário previu que, no início do século XXI, um crime hediondo sangraria os cofres municipais e assassinaria as esperanças do povo de Itacoatiara. A profecia parece que está se cumprindo. O atual prefeito Mamoud Amed Filho abriu, efetivamente, licitação no Diário Oficial do último dia 5 para a construção de um "piscinão" no centro de eventos da cidade, no valor de R$ 2,5 milhões. Quantos anos de prisão ele merece?
Ai de ti, Itacoatiara! Mamudinho decidiu copiar o modelo populista do "piscinão de Ramos" do Rio de Janeiro. Quer construir - imaginem só! - um cacimbão numa cidade à beira do rio Amazonas, onde 90 milhões de metros cúbicos de água são represados apenas pelo lago de Serpa. Pretende edificar uma piscina artificial, numa área com enorme diversidade de rios, igarapés, igapós, lagos, paranás, furos, cachoeiras e cascatas, quase todos de águas límpidas, frias e saudáveis. Trata-se de um pleonasmo comparável a abrir uma fábrica de gelo na Sibéria.
Se a notícia for divulgada no Jornal Nacional, o Brasil inteiro vai gargalhar e rir da babaquice do prefeito, ridicularizando, por tabela, o povo de Itacoatiara, que não merece essa afronta. Mas essa babaquice tem um preço: dois milhões e meio de reais, o que exige uma ação popular. Parece que Mamudinho quer repetir o que aconteceu no final da sua gestão anterior, quando deixou nos cofres públicos a quantia de R$3,01. Eu falei três reais e um centavo: este foi o saldo que seu sucessor, Miron Fogaça, encontrou em janeiro de 1997, além de uma dívida do tamanho do rio Amazonas. 
Os pecados do Mamoud
A população de Itacoatiara está revoltada com o cacimbão do Mamudinho. Não se fala em outra coisa. No restaurante Panorama, do seu Alcides, com vistas para o rio e para a praça da matriz; na lanchonete e pizzaria do seu Eduardo; no Parque Stop Drink, com suas mesas se espalhando pela praça; nas tartarugadas da dona Yolanda, do Hotel Serpa; no Hotel do Grego; na praça Vital de Mendonça, onde motoqueiros ficam azarando as caboquinhas; na farmácia onde o Beto receita infectrin pra todo mundo e ninguém morre, enfim, em todos os lugares da cidade - até no Mangueirão e na Praia do Pecado - o pessoal tá caindo de pau no Mamudinho.
Com base na experiência de inundação das casas da avenida, os itacoatiarenses estão certos de que se o maldito cacimbão for construído, a Escola Maria Nira vai ficar flutuando, igual à arca de Noé e as crianças vão se afogar, da mesma forma que a Escola Ambiental e o prédio da UEA.. É que o Mamud escasquetou de estreitar as avenidas para ampliar as calçadas, mas não cuidou dos esgotos de águas pluviais. Aí, quando chove, as casas ficam alagadas. Ninguém confia na capacidade de construção do prefeito. Nas conversas, o exemplo abunda. Abunda mesmo.
Condena-se, por exemplo, o Mamudinho, porque ele tirou as telhas portuguesas do prédio da prefeitura e colocou no seu lugar um telhado de zinco. Um horror! Dessa forma, ele transformou a prefeitura num forno micro-ondas, onde ninguém consegue trabalhar, porque o ar condicionado não esfria. Foi preciso mudar de prédio. Além disso, deixou morrer a famosa Praça Selo Verde, toda arborizada com árvores nativas, e o bosque municipal que tinha reprodução de casa de pescador, lago, teatro para crianças e outros elementos regionais.
O ataúde do mamude
Resta, no entanto, uma esperança, uma luz no fim do túnel. Em Itacoatiara existem muitos igarapés em atividade, que são super-freqüentados pelos moradores: os igarapés de Serpa, Jacarezinho, Jacaré-grande, ligados ao lago; o igarapé do Osório - aonde se vai andando; o igarapé do Treze, na fazenda do João do Joca; o Carão, o Canaçari-grande, o Ingaipáua e tantos outros. No entanto, na profecia do monsenhor Joaquim, ele anuncia que no dia em que o Ventura secar, o povo vai se libertar. 
Ora, o processo desenfreado de urbanização e a burrice dos governantes acabaram destruindo vários cursos d´água no perímetro urbano, eliminando alguns igarapés, os peixes e as plantas que ali viviam. O lago Jauary, por exemplo, foi invadido por casas e transformou-se num depósito de lixo. Da mesma forma, o igarapé do Ventura hoje está praticamente sem água, o que pode ser um sinal, se a profecia do padre for correta, que chegou a hora do povo de Itacoatiara arrebentar seus grilhões. 
Segundo ainda a profecia, no dia em que isso acontecesse, o cacimbão do Mamude seria o seu ataúde, ou seja, seria a morte política do Mamudinho. Pode ocorrer em Itacoatiara aquilo que aconteceu em Alfenas, município de Minas Gerais, há alguns dias? Revoltados com denúncias de corrupção envolvendo o prefeito e alguns vereadores, 4.000 moradores fizeram um protesto, invadiram a prefeitura, apedrejaram a casa dos políticos corruptos, arrancaram portões, quebraram vidros, móveis e equipamentos.
A dona Ninoca, presidente do Apostolado da Oração, o sacristão Nonato e a Irmã Pautila estavam equivocados. Não. Mosenhor Joaquim não estava doido quando percorria as ruas de Itacoatiara com seus quatro cachorros, profetizando que o cacimbão do Mamude será o seu ataúde. O igarapé do Ventura está seco. O povo vai dar o troco, cantando o hino oficial da cidade:
"Que grande orgulho eu sinto em mim, olhando o rio revolto e a serpente raivosa a vibrar, eu tenho um presente venturoso, crescer, viver, lutar".

P.S. - O escritor Áureo Nonato morreu. O "Bucho" está de luto. O bairro de Aparecida está de luto. Manaus coloca uma tarja preta. No dia 7 de dezembro de 1993, publiquei uma crônica intitulada "O destino de Auristino", onde brincava com meu amigo Áureo Nonato, por quem minha tia Ernestina era apaixonada. Enviarei cópia dessa crônica aos leitores cadastrados no site www.taquiprati.com.br .

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