CRÔNICAS

PLANO DE SAÚDE? TÔ FORA!

Em: 18 de Julho de 2004
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Depois de darem o maior murro na vida, Edmundo Pellizari, 73 anos, e sua mulher Ana, 66, se aposentaram. Hoje, recebem, juntos, do INSS, R$1.300,00 mensais. Há vinte anos, o casal vem pagando, religiosamente, um plano de saúde, cuja mensalidade, em maio último, atingiu R$1.469,20.
Agora, a situação ficou ainda mais desesperadora, porque a Bradesco Seguros acaba de aumentar a mensalidade para R$2.660,00, segundo noticiou a Folha de São Paulo (16/07). Ou seja, o que eles ganham, juntos, no final da vida, não dá para pagar nem a metade do plano de saúde.
O aumento de 82% da mensalidade de Edmundo e Ana, que vivem em Indaiatuba (SP), pode até ser um caso extremo, mas não constitui um fato isolado. Drama similar é vivido hoje, em maior ou menor medida, por 37 milhões de brasileiros, muitos dos quais procuraram os tribunais, movendo ações contra os recentes reajustes acima de 11.75%. Esse foi o percentual autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), encarregada de regular as atividades das 2.277 operadoras de seguro-saúde que atuam no mercado nacional.
As operadoras, no entanto, estão protegidas por uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em agosto do ano passado, que permite todo tipo de reajuste para aqueles planos contratados antes de 1º de janeiro de 1999, quando entrou em vigor a atual legislação. Com isso, estão lavando a égua.
Só Bradesco e Sul-América faturaram em 2003 um total de R$25 bilhões às custas de pessoas como Edmundo e Ana e dos médicos que receberam uma merreca para atendê-los. Médicos e pacientes perdem sempre para que as operadoras possam ganhar sempre. A perda de uns se converte em ganho para outros. Quanto mais perde um lado, mais ganha o outro.
De mim, esses vampiros não levam um centavo. Não quero papo com essas operadoras. Não tenho, nunca tive, nem pretendo ter plano de saúde (bato três vezes na madeira – toc! toc! toc!). Cada vez que preciso de um serviço médico, pago do meu bolso, como ocorreu há quinze dias, quando minha úlcera começou a incomodar. As atendentes descobrem que sou “particular” e ficam excitadíssimas, como se eu fosse um ET. Elas repassam minha ficha para as operadoras, avisando:
 - Descobri um cara que não tem plano.
 Parece que ganham uma comissão por essa notificação.Aí, o assédio se torna infernal. Várias empresas que vendem planos de saúde me bombardeiam com telefonemas, prometendo mundos em troca de meus fundos. Rola, então, um diálogo, que começa de forma educada, mas acaba quase sempre em baixaria. O papo se repete, às vezes, três ou quatro vezes por dia, com pequenas variações, de uma empresa a outra.
- Por favor, sr. José? Aqui é da Bloblobló Seguros. O senhor tem plano de saúde?
– Não, graças a Deus.
 – O senhor não deseja contratar um?
– Não, graças a Deus.
 A voz do outro lado, em geral feminina, parece uma gravação programada:
 - Sr. José, o nosso plano lhe oferece blá-blá-blá e blé-blé-blé, proporciona além disso, como vantagens adicionais, bli-bli-bli e bló-bló-bló e, de brinde, ainda lhe oferta blu-blu-blu, edicetra e tal, coisa e lousa e pererê-pão-duro. Vale a pena tentar.
Respondo, de forma ainda educada:
- Não, muito obrigado.
A voz do outro lado fica rodeando toco, sem ir direto ao assunto.
 – Sr. José, como o senhor faz quando precisa de um médico? 
Embora isso seja problema meu e não diga respeito a quem está perguntando, continuo educadamente:
 - Pago do meu bolso, com o dinheiro que não dou para vocês e que, mensalmente, deposito na poupança. Esse é o meu seguro saúde. Eu sou a operadora de mim mesmo.
A voz ameaça veladamente:
 - Sr. José, há muitos e muitos casos em que essa poupança não é suficiente para cobrir os gastos.
– Nesse caso, minha filha, vendo os dois carros velhos que tenho.
 Sr. José, nossa experiência indica que há doenças cujos gastos exigem muito mais do que o preço de dois carros usados.
 – Bom, então, vendo meu apartamento.
 – Há doenças, sr.José, cujos gastos são astronômicos, porque envolvem despesas com médicos, cirurgias, anestesias, laboratórios, exames sofisticados e diárias de hospital.
 Começo a falar alto e termino gritando, aos berros:
 - Olha aqui, minha senhora, se eu não puder me tratar de uma doença grave, me jogo do vão central da ponte Rio-Niterói, mas não dou nenhum centavo pra vocês. Está me entendendo? Nenhum centavo!!! Prefiro bater o pacau e espichar as canelas. Vocês só existem porque conseguem aterrorizar a classe média. Diga ao seu chefe que eu não tenho medo de viver nem de morrer. Minha mãe teve treze filhos, todos crescidos e sadios, e não precisou de plano de saúde para educá-los. Minha senhora, eu ODEIO, com todas as forças da minha alma, as operadoras de seguro-saúde e os bancos”.
 Nessas alturas do campeonato, já estou berrando palavrões impublicáveis, e o meu cachorro latindo. Esse é o sinal para minha filha entrar na jogada. Ela se aproxima do telefone e fala:
 - Venha tomar o seu tranqüilizante, tome logo o seu haloperidol, senão vamos lhe colocar de novo a camisa-de-força.
 Assustada, a funcionária da operadora desliga. Uma delas chegou a dizer: “Esse cara é doido”.
Esse jogo de cena me diverte, porque gera insegurança nas operadoras. Sinto que elas ficam claramente incomodadas com a existência de alguém que não precisa delas, que pode viver sem elas e não está submetido à sua lógica. É como se fosse um mau exemplo.
Considerando a voracidade com que se lançam sobre mim, e a importância que aparentam dar à minha humilde pessoa, parece até que eu estou colocando em risco todo o sistema. De qualquer forma, estou fora do plano de saúde. Reza por mim, leitor, mas sobretudo reza por aqueles que, como o casal Edmundo e Ana, estão dentro dessa categoria indecente denominada “mercado de saúde”. Depois da decisão do STF, só nos resta mesmo rezar.
P.S. 1 - Presidente Lula, Vossa Excelência preside o Brasil há 564 dias, quando é que vai homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol? 

 

 

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2 Comentário(s)

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Regina comentou:
15/09/2016
eu adorei a crônica. Agora que estão prestes a prender o Lula, eu acho q está na hora de reforçar a campanha \"Lava Jato pras seguradoras de saúde já!\" Estamos cada vez mais afrontados por esta corja de vampiros que além de nos assaltar, posam de mocinhos e elegem o Lula como o maior bandido do Brasil! O que é isso? E toda essa máfia que ganha dinheiro às custas do medo das pessoas e que tratam os doentes como restos, vermes, coisas sem importância?
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Nuno A Pereira comentou:
14/09/2016
Bessa: perfeita a contundente, justa e oportuna crítica aos vampiros da saúde publica.. E aonde está o Estado brasileiro nesta história? Omisso e, o que é pior, cúmplice com a máfia da saúde. Todos os planos hoje são armadilhas; atraiem você que paga anos e anos e, na doença, te abandonam. É uma vergonha! Contribui com a CAARJ e depois para sua sucessora, a UNIMED .. Esta foi assaltada pelos seus diretores! Cadê uma operação tipo Lava Jato para a saúde? Chamemos, p.e., Operação Sangue Suga.
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