CRÔNICAS

DE SOL A SOL, O CHORO DE ADROZILA

Em: 02 de Outubro de 2005
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A última vez que nossos caminhos se cruzaram foi em 1958, no curso de datilografia da Escola São José, ali na Luiz Antony, quando aprendíamos a catar milho com Carmela Faraco. Com sua cara angustiada, Wilson parecia ter saído da tela ´O grito', pintada pelo norueguês Edvard Munch. Parece absurdo, mas hoje me lembro muito bem dele cada vez que assisto um capítulo de ‘América'. Ai, então , me pergunto: será que ainda está vivo ? Se estiver, sei que completou 58 anos , porque nós dois somos da mesma idade .

Há meio século , Wilson morava ao lado da minha casa , parede com parede , no beco da Bosta . Sua existência me permitiu entender, sem discutir, o mistério da Santíssima Trindade . Ele era o exemplo vivo de que era possível existir três pessoas em uma só, como era repetido nas aulas de catecismo. Wilson era um em três. Havia, primeiro , o meu vizinho, que era castigado pela mãe : - “Vilson, traz a palmatória ”. Depois, havia o aluno do Grupo Escolar Cônego Azevedo, que era punido pela professora: “Uilson, vem ajoelhar no milho ”. Finalmente , havia o ‘Choro', que levava porrada da molecada do bairro : - “Sabacu nele!”.

As pessoas eram três, bem distintas, mas a natureza delas era uma só: saco de pancadas . Vilson chorava em casa , Uilson gemia na escola , e o ‘ Choro ' soluçava na rua, de onde , aliás , ganhou o nome apropriado, porque chorava de manhã, de tarde, de noite, de madrugada . Minto, ele não chorava, ele era a própria encarnação do choro . De seus olhos, inchados de tanto pranto, jorrava uma pororoca de lágrimas . Era o Choro em figura de gente .

Ninguém sabe – exceto o escritor Hemingway - por quem os sinos dobram, mas a gente sabia porque o ‘Choro' chorava. Sua mãe, dona Adrozila, o esbofeteava com a mesma freqüência e a mesma naturalidade com que bebia um copo d' água. Mas não se limitava à pancadaria tradicional. Diariamente aplicava surras descomunais no filho indefeso, inventando novas formas de espancá-lo e torturá-lo. Usava diferentes instrumentos para bater: palmatória, cinturão, pedaço de pau, chicote, fio elétrico, ferro de engomar. Um dia, amassou uma panela na cabeça do desgraçado, porque ele mijou na rede.

 Sol de América

O seu Tracajá, vizinho do outro lado, foi cimentar o tanque no fundo do quintal, e esqueceu em cima do muro uma carteira de cigarros Astória, aquela toda amarelinha. O ‘ Choro ' decidiu experimentar umas tragadas. Dona Adrozila deu o flagrante e esfregou pimenta malagueta na boca dele, cujos lábios incharam. Ficou beiçudo . Além da pimenta, ele foi queimado muitas vezes com ovo quente cozido : - “ Pra aprender a não falar nome feio ”, ela dizia em sua cruzada contra o palavrão . Se fosse hoje, o procurador Públio Caio metia Adrozila na cadeia .

Cada vez que era covardemente martirizado e açoitado , o ‘ Choro ' berrava como um cabrito que estava sendo degolado e esquartejado. O corpo dele, marcado por cicatrizes , exibia as marcas da violência . Era crucificado e descia aos infernos várias vezes por dia . O beco todo se comovia, ouvindo seus lamentos : -“Ai, mãeginha, eu não faxo mais , mãeginha”. A bruxa Adrozila batia ainda mais forte , exigindo: -“Engole o choro . Engole o choro ”.

O ‘ Choro ', moído de porrada , acabou sendo engolido pela crueldade sádica da mãe . Tornou-se um menino amedrontado. Sua cara era a imagem da dor , do sofrimento, da melancolia , como ‘O Grito ' de Munch, com aquela boca aberta em forma oval , as duas mãos tapando os ouvidos , a cabeça de quem fez quimioterapia e a expressão de horror nos olhos . Não dá pra perdoar dona Adrozila. Eis ai aonde eu queria chegar . Não dá também para perdoar a Sol , personagem da novela ‘América', por uma razão aparentemente boba : ela é ligeiramente estrábica e desenxabida , como dona Adrosila, que torturava o ‘ Choro '. Deu pra entender ?

Pode parecer irracional , mas toda vez que olho a Débora Secco, vejo dona Adrozila, a carrasca , a perversa , a má. Essa semelhança física me incomoda, não posso admitir que a veterinária Simone Gabriela Duarte seja trocada pela Sol Adrozila Secco no coração do Tião, interpretado pelo Murilo Benício. O cara é muito babaca. Se eu fosse o pai dele, que baixa em sessão espírita para aconselhá-lo, diria: “ Deixa de ser leso e abestado, rapaz . Te manca . Aprende a escolher mulher . Vê se fala direito , não fica enrolando a língua ”.

Outro ainda mais leso é o Ed, que vem correndo, lá de Miami, atrás dos faróis trocados da mocréia Sol Secco Adrozila, em vez de mergulhar fundo nas duas piscinas azuis da Camila May Morgado , com aquele charme e aquele talento de Olga Benário. O Ed, francamente , acende velas no túmulo de Santa Etelvina. Mais lesa ainda é a Glória Peres , que escreveu a novela , e pensa que pode convencer a gente sobre a possibilidade de troca tão desigual . Eu hein ? Quem é idiota de trocar a Camila Morgado pela Adrozila Zarolhinha?

Sol do Brasil

Acabei me dispersando, escrevendo sobre o ‘ Choro ', a dona Adrozila Vesgueta e a Sol Secco, quando o que queria mesmo era falar de outro SOL , um jornal diário editado no Rio de Janeiro em 1967, em plena ditadura . Circulou, no início , como encarte do Jornal dos Sports , e depois de forma independente . Foi um jornal-escola que fez oposição ao regime militar e inovou a linguagem , a pauta , a temática , a diagramação e até mesmo a organização editorial .

Nesta semana , dentro da programação do FEST/ RIO , foi exibido no Cine Odeon o documentário “Caminhando contra o vento ”, dirigido por Teté Moraes e Martha Alencar, contando a história do SOL , que ficou mais conhecido ainda através da música Alegria , Alegria , de Caetano Veloso. Ele cantava: O SOL nas bancas de revistas , me enche de alegria e preguiça , quem lê tanta notícia ... Dedé Gadelha, então namorada de Caetano, estava entre os alunos-repórteres do novo jornal-escola.

O documentário tenta reconstruir aquela época – década de 60 – entrevistando Gil, Caetano, Chico Buarque, Gabeira, Vladimir Palmeira , Arnaldo Jabor, Betty Faria, Ziraldo, Ana Arruda Calado , Reinaldo Jardim , Hugo Carvana e outras personalidades , reproduzindo histórias contadas por eles , algumas engraçadas, outras meio trágicas, falando de prisão e tortura .

Foram entrevistados também repórteres que fizeram o jornal , entre os quais este que digita essas mal traçadas linhas . No meu depoimento , falei que em 1968, ia mudar o MUNDO , mas no exílio , percebi que o mundo era grande demais e me conformei com o Brasil. Na volta , limitei o sonho ao Amazonas , onde nasci. Vi que também não dava. Reduzi, então , o sonho à Universidade , onde trabalho , mas não consegui mudar sequer o meu departamento . Apesar disso, hoje , sinto que minha contribuição para mudar o mundo consiste no dialogo com você , leitor (a), ou no modesto trabalho em sala de aula , quando tento formar profissionais competentes e decentes, politicamente corretos , eticamente responsáveis .

Talvez a mudança do mundo não passe por gestos de grandes heroísmos , feitos épicos e tarefas grandiosas, mas por esse trabalho anônimo de formiguinha. Quanto à Sol Secco - coitada ! – entrou nessa história como Pilatos no Credo .

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