CRÔNICAS

BALADA DA VILA REZENDE

Em: 20 de Março de 2005
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.Há tanta angústia antiga em cada prédio! / Em cada pedra nua e gasta.

Luiz Bacellar (1928- 2012), poeta amazonense, Noturno do Bairro dos Tocos
 
O bonde do tempo trafega pelo Bairro de Aparecida, o antigo Bairro dos Tocos. Desço na parada da Vila Rezende, em 1950. Visito, uma por uma, suas 16 casas, oito de alvenaria, com dois andares, e oito de madeira, com um quartinho e uma cozinha. Todas elas têm “a mesma fachada nua, as mesmas janelas tristes”. Ai comadre, “há tanta angústia antiga em cada prédio, em cada pedra nua e gasta”, que me dá uma vontade danada de ficar relendo as histórias da Cabrita Rolimar e da Vaca Cristina, cantadas em versos por Luiz Bacellar, o nosso poeta maior. Peço-lhe, comadre, que me acompanhe nessas visitas, e escute outras histórias, desta vez narradas em prosa.
Na casa 1, encontro dona Aracy, casada com um juiz de direito, Mozart Martins. Um dia, ele se engasgou com uma espinha de jaraqui, os vizinhos acudiram e rezaram juntos, em voz alta: “São Brás Bispo, a palavra que Deus disse, que essa espinha descesse ou subisse”. Desceu, mas foi empurrada por banana e farinha.
A casa 2 é o lar-doce-lar da Dona Nina, seu Edílson e sua filha Elaine Ramos. Na parede da sala, pendurada, uma tabuleta de madeira, com um machado cravado num tronco e a frase: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”. Seu Edílson gosta de usar silaque – um blusão de algodão, que lhe dá um ar de explorador britânico. Ele capricha no perfume Royal Briar, vendido em conta-gotas, nas festas do Careiro.
A vizinha da casa 3 é Berta Mota, dona Bebé, casada com o João Bangu, da Alfaiataria Poli. Ela toca piano no Grande Hotel e no mezanino do Bar Americano, um repertório que inclui o samba-canção estilo dor-de-corno “Ninguém me ama, ninguém me queeeeer” e o sucesso da Vanja Orico no filme ‘O Cangaceiro’: “Olê, mulhé rendeira, Olê, mulhé rendá!”.
Dona Cecília, casada com o seu Orestes Magalhães, mora na casa 4. Ele pega todo dia o bonde, e vai pro Tribunal de Justiça, onde é bibliotecário. Na parede da sala, está o seu diploma de datilografia, conferido pela Escola Royal e assinado por dona Hilma Thury.
Entramos na casa 5, de cujo banheiro sai uma voz melodiosa: “Vem, oh, cigana bonitaaaa, ler o meu segredo”. Toda a vila escuta, hipnotizada, o gogó de ouro dos Tocos, Estevão Santos, sua voz, seu violão, cantando Zíngara. Ele mora aqui, com sua mãe, dona Marina, e seu pai, Estevão.
Dona Cândida Azevedo, da casa 6, mora no lado pobre. Lava roupa pro lado rico da vila, enquanto seus filhos Aníbal, Silvio e Hélio roubam goiaba no quintal da Maroca – a Maria do Capinzal. Aníbal, o ‘Tamborete’, é baixinho, gordinho e roliço. Dizem que ele passou muitas vezes por debaixo da mesa, por isso não cresceu. É office-boy da Quatro e Quatrocentos. Dentro de alguns anos, vai montar loja de móveis na Rua da Instalação.
A moradora da casa 7, dona Maria Rosa Pinheiro, tem uma filha – a Socorro. Mais tarde, ela vai se mudar para um chalé no Beco da Bosta, onde ao entardecer brincará de “Larga, Estreita ou Estreitinha” sendo larga um aperto de mão, estreita um abraço e estreitinha, um beijo.
Seu Raul, funcionário do Banco Ultramarino, canta de galo na casa 8. Desde pequenininho, toma umas e outras. Dizem que ele bebeu cerveja XPTO na mamadeira, mas agora ele gosta mesmo é de cocal. Costuma dizer: “A única pessoa que me viu sóbrio foi a parteira”.
A casa 9, às vezes, fica desfalcada de seu chefe, trabalhador, que pilota um motor de linha para o interior. O Comandante Bem-te-vi, de nome Ignácio Bastos, educou muito bem seus filhos – o Ignafran e a Ignaran. Mora também uma enteada gostosinha apelidada de “Pato-no-tucupi”, porque só veste roupa de cor amarela. Abro o seu guarda-roupa e vejo, amarelando: vestido tomara-que-caia sem mangas e com cavas grandes, saia plissada tipo sanfona, vestido de organdi e uma saia godê, com várias anáguas e combinações.
Seu Davi, leiloeiro, mata um Golias por dia na casa 10. Gente finíssima. O filho, Davizinho, puxou o pai. Vive escondido num terreno detrás da casa do seu Duca, sapateiro, cognominado Duca Peidão. É lá que Davizinho acocha a Lizete, uma caboquinha que só usa talco Cashmere Bouquet, comprado nos marreteiros da Rua dos Barés.
A casa 11 está ocupada pelo paraense Samuel Ohana, comedor de carne de jacaré. Diariamente, quando na Rádio Difusora começa o prefixo musical da crônica de Josué Cláudio de Souza (pai) – tam-tam-tam-tam - seu Samuel grita pra toda vila ouvir: “Meio dia, macaco assobia, panela no fogo, barriga, vazia”.
Dona Maria, filha do seu Antonico, proprietário da Garagem Rio Negro, que explora os carros de praça, casou com o cearense João Militão. Na cozinha da casa 12, ela faz um salame de cupuaçu, enrolado com pedaços de castanha torrada, pra comunista nenhum botar defeito.
O seu Jauapery, pai do Paulo Bacurau e do Carlos, que morreu depois que mudaram pra Xavier de Mendonça, mora na casa 13. Ele é chiquérrimo, até porque só veste terno de casimira, camisa de fio helanca ou volta-ao-mundo e sapato bicolor, marrom e branco. Quando fala, em cada frase, costuma usar a expressão “até porque”.
A vizinha da casa 14 é Dona Altina, casada com o Manoel Barros. Com ela, vive de favor uma afilhada que ficou no caritó e – parece – nunca furunfou. A afilhada reza todos os dias uma oração que toda vila Rezende conhece: “Valei-me, meu Santo Antônio, valei-me como podeis, já tenho teia de aranha, naquilo que vós sabeis”.
É na casa 15 que dona Zuzu festeja os aniversários de seus filhos Nadir e Armando, empregado da Nestlé, com um senhor bolo de macaxeira e muita puxa-puxa de mangarataia. “Aniversário é bolo com guaraná Luséia, o resto é prosopopéia”, ela sentencia.
Dona Dudu, esposa do dentista Abelardo Santos, todo dia, às 17 horas, com uma pontualidade britânica, sai da casa 16, levando uma cuia de Monte Alegre, pintada, e vai tomar tacacá na banca da dona Alvina. Com o palitinho, pesca o jambú e espeta o camarão seco. Depois, no maior suadouro, se abana com um leque sobre cujas varetas cobertas de papel estão pintados pássaros e flores.
Houve mudanças. Novos moradores chegaram. A família Peixoto, com um montão de filhos, e dona Maria Amélia, mãe da Lenir e do Leno, tia da Lene e da Rose, que deram nome às úlceras do Marcelo Magaldi. Um dia, o Leno foi comungar, tirou a hóstia consagrada da boca, guardou-a no bolso, e voltou pra casa, dizem que por onde ele andou o chão ficou salpicado de sangue. A vila recebeu ainda dona Nega, Claudete, Capilé, Elita e Lucila, além da dona Guiomar, mãe do ex-senador João Bosco, do Domingos e do Zé Amazonas. Finalmente, imaginamos uma casa fictícia, de número 17, para abrigar meu amigo Rubi Rola, que gosta de ver seu nome impresso nessa coluna.
Ai comadre, cadê essa Manaus que se foi no bonde do tempo e que se perdeu na lembrança? Vamos pedir ao Bacellar, comadre, pra poetar a balada da Vila Rezende.
P.S. Lula governa há 809 dias e até hoje ainda não conseguiu homologar a demarcação, em áreas contínuas, da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol.

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2 Comentário(s)

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Céu Freire (via FB) comentou:
06/06/2014
Parece a Rua Carolina das Neves da minha infância!
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Neida Sá Peixoto (via FB) comentou:
06/06/2014
Lindo resgate do cotidiano de Manaus dos anos 50. Irei compartilhar com os meus.
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