CRÔNICAS

OTTO MARIA E A ENTREVISTA INVENTADA

Em: 18 de Abril de 2004 Visualizações: 2030
Os jornais sofrem para construir a notícia de segunda-feira porque, aos domingos, quase nada acontece. Naquele domingo, dezembro de 1967, o jornal O SOL estava sem notícias. Otto Maria Carpeaux entrou na sala de redação. Trazia cópia de um telex com as declarações de um diretor da Associação Comercial de Recife propondo que as lojas abrissem sempre aos domingos, mas - que safado! - sem pagamento de hora extra aos empregados. Era uma notícia. Insossa, mas era. Carpeaux pediu que eu colocasse tempero nela, entrevistando gente de esquerda e de direita.
De esquerda, não foi difícil, mesmo num domingo à tarde, em plenas festas natalinas. Com ajuda do meu caderninho de endereços, telefonei para vários sindicalistas, que defenderam o dia de descanso e esculhambaram o comerciante pernambucano. Faltava ouvir a direita. Consegui o telefone de um cúmplice da ditadura militar, o ex-ministro da Fazenda, Eugênio Gudin.
- Ele está dormindo a sesta, chame mais tarde -  me responderam.
Eram 14:00 horas. Enquanto esperamos que a direita acorde, aproveito, leitor, para te contar como O SOL nasceu e como é que eu fui parar lá dentro.
Quem lê tanta notícia? 
O SOL circulou pela primeira vez no Rio de Janeiro, no dia 21 de setembro de 1967, como encarte do Jornal dos Sports, que até então só era lido por quem estava interessado em futebol, atletismo, natação, boxe, automobilismo, turfe, torneio de pelada e campeonato de cuspe à distância. Quando Mário Filho, seu proprietário, morreu, sua viúva, dona Célia Rodrigues, decidiu conquistar outros leitores e aceitou a proposta idealizada por dois grandes jornalistas: Reynaldo Jardim e Ana Arruda.
Reynaldo Jardim foi quem criou, em 1960, o Caderno B, do Jornal do Brasil e reformou muitos jornais em todo o país, inclusive  A Crítica, de Manaus. Por isso foi apelidado de macaco-inventor. Ana Arruda, sua cúmplice, pilotava os sonhos que juntos concebiam. Ambos observaram que todos os jornais se pareciam, que o leitor estava desinteressado, que o modelo jornalístico dominante no país não dava mais no couro e precisava ser implodido. Era necessário inovar a linguagem, a pauta, a temática, a diagramação e até mesmo a organização editorial. Conceberam, então, O SOL, uma espécie de jornal-laboratório, destinado a ser campo de experimentação para jornalistas estreantes, supervisionados por profissionais experientes. 
O novo jornal ficou muito conhecido, porque na música Alegria, Alegria, tocada em todas as rádios, Caetano Veloso cantava:
O SOL nas bancas de revistas, me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia... 
É que Dedé Gadelha, sua namorada, estava entre os alunos-repórteres do novo jornal-escola, escolhidos em disputado concurso, organizado em três fases: uma redação sobre a nova moda da mini-saia, uma prova com perguntas sobre a atualidade e uma entrevista. No final, apenas 50 estagiários foram aprovados, ficando automaticamente inscritos no curso intensivo de um mês, dado por jornalistas tarimbados, como Otto Maria Carpeaux, que se tornou conselheiro do jornal. 
Otto Maria, o editor
Ah, onde é mesmo que nós estávamos? Na entrevista com o Eugênio Gudin. Chamei-o pela segunda vez, às 15:00 horas, mas ele continuava dormindo. Portanto, leitor, temos tempo para que eu te apresente o Carpeaux, uma figura sagrada e consagrada do jornalismo brasileiro.
Quando ele nasceu, em Viena (Áustria), em 1900, recebeu o nome de Otto Karpfen. Estudou física, química, matemática, filosofia e letras e doutorou-se em ciências naturais pela Universidade de Viena. Durante a invasão da Áustria pela Alemanha, em 1938, viu os nazistas estuprarem uma parenta e, traumatizado, ficou gago pelo resto da vida. Fugiu para a Bélgica e no ano seguinte fixou residência no Brasil, já com o nome de Otto Maria Carpeaux, colaborando desde então com o Correio da Manhã até 1965. Erudito, escreveu vários livros sobre a história da literatura ocidental e sobre a história da música. Morreu em 1978, infartado.
Naquele domingo de dezembro de 1967, às 16:00 horas, a edição estava sendo fechada. Carpeaux me deu prazo de dez minutos para entregar a matéria. Telefonei pela terceira vez, mas Eugênio Gudin continuava roncando. Então, resolvi inventar - o que não requeria muita imaginação - pois eu sabia que ele era economista e engenheiro, carioca, tinha 81 anos de idade, era ex-superintendente da Great Western of Brazil Railway Co., ex-delegado do Brasil na Conferência Monetária de Bretton Woods em 1944, ex-diretor do FMI em 1952, dois anos antes de ser ministro da Fazenda no Governo Café Filho. Professor de economia monetária e bancária, havia escrito vários livros sobre o tema.
Na entrevista inventada, fiz Gudin declarar solenemente, entre aspas: "Concordo com a abertura do comércio aos domingos sem pagamento de horas extras aos comerciários". Para dar mais autenticidade, extrai umas expressões em economês da coluna que Gudin publicava no jornal O Globo, e coloquei em sua boca, algo assim como: "Estou certo de que as conseqüências disso sobre a propensão a poupar e a relação capital-produto serão benéficas". Entreguei a matéria, me achando muito espertinho.
A entrevista inventada
Carpeaux tinha o dom do humor, da alegria e da fúria, segundo o seu amigo José Lino Grunewald. Gostou muito da matéria, sobretudo porque pensava que eu havia arrancado aquelas declarações abomináveis de um super-reacionário. Elogiou o texto, mas me pediu uma inversão: Gudin devia aparecer no primeiro parágrafo e no próprio título. Fiquei assustado.
- No título não pode -  disse e confessei, macunaimamente, que nada daquilo havia sido dito.
- De onde, então, você tirou isso? 
- Não houve entrevista. Eu inventei. 
Carpeaux ficou possesso. Escandalizado, deu um berro monumental, que ecoou por toda a redação, paralisando-a. Posso escutar ainda hoje o seu urro e o silêncio letal dos colegas. Seu olhar me fuzilava:
- Você não é um jornalista. Você é um men-ti-ro-so - ele gaguejava, apoplético, repetindo a palavra men-ti-ro-so, o que durou uma eternidade. (Carlos Heitor Cony jura, com carinho, que numa viagem que fizeram juntos do Rio a São Paulo, de carro, Carpeaux começou a falar a palavra "Kierkegaard" em Itatiaia e só conseguiu terminar em Taubaté).
Humilhado, recebi ordens para eliminar as mentiras. Antes, porém, arrisquei uma última ligação. Tive sorte. Gudin, o dorminhoco, enfim, havia acordado.
- O senhor concorda com a abertura das lojas aos domingos? E com o não pagamento das horas extras? Acha que isso influenciará positivamente a propensão a poupar e a relação capital-produto?
Tive sorte de novo. Ele respondeu: "sim" três vezes. Desliguei o telefone. Devolvi a matéria ao Carpeaux, dizendo que podia publicá-la. A entrevista, que havia sido inventada, agora existia de verdade. "Nunca mais faça isso", ele me disse. 
A ética jornalística
Como saber, aos 19 anos, o que é certo e o que é errado? Na guerra em que combatíamos, pensava eu que era válido mentir contra o inimigo: os fins justificam os meios. Otto Maria Carpeaux considerou isso uma monstruosidade. Sua opinião era incontestável, vinha de alguém insuspeito, que compartilhava conosco os mesmos inimigos. A reação dele, indignada, me deu lição que procuro cultivar: o jornalista, trabalhador da notícia, tem compromisso inarredável com a verdade. A mentira e a calúnia são procedimentos de quem, em vez de apurar os fatos, engana o leitor, desrespeitando-o, porque o faz engolir gato por lebre.
Nas minhas aulas como professor no curso de jornalismo, pergunto aos alunos se seriam capazes de inventar algum fato para prejudicar alguém que seja notoriamente nocivo à sociedade. Fico impressionado com as respostas, porque sempre mais da metade da turma de futuros jornalistas acha esse procedimento válido. Aí, então, conto essa história em que figuro - digamos assim - como 'bandido', concluindo que todo jornalista devia trazer, dentro de si, um Carpeaux, questionando, dia e noite, permanentemente, sua conduta ética. Mentira, nem contra o pior inimigo. 
Evidentemente que tais reflexões não invalidam a realização de 'entrevistas imaginárias', como a feita há quinze dias com o ex-secretário de Obras, Paulinho Jacob, já que o leitor foi informado dos procedimentos usados para obtê-la, não configurando, portanto, uma mentira. 
O SOL nas bancas de revista
Vamos re-editar O SOL?
Esse convite foi feito a mim e a outros colegas por Reynaldo Jardim, agora com 78 anos, durante um almoço de confraternização realizado na semana passada, no Rio de Janeiro, com os sobreviventes do jornal, que deixou de circular há 37 anos. 
O almoço foi organizado pela produção do documentário "Caminhando contra o vento", que está sendo realizado pela cineasta Teté Moraes, ela mesma ex-repórter do Sol. Das pessoas que participaram daquela aventura, morreram 19. Os sobreviventes estavam quase todos lá, fomos filmados e entrevistados sobre o que fizemos. 
Alguns colegas lembraram uma entrevista que fiz com Carlos Lacerda, ex-governador do antigo estado da Guanabara. Ele foi um dos civis que participou ativamente do golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart, eleito pelo voto popular. Ambicioso, Lacerda, apelidado de "o Corvo", queria porque queria ser presidente da República. Em 1967, arrependido, ele estava articulando o movimento político da "Frente Ampla", reunindo os seus antigos inimigos - Jango e JK - na luta pela redemocratização do país, que incluía as eleições diretas.
A entrevista com Lacerda ocorreu quase por acaso e teve grande repercussão pelo seu conteúdo. Foi manchete do jornal. Na realidade, foi uma entrevista não planejada. Fui destacado para cobrir o lançamento do livro do jornalista Hélio Fernandes, que havia acabado de chegar do exílio forçado na ilha Fernando de Noronha. Na livraria, vi Carlos Lacerda e lancei sobre ele uma torrente de perguntas. 
"Vou derrubar esse governo fascista, que está podre e não aguenta um ano. O dólar e a baioneta que o sustentam também cairão". Essa declaração de Lacerda abriu a matéria que fiz, toda ela publicada na primeira página e assinada por mim. A manchete do jornal foi "Lacerda:"Vou derrubar esse governo fascista". Logo depois, quem caiu foi Lacerda. Teve seus direitos políticos cassados e a ditadura durou ainda quase 20 anos.
P.S. -  Há quanto tempo Lula preside o país? Mais de 470 dias? Por que até hoje não homologou a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que é uma promessa de campanha? .
CRÔNICA PUBLICADA (01/11/2000) anteriormente com outras sobre a experiencia em jornal.Ver http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=334
 

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1 Comentário(s)

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Henrique Sobreira comentou:
15/07/2016
Perdemos algo nesses tempos em que \"o inventar\" recebe tanta credibiidade...
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