CRÔNICAS

A NOVELA DO MENSALÃO

Em: 10 de Julho de 2005
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A novela é a cachaça do brasileiro. O vício é tão forte que a gente toma umas e outras, diariamente, em doses homeopáticas e ainda exporta pro resto do mundo. Não é mais possível imaginar o Brasil sem várias novelas no ar ao mesmo tempo, em diversos horários. Virou uma tradição, uma marca de nossa identidade. Quando uma termina, a outra já está engatilhada. O telespectador se amarra numa história que conta, capítulo por capítulo, acontecimentos vividos por diferentes personagens.
Entrou no ar, porém, uma nova onda de reality shows capazes de desnudar os participantes, exibindo na telinha suas amídalas, tripas, vísceras e peças anatômicas mais íntimas. Talvez, por isso, as sessões das CPIs transmitidas ao vivo pela TV Câmara estão tendo enorme audiência. As CPIs têm todos os ingredientes desses programas devidamente misturados com os de uma novela: aventura e suspense em tópicos sequenciados, com direito a barraco explícito, entranhas expostas e ainda a vantagem de ser ao vivo e em direto.
Os títulos são diferentes – CPI do Mensalão, do Bingo, dos Correios – mas a trama e os atores são sempre os mesmos. Exatamente como nas novelas. Tem um vilão careca, cujos cúmplices mentirosos e sórdidos são capazes de qualquer perfídia. Taí o Zé Bisonho (´A lua me disse`), que não me deixa mentir. Tem mocinhos que lutam contra os vilões, são derrotados no meio da história, mas no final acabam vencendo. Tem personagens ambíguos, que é preciso aguardar o fim da trama para saber de que lado estão. Tem armação, violência, coação, falsidade, traição, intimidação, humor e muita bravata, além de várias mocinhas, que se metem em situações arriscadas. Tem até a chamada para os próximos capítulos. 
Núcleo das secretárias
O século XXI está assistindo, portanto, ao surgimento no Brasil de um novo gênero televisivo – as CPIs - com linguagem e estrutura narrativa próprias, que misturam lances de novela com o esquema do Big Brother. Seus capítulos, denominados de sessões, são animados por vários núcleos. Como nas novelas, existe também uma fórmula, uma receita, para os roteiros das CPIs. Toda CPI que se preza tem um núcleo do baixo-clero, envolvendo secretárias executivas, ex-esposas insatisfeitas, motoristas abelhudos e motoboys descontentes, que acabam entregando o vilão careca.
As secretárias têm uma cara familiar, parecem pra cacete com a vizinha, com uma colega de escola, com a balconista da farmácia ou a caixa do supermercado. Devem ter nomes compostos e sonoros: Fernanda Karina, Renilda Cristina, Katya Sylene, Maria Edina, com sobrenome preferentemente de origem italiana: Somaggio, Fantini, passíveis de receber proposta para posar nua na ‘Playboy'. Estaria condenada ao fracasso de público uma CPI que fizesse a oitiva de secretárias chamadas Glória, Regina, Helena, Ângela, Stella, Aparecida, Celeste, Elisa, Dodora, Rosilene ou simplesmente Maria do Céu.
Por isso, não vão dar muito ibope os depoimentos da Geiza e da Simone, as duas funcionárias das empresas do Careca que contavam o dinheiro do mensalão. Elas não têm nome composto. Já motoristas que atuam em CPIs têm um único nome inconfundível, não tão comum, como Eriberto, que inaugurou o gênero televisivo, ou Wendell, que deve depor nas próximas sessões para explicar se é mesmo verdade que pegou 200 mil dólares com o Delúbio Soares em São Paulo e o levou para a deputada Neide Aparecida (PT-GO) em Goiânia nas últimas eleições municipais.
Os motoboys, que pertencem a esse mesmo núcleo, têm jeitão de porteiro ou de ascensorista do prédio. Podem se chamar Joelson ou Batistinha, mas em geral são conhecidos por apelidos com diminutivos, como é o caso dos motoboys Marquinhos, Rapidinho e Orlandinho, que irão contar nas próximas sessões como é que eles sacavam somas vultuosas em dinheiro no Banco Rural.
Núcleo das Excelências
A alma das sessões da CPI é o núcleo dos deputados. O macaco Simão jura que os parlamentares do PMDB (viche), do PFL (viche! viche!) e do PSDB fizeram cirurgia de reconstrução do hímen, todos eles viraram virgem. É irritante ver na telinha o Toninho Malvadeza Neto (PFL – BA) mastigando chiclete sem parar e afetando uma honestidade ilibada, recém estreada, fingindo ter um cabaço que toda família Magalhães há muito já perdeu. Ele acha que as pessoas esqueceram o vovô ACM – o Malvadeza Sênior – que foi um dos pilares do Collor, com todas suas sujeiras e patifarias.
O próprio Bob Jeff – o grande inquisidor – confessou ter recebido R$ 4 milhões do vilão Careca e até hoje não explicou o que fez com a grana. Com seu sigilo bancário quebrado, surpresas virão. Sabe que vai ser cassado, mas desfila pelos programas de TV jurando que vai cair como índio: com faca entre os dentes e machadinha na mão. Só que essa é a imagem do índio do cinema americano. Dessa forma, ele pode até escalpelar o Careca : Ugh! Ugh! Ugh! No entanto, os Tupinambá, os Manaú, os Makuxi, os Mura lutaram com arco, flecha e borduna  e jamais com faca e machadinha.
Já alguns deputados do PT – esses sim, perderam a virgindade. A começar pelo José Dirceu, que ao pedir demissão da Casa Civil, disse que saía do planalto para lutar na planície, que na semana seguinte ia esclarecer tudo e até agora, necas de pitibiribas. Emudeceu. Por que ele não processa o Bob Jeff, que o denunciou como chefe de quadrilha? Também o deputado Jorge Bittar (PT/RJ), na sessão do depoimento do Careca, só faltou demonstrar que Marcos Valério perdeu muito dinheiro ao trabalhar para o Governo. Francamente, morro de vergonha , eu que um dia votei no Bittar. Como diz Chico Alencar, agora “só o PT pode salvar o PT”.
Com esses personagens na novela do mensalão, quem faturou foi o vilão Careca. Ele obteve um ‘habeas-corpus', dois ‘datas-venias' e três ‘argumenta enrolationorum' para não sair preso da CPI. Perguntado como explicava o seu patrimônio que subiu de R$ 6,7 milhões em 2003, para R$ 14,2 milhões em 2004, o Careca respondeu: “Isso foi fruto do trabalho, de muito trabalho”. Negou ter pago os R$ 4 milhões para o Bob Jeff e declarou patético, com a voz embargada:
“Além de negar, quero deixar um recado para minha família. Filha, o legado que eu deixo para você, filha, não mexa com o governo. Minha filha, não assuma a empresa de seu pai, não faça negócios com o governo”. O Careca, então, chorou. Seu cinismo desafiou os neurônios dos deputados e dos telespectadores. Nem o assassino da Odete Roitman, nem o Paulo Salim Maluf tiveram tanta cara de pau.
Apesar dos canastrões, quem segue os capítulos diários da CPI tem enriquecido seu cabedal cultural, entre outras coisas, seu universo lexical , provando que CPI também é cultura. Foram essas sessões que fizeram com que muita gente incorporasse em seu vocabulário palavras novas como ‘oitiva'. Anota aí jovem leitor – oitiva - pode cair no próximo vestibular .
P.S.1 – Os telejornais acabam de anunciar que José Adalberto Vieira (PT-CE), candidato derrotado a vereador de Aracati, interior do Ceará, foi preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com quase meio milhão de reais em dinheiro. Ele é assessor do deputado José Nobre Guimarães, irmão do José Genoino. Levava cerca de 100 mil dólares escondidos na cueca. Como os tempos mudaram! Antigamente, na cueca, se guardavam outros valores. Por outro lado, o PT, também, guardava outros valores. Aguardem agora a CPI do Cuecão.

P.S. 2 – No Amazonas , o Negão tremeu nas bases quando soube que foi criada a CPI para apurar a compra de votos no Governo FHC..

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