CRÔNICAS

BIRA, TONICO E AS CABOQUINHAS

Em: 29 de Agosto de 2004
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 Bira e Tonico. Parece até uma dupla caipira. Mas na realidade, os dois são motoristas, um do governador Eduardo Braga, o outro do vice-governador Omar Aziz. Ambos gostam muito de “caboquinha”, nome de uma caipirinha regional inventada em Eirunepé, mistura de cachaça e limão, mas com rapadura no lugar de açúcar. Tirante o dindim de buriti, a “caboquinha” foi o único produto com matéria prima local fabricado durante o ´Terceiro Ciclo´ - um delírio do governo passado, hoje esquecido até mesmo pela cambada de puxa-sacos denominada de ´terceiros-ciclistas´.
É elementar, minha cara delegada Malheiros! Se um motorista, sozinho, chamado Eriberto França, foi suficiente para derrubar um presidente da República, o que não podem fazer, juntos, dois motoristas, calibrados por umas e outras “caboquinhas”? A mistura desses elementos é nitroglicerina pura. Afinal, os dois, além de motoristas, ocuparam cargos de conselheiro no Conselho de Administração da Cosama, o que constitui um caso inédito na administração pública. Estiveram também envolvidos no episódio dos super-salários e conhecem os porões do poder.
Por isso, a PF convocou Ubiraci Araújo e Antônio Fernandes para um interrogatório, que correu em segredo de justiça. No entanto, nós gravamos tudo, graças ao fiel “Pão Molhado”, que conseguiu esconder um microfone na descarga da privada da PF. Depois de entornar várias “caboquinhas”, que funcionaram como o “soro da verdade”, Bira e Tonico contaram tudo num papo federal para o delegado Andrey Rodrigues. Foram sinceros. Demonstraram rara lucidez. Prestaram um serviço à democracia. O Brasil teve Eriberto. O Amazonas tem Bira e Tonico. Confira.
PF - Nós grampeamos os telefones de vocês. Queremos checar alguns dados.
Bira - Confesso tudo, mas pelo amor de Deus não divulguem os telefonemas que dei para umas caboquinhas de verdade, minhas namoradas, porque senão a patroa me dá uma surra quando eu voltar pra casa.
PF – Ok. Agora me diga: a Operação Albatroz já indiciou 36 pessoas, dos quais dois secretários e dois ex-secretários. Tem ainda mais gente graúda envolvida com a quadrilha?
Tonico – Viche Maria! Só tem! Era tanta gente comendo, que parecia até um bando de priquito numa mangueira carregada de manga. Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão.
PF – Muitos políticos do governo estão dizendo que a prisão e o indiciamento desse pessoal tem cunho político, é uma manobra para tirar proveito eleitoreiro.
Bira – Sinceramente, longe de mim puxar saco do delegado, mas acontece que esse pessoal sempre confundiu PF com PFL (viche! viche!). Achavam que a Polícia e a Justiça tinham a obrigação de defender os interesses da curriola no poder. Agora, que a PF está independente, prendendo ladrão rico do PFL, eles reclamam. Não é mesmo, Tonico?
PF – Alguns vereadores e deputados acharam estranho que a Operação Albatroz tenha sido desencandeada em pleno período eleitoral.
Tonico – Seu Delegado, o sr. mesmo disse que a investigação começou em 1999, porque nessa época a PF recebeu denúncia de que o deputado Cordeirinho estava comendo a merenda antes do recreio, ostentando um padrão de vida luxuoso, incompatível com sua renda. A escuta telefônica foi iniciada em janeiro de 2003. A investigação continua. Quer dizer, então, que a Polícia e a Justiça devem parar de trabalhar no período eleitoral? Eu, hein!
PF - O governador assinou nota considerando como “oportunismo político” o indiciamento de Bosco Saraiva, Ari Moutinho, Isper Abrahim, e Fernando Elias, todos eles ex-secretários ou secretários de Estado.
Bira – O governador que me desculpe, mas creio que oportunismo político é usar o argumento de que estamos em período eleitoral para tentar impedir a investigação de crimes que clamam aos céus e pedem a Deus vingança. Não são os acusadores, mas os acusados, que usam o momento político para gozarem de impunidade.
PF – Vários vereadores disseram que não se pode condenar antes de ter provas e que eles metem as duas mãos no fogo por alguns indiciados.
Tonico - É, bebé! Mas também ninguém pode inocentar, antes de investigar, como eles estão fazendo. Cometem o mesmo erro que estão denunciando. Ninguém é culpado, mas também ninguém é inocente. Só a investigação pode provar uma coisa ou outra. Então, vamos deixar que a PF faça o seu papel investigativo, em vez de obstruir a investigação, sob pretextos - esses sim - eleitoreiros.
PF – Vocês podem fazer um retrato ´pisico-analítico´ do Cordeirinho
Bira – Ninguém gosta de apertar a mão dele, porque está sempre emelecada. Entre um charuto e outro, ele vive enfiando o dedo no nariz para ‘limpar o salão’. 
Tonico – Ele tem a mania de tirar cera do ouvido com tampa de caneta bic.
PF – Quem é o chefe do Cordeirinho? Quem é o Lobo?
Bira e Tonico (falando juntos) – É alguém que sabe onde moram as corujas, conhece o caminho das pedras, dá rasteira em cobra e escova urubu. O nome dele é...gololó, gololó,gololó... (alguém mijou e puxou a descarga da privada onde estava o gravador, fazendo um barulho que prejudicou a gravação).
PF – (insistindo) Nós vamos pegar o cabeça-mor dessa quadrilha.
Bira (o mais intelectual dos dois, com voz rouca) - Leia o livro do Marcos Bezerra, que fez várias pesquisas na área da antropologia da corrupção. Ele prova que não basta prender os corruptos, sem mudar todo o sistema de licitação, que está podre e que favorece o aparecimento de novos cordeirinhos e novos lobos.
PF – Afinal, existe gente honesta no Amazonas?
Tonico – Existe. A questão – como escreveu o leitor MP@70 para o Taquiprati – é saber em que cargos eles se encontram. Diante da farra com o dinheiro público, onde estavam a polícia amazonense, o Tribunal de Contas do Estado – o Tribulins, meu Deus? - a Assembleia Legislativa, o Poder Judiciário, o Ministério Público, a imprensa, os cidadãos de bem e os eleitores? Sobrou alguém? O bispo? O que mais venho me questionando é quem de nossa paróquia escaparia a um juízo rigoroso? E quem faria esse juízo? Algumas vozes pulam em defesa da legalidade denunciando arbitrariedades, politicagem nas ações da PF por estas bandas. Mas essas mesmas vozes emudecem diante das prisões de filhos de pobres nas delegacias da cidade e nas cadeias públicas em geral, como aconteceu recentemente com a Operação Hollywood, que baixou o cacete nos camelôs. Alias, nestes casos o mais comum é ouvirmos quem defenda a implantação da pena capital. Acho que de certa forma, somos todos culpados, uns mais, outros menos. Que Deus permita que os Biras e Tonicos digam a verdade, mesmo embalados por “caboquinhas”.

P.S. Não quero ser inconveniente, mas sou obrigado a lembrar mais uma vez que Lula governa há 606 dias e não cumpriu sua promessa de homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol..

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